Ellen Manfrim: “Nossas escolhas”

Nossas escolhas

 

Ellen Manfrim

Tudo o que acontece em nossa vida é um verdadeiro espelho das nossas escolhas. Parece filosófico, mas na realidade se trata de neurociência e de comportamento humano: aquilo que você pensa, aquilo que você faz, o que bebe e come, e mesmo o que você fala, nada mais são do que escolhas que, embora algumas vezes pareçam insignificantes, pequenas e momentâneas, impactam na qualidade final do seu eu, daquilo que você se tornou.

Nessa desvairada rotina, nem sempre nos percebemos, nos entendemos, ou então avaliamos essa imagem refletida. Mas essa realidade que emana de nós mesmos traz consequências ao próximo, gera sentimentos que podem ser bons ou ruins. E é por isso que precisamos escolher o que queremos exalar: amor e compreensão ou medo e distanciamento. Afinal, é através da nossa fala, do nosso olhar, das nossas ações, que emitimos nossa energia e contagiamos (ou então contaminamos!) quem está ao nosso redor.

Essa manifestação de sentimentos está amplamente relacionada a uma parte do cérebro chamada amígdala, que faz parte do sistema límbico. Através de conexões extensas com outras regiões do cérebro, o sistema límbico atua como um importante regulador do comportamento, do afeto, da aprendizagem e da memória, e também da agressividade. A amigdala, em especial, foi programada evolutivamente para nos auxiliar em situações de fuga, de defesa, de sobrevivência. O problema é que, muitas vezes, acumulamos medos vividos ao nosso redor, através das relações e das experiências que vivemos. Essa memória de medo emite uma resposta instintiva de fuga, de proteção, ou mesmo de ataque, e é nesses momentos que afastamos pessoas, ainda que involuntariamente. Mas é possível trabalhar e mudar esses comportamentos, é possível aprender com essas situações e exalar amor e compreensão, ao invés de medo e fuga. Claro que, para isso, precisamos nos expor a essas situações de uma forma consciente.

Afinal, passar pelo medo é a única maneira de sair dele. Aprenda a acalmar sua amigdala e se acostume às sensações que ela provoca em você. À medida que nossas escolhas são conscientes e não automatizadas, passamos a agir, a falar e a ser de forma mais amigável e gentil: passamos a exalar amor e confiança, e não mais medo.

Portanto, independente do que acontecer, escolha sua melhor perspectiva, escolha contagiar o próximo com gratidão e amor. Afinal, como disse Jean-Paul Satre, “Nós somos nossas escolhas”.

* Ellen Manfrim é neuropediatra em Santa Cruz do Rio Pardo

 

  • Publicado na edição impressa de 20 de setembro de 2020