Doceria mais antiga de Santa Cruz assusta clientes com as portas fechadas

Porta do estabelecimento está fechada em razão dos preparativos para a mudança de local

Tradicional estabelecimento vai mudar de local a partir de outubro

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Nas últimas semanas, santa-cruzenses se preocuparam com as portas fechadas da “Doceria Santana”, a mais tradicional e antiga de Santa Cruz do Rio Pardo. Afinal, o que aconteceria com as famosas “bombas” de creme ou o premiado bolo de amendoim? A resposta tranquilizadora vem do proprietário, o advogado Fábio Teixeira, filho do saudoso confeiteiro Alberico, que fez história em Santa Cruz e morreu em junho de 2017. O estabelecimento está se preparando para se mudar para outro local e ainda vai “adocicar” a vida de muitas pessoas.

A doceria fechou as portas para o público no dia 12 deste mês, mas ainda está atendendo algumas encomendas no mesmo local. De acordo com Fábio Teixeira, a pandemia atrapalhou todo o planejamento da empresa, que já pensava num novo local desde fevereiro. A necessidade de distanciamento entre as pessoas inviabilizou o atendimento ao público, pois o espaço é pequeno.

A sede da tradicional Doceria Santana em Santa Cruz do Rio Pardo

No início de outubro, a “Doceria Santana” já deverá estar atendendo na rua Quintino Bocaiúva, a poucos metros do calçadão da Conselheiro Dantas. “A mudança já estava prevista e pensamos num prédio próprio. Porém, a localização não era central e ainda precisaríamos fazer várias adaptações no imóvel. Com a pandemia, mudamos os planos e resolvemos permanecer no centro, mesmo em prédio alugado”, disse Fábio Teixeira.

Os doces do estabelecimento são feitos de forma artesanal, segundo Fábio “para realçar o sabor”. O advogado lembra que ele manteve a tradição da família, talvez como uma homenagem ao pai. “Tenho certeza de que ele não gostaria de ver um dia a doceria fechada. Foi a vida dele e é como honrá-lo, pois meu pai foi uma pessoa muito especial para todos que o conheceram. Sinto isto pelo carinho que sempre recebemos em nome dele”, afirmou.

O saudoso Alberico Teixeira criou doces que se tornaram lendas em toda a região

De fato, Alberico Teixeira foi uma lenda da confeitaria em Santa Cruz do Rio Pardo. A “Doceria Santana” já existia, comandada por Elpídio Toledo, que era devoto de Santa Ana e provavelmente batizou o estabelecimento. Mais tarde, vendeu o local para Lídio de Britto, que por sua vez o repassou a Alberico em 1981.

O saudoso confeiteiro já era dono da “Fábrica de Doces Santa Cruz”, que ficava na esquina da avenida Tiradentes com a rua Rangel Pestana. Na verdade, ele fazia confeitos e bolos sob encomendas, mas se consagrou na “Doceria Santana”, que passou a atender diretamente o público. E lá se foram 39 anos.

Antes, Alberico fez os bolos de casamentos memoráveis, como os de Fernando e “Chicão” Quagliato e José Eduardo Catalano. Eram, na verdade, verdadeiras invenções, com mecanismos para jorrar pétalas, ou verdadeiras obras de arte. “Einstein já dizia que conhecimento é imprescindível em qualquer área”, dizia, lembrando que aprendeu muita coisa olhando fotos de revistas numa época em que a internet ainda era um sonho.

Em sua trajetória, Alberico fazia doces cujas receitas eram segredo de família. O histórico bolo de amendoim, por exemplo, ele aprendeu com uma tia de Bernardino de Campos. E, claro, aprimorou. O mesmo aconteceu com a “bomba” de creme, um doce que era conhecido no Brasil. Mas, pelas mãos de Alberico, tornou-se uma lenda conhecida por várias gerações.

O velho confeiteiro responsável pela fama da “Doceria Santana” se aposentou e transferiu a empresa para o comando do filho Fábio. Passou seus últimos anos lendo livros e “saboreando” discos antigos, já que a mulher, Benedita, o proibiu de comer doces por recomendação médica.

Alberico morreu em 2017, aos 90 anos. O legado da confeitaria, porém, ainda vai continuar, num espaço ainda melhor para o atendimento ao público. 

 

  • Publicado na edição impressa de 27 de setembro de 2020