Alta do arroz não tem culpados, dizem empresários de Santa Cruz

Produção das indústrias de Santa Cruz abastece 25% do arroz consumido em todo o Estado de São Paulo

Empresários de Santa Cruz, responsáveis por cerca de 25% do arroz consumido no Estado, reclamam da instabilidade nos preços

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O dólar passando de R$ 5, o alto consumo, os preços defasados dos produtores e a regra do mercado. Uma ou outra alternativa pode ser uma justificativa para o preço do arroz, que sofreu alta superior a 100% nas últimas semanas e se tornou o grande vilão da economia no Brasil. “Na verdade, não existem culpados”, resume o industrial Mário Pegorer, 48, diretor da ABIA (Associação Brasileira da Indústria de Arroz) e da Guaíra Alimentos, uma das principais cerealistas de Santa Cruz do Rio Pardo.

Mário explicou que toda uma conjuntura foi favorável à alta dos preços. Neste caso, ele disse que a indústria de beneficiamento não tem responsabilidade sobre o preço do produto, já que está comprando arroz a mais de R$ 100 o saco. No início do ano, custava cerca de R$ 42.

Santa Cruz do Rio Pardo é o principal polo de beneficiamento de arroz do Estado, curiosamente sem plantar um único pé. Todo o arroz empacotado nas indústrias do município vem do Rio Grande do Sul e até do exterior. A cidade é tão importante para o setor que cerca de 25% de todo o arroz consumido no Estado de São Paulo sai de Santa Cruz.

“Tudo é reflexo da situação atual. Nós tivemos uma safra muito boa no Brasil em março, ao mesmo tempo em que o dólar bateu a casa dos R$ 6. Isto tornou o arroz brasileiro um dos mais baratos do mundo, levando a exportação a um volume jamais visto”, explicou Mário. “Todo mundo veio comprar arroz no Brasil e o produtor foi subindo o preço”, explicou.

“Se há um culpado, podemos dizer que foi a covid-19”, afirmou. Segundo Pegorer, o consumo interno também aumentou durante a pandemia porque as pessoas que antes comiam em restaurantes passaram a se alimentar exclusivamente em casa. Ele também lembrou que, no início da crise sanitária, quando os estabelecimentos começaram a fechar as portas, muitas famílias compraram grandes quantidades de arroz para estocar em casa. “Teve gente que comprou o suficiente para um ano”, brincou.

Mário Pegorer avaliou que a situação atual não é boa para a indústria. “O problema é a instabilidade dos preços na produção. Nós fomos pegos de surpresa, por exemplo, quando chegou a safra e os estoques estavam vazios. De repente, veio uma explosão de vendas e de preços no final de março. Em seguida, houve uma estabilidade e, nos últimos dois meses, explodiu de novo”, disse.

Como diretor da ABIA, o industrial disse que o governo federal vai liberar a importação de arroz da Índia e dos Estados Unidos. Mário adverte, porém, que a situação só deve se normalizar a partir do início do próximo ano. Neste caso, o arroz ainda estará com preço acima da média no Natal e Ano Novo.

“Eu costumo dizer que o arroz está caro, embora continue barato”, disse. E explicou: “O produto ainda deve ser considerado muito barato. Realmente dobrou de preço, mas continua sendo um alimento de baixo custo. Afinal, o impacto do alimento na inflação é pequeno”, afirmou.

Ele não acredita nos abusos de preços por parte de supermercados, que estão sendo fiscalizados pelo Procon, inclusive em Santa Cruz do Rio Pardo. “Os supermercados, na verdade, não trabalham com a mesma sistemática da indústria. Nós temos muito a preocupação com a reposição do produto, mas os supermercados trabalham com o preço médio do momento”, explicou.

O industrial Pedro Milton Pegorer, um dos sócios da Cerealista Solimã, outra grande indústria de Santa Cruz do Rio Pardo, disse que hoje a empresa trabalha com outros grãos — milho e soja. No entanto, ele é especialista em arroz e acompanha o mercado atentamente. “A indústria realmente não tem culpa no preço”, garante.

Pedro Milton disse que falta uma política agrícola para o Brasil. “Na verdade, o preço estava muito defasado para o produtor rural. No Rio Grande do Sul, teve muita gente que quebrou e outros desistiram de plantar arroz. Assim, esta é a regra do mercado”, disse.

O industrial também confirmou que o consumo de arroz no Brasil cresceu na pandemia. “Mas isto é muito ruim para a indústria. Ficou complicado porque ela vende o estoque e não sabe quanto vai pagar pelo saco arroz na próxima safra”, explicou. “É muito difícil para a indústria de Santa Cruz do Rio Pardo fazer qualquer previsão”, disse.

 

  • Publicado na edição impressa de 20 de setembro de 2020