Ellen Manfrim: ‘Nossas novas conexões’

Nossas novas conexões

 

Ellen Manfrim

Todo mundo sabe que pode aprender novas coisas, mas pouca gente sabe o que isso significa em termos neurocientíficos.

Há algum tempo, acreditava-se que nosso cérebro era formado antes mesmo do nascimento, e que as conexões estabelecidas seriam imutáveis. Dessa forma, os neurônios traçariam conexões permanentes entre si, que perdurariam durante toda nossa vida. Com a evolução da neurociência, aprendemos que isso não é uma verdade: fazemos novas conexões neuronais diariamente e ao longo de toda a vida, dependendo de quais são as necessidades daquele momento, ou seja, do que precisamos aprender.

Essa é a famosa neuroplasticidade, ou seja, a capacidade que esse órgão sensacional chamado cérebro tem de adquirir novas habilidades, novos caminhos e de driblar dificuldades. Essa mudança no tecido cerebral ocorre através da formação de novas sinapses, que nada mais são do que a conexão entre dois ou mais neurônios.

Com a descoberta dessa propriedade cerebral, o entendimento sobre as possibilidades de aprendizagem se renovou: sabemos que todos têm a capacidade de aprender uma nova habilidade. E não estou aqui citando apenas a aprendizagem pedagógica formal, mas todo o conteúdo aprendido para a inserção humana na sociedade, ou seja, no quanto temos que aprender e mudar para vivermos bem com nossos companheiros de mundo.

A ciência nos mostrou que isso é possível! Que basta treino e boa vontade para realizar novas sinapses. Talvez mais boa vontade do que treino. Mas o fato é que temos a capacidade de substituir velhos e prejudiciais hábitos por outros benéficos.

Talvez a pandemia da Covid-19 tenha ocorrido com esse propósito: mostrar ao ser humano a sua força e a sua maleabilidade. Estamos passando por esse período no qual aprendemos muito, mudamos absurdamente, tornamo-nos mais humanos, abandonamos velhos hábitos e criamos outros. Novas sinapses foram formadas. Agora, nos resta escolher quais dessas sinapses queremos manter, e quais abandonaremos nessa reedição da humanidade que fomos obrigados a enfrentar. Afinal, a única constante nesse turbilhão que é a vida é a mudança

* Ellen Manfrim é neuropediatra em Santa Cruz do Rio Pardo

 

  • Publicado na edição impressa de 6 de setembro de 2020