Franco Catalano: ‘O Cheiro da Saudade’

O Cheiro da Saudade

 

Franco Catalano

CULTURA Sempre achei que as memórias trazidas pelo olfato ou paladar eram as mais fortes e vívidas. Abençoado com um sono de qualidade, minhas noites são sempre tranquilas e durmo como pedra.

Mas a noite dessa terça-feira foi diferente: acordei com o som do meu próprio choro. Havia sonhado com minha avó paterna, Marina, que em toda sua simplicidade fez de mim uma criança muito feliz. No sonho, tão real, me recordava dos almoços semanais que eu e minha irmã filávamos na casa dela e de meu finado avô Paulo. Me despertei aos prantos, me sentei na beira da cama e continuei a sonhar acordado. Não havia sido um pesadelo, mas sim um sonho “bitter sweet” (expressão da língua inglesa que significa que algo é bom e ruim ao mesmo tempo). Eram 5 horas da manhã e não voltei a dormir.

Fiquei revisitando essas memórias da infância e adolescência, muitas das quais associadas à comida que ela cozinhava. Só de me lembrar do bife com batata frita (a melhor do mundo) ou da salada de bacalhau que servia toda Páscoa, o choro se mesclava a um sorriso no rosto.

Com certa frequência, andando pelas ruas ou sentado distraído, sinto algum aroma que carrega junto dele uma memória do passado: o cheiro da hora do lanche na escola Pequerrucho, as velas natalinas que minha outra avó espalhava pela casa todo mês de dezembro, o perfume que usei no meu ano de calouro na arquitetura, o sabonete Phebo que meu avô usava… Anos atrás, comentando esse mesmo tipo de sensação com minha irmã (à época ainda estudante de psicologia), ela me confirmou que, de fato, as memórias relacionadas aos sentidos do olfato e paladar eram as mais intensas.

A nostalgia tem esse poder de ser “bitter sweet”, fazendo com que riamos e choremos ao mesmo tempo. Cria um turbilhão de emoções e flashbacks que são potencializados conforme o tempo passa. Convido o leitor que chegou até aqui a tirar um momento e, em silêncio, buscar no fundo do baú um cheiro que traga boas memórias. Afinal, há beleza no passado e nas emoções que ele desperta em nós.

* Franco Catalano é santa-cruzense, estudou História da Arte em Madrid e é arquiteto

 

  • Publicado na edição impressa de 20 de setembro de 2020