Nayara Moreno: ‘A ditadura da hipocrisia’

A ditadura da hipocrisia

 

Nayara Moreno

No final dos 80 e começo dos anos 90, estabeleceu-se no Brasil (e no mundo todo) um fenômeno chamado “geração saúde”. Jovens invadiram as academias e as empresas do ramo alimentício criaram produtos diet. O culto ao corpo começava a ganhar uma importância enorme em nossa sociedade.

Mais de 30 anos depois, a busca pela beleza física, seja ela padronizada ou não, é um desejo concreto da maioria esmagadora das pessoas (independentemente da faixa etária). Tudo virou rotina para nós: pessoas correndo pelas ruas, pedalando, academias lotadas, clínicas de estética com agendas cheias e as industrias farmacêuticas e de cosméticos lançando produto atrás de produto. A este momento damos o nome, de maneira pejorativa, de “ditadura da beleza”. O que manda é o corpo magro e com seus músculos bem definidos e vistosos.

Agora, vamos voltar ao século 19. Ou talvez a tempos mais remotos ainda. Os homens só tinham olhos para mulheres gordas. Isso mesmo que você leu. As mais cheinhas eram sinônimo de vidas com mesas fartas, consequência, claro, de grandes patrimônios. As moças magras não eram vistas com bons olhos, pois eram associadas a famílias pobres, com poucas opções de alimentos em casa.

Ou seja: a visão do que é belo muda de acordo com épocas e costumes. Mas ela sempre dita as tais ditaduras. A sociedade, de maneira natural e instintiva, busca pela beleza insesantemente, colocando-a em um patamar das altas prioridades.

Ao mesmo tempo que a ditadura da beleza ganha cada vez mais força, do outro lado cresce quem a condena por associar tais práticas (academia, estética, cosméticos) a uma vida fútil e banal. Duas visões extremistas e equivocadas. Do mesmo jeito que é extremamente perigoso não impor limites na busca pelo corpo “perfeito”, é preconceituosa a condenação de quem o faz.

O equilíbrio nestas condutas estéticas e a substituição da “ditadura da beleza” pela “beleza que traz autoestima” só acontecerá quando todos nós pararmos de hipocrisia e aceitarmos como natural o fascínio pelo que é belo. E isso, como contado neste texto, não é novidade nenhuma e, muito menos, uma simples “mania” da atual geração.

É maravilhoso quem se aceita fora dos “padrões de beleza”. É lindo quem se sente atraído por tais padrões e parte em busca deles. O que é feito e hipócrita é não aceitar que a satisfação com seu perfil estético faz um bem danado ao ego. 

* Nayara Moreno é
enfermeira especialista
em estética e dona
da AN Enfermagem
e Estética Avançada

 

  • Publicado na edição impressa de 20 de setembro de 2020