Zanata: ‘Homem de pensamento’

Homem de pensamento

 

João Zanata Neto

É tão ineficaz que se perde a esperança. Uma vida inteira poderia ser desperdiçada. Muitos anos seriam passados em vão. Eu não chamaria isto de um vício porque o vício trás um prazer. A obsessão seria o vício muito mais intenso, mas mesmo esta produz um deleite que a torna uma denominação inadequada. Insanidade também não serviria para denomina-la, pois ela percorre tortuosos raciocínios. Ela poderia ser considerada um desafio por possuir objetivos, estratégias e dificuldades? É compreensível que alguns a tenham como atos heroicos, mas em todo heroísmo há um sentimento ególatra que desvirtua a conquista. É preciso não se empolgar com o entusiasmo alheio porque nele há alguma covardia que se oculta. Não se alimenta a covardia alheia para satisfazer-lhes uma vergonha que incômoda. A noção de incapacidade é algo prudente onde a covardia não é vergonhosa. Quer dizer, então, que sempre há uma imprudência em todo ato heroico que gentilmente denominamos de ousadia.

Quem se dedica a tal coisa não tem noção da própria limitação ou, propositalmente, ignora a incapacidade? Eis aí a ilusão, o ponto cego de todo aquele que se dedica. É necessário, talvez, que seja desta forma. A transição entre o que se desconhece para algo conhecido invoca absurdos que transgridem as razões. As incoerências incomodam enquanto não são satisfeitas por razões e isto é muito bom quando é possível. Mas, quando parece impossível ou muito difícil por ser algo invisível ou intangível, uma pequena lógica que se alcança é suficiente para amenizar as frustrações. Talvez, a melhor definição para tal coisa seria algo frustrante. O que faz o ser humano buscar algo que certamente lhe frustrará? Há um prazer nos desprazeres? Sempre se diz que o prazer está na busca, mas isto não é mera frase de efeito, algo para se esquivar da frustração? Há nesta busca uma teimosia, um sentimento de quem acha que tem certeza? Um teimoso só se vê frustrado tardiamente quando está perdido ou não encontra soluções. Um teimoso é uma espécie de esquizofrênico mal humorado que obedece às vozes da intuição? Ou seria um psicopata que não tolera frustrações e impõe as suas lógicas insensatas?

A busca pela verdade sempre foi o desassossego dos tempos. Não bastaria ser um homem de fé e acreditar nas escrituras sagradas? Infelizmente, o homem pensa e sempre haverá nele um incômodo, uma incerteza que abala a sua fé. Ele está condenado a existir com o desconhecido? Mas, isto de modo algum é um castigo. É simplesmente um estímulo, um prana que alimenta o seu espírito. A busca pela verdade é a desarrazoada luta pela razão, mas parece tão ineficaz que se perde a esperança. 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

 

  • Publicado na edição impressa de 6 de setembro de 2020