Pascoalino S. Azords: Uma palavra

Uma palavra

 

Pascoalino S. Azords

A moça dos sonhos me apareceu sem avisar, no meio do expediente. Eu estava ficando azul, no computador, quando ela passou e disse baixinho: “qual é a mais bela palavra da língua portuguesa?” Podia ter dito qualquer coisa, afinal ela só existe nos sonhos, mas era isso que ela tinha para me perguntar. E da mesma forma que veio, do nada, a moça se esvaiu pela portinha da repartição que dá justamente para os sanitários. (A moça dos sonhos também vai à privada). E o meu dia que era só mais um dia, de repente, se encheu de sentido e possibilidades.

Eu tenho não sei quanto tempo para encontrar a minha palavra preferida e justificar. Tudo em bom português e no máximo três linhas. Até parece um concurso. Estou me empenhando nas horas vagas, mesmo sem saber o que ela fará com a palavra. Sei que a escolha será muito mais difícil do que a justificativa, e que nesses casos, em primeiro lugar, é preciso esquecer os dicionários. Dos pesos-pesados Aurélio e Houaiss, que hibernam deitados na prateleira, ao Dicionário de Gíria e o de Verbos e Regimes que dormem de pé entre as gramáticas; o Vocabulário Tupi-Guarani, de Silveira Bueno, e a coleção De Onde Vêm as Palavras, de Deonísio da Silva. Eles estão todos aqui ao meu lado, empoeirados e cheios de si. Se eu fosse procurar entre aba, rebordo de chapéu, e zurupar, a moça do sonho podia perder a paciência ou ficar velha de esperar.

Agora estou ficando azul aqui em casa, diante do monitor, passando em revista tudo o que acho que sei. Relembro canções e lugares, bichos da terra, da água e do ar, profissões, tons do entardecer, todos os destilados, os fermentados, os cozidos e os assados. Vou desviando dos adjetivos e dos substantivos femininos de natureza vaga. Desvio também dos superlativos. Mais provável encontrá-la no universo diminutivo das coisas indispensáveis, como caipirinha, Pixinguinha… A moça dos sonhos pode nunca mais voltar, mas eu não posso simplesmente dizer “não sei”, se acaso ela tornar a me tentar. Tento raciocinar como Gilles Deleuze, que ditou o seu famoso Abecedário, de animal a zen, numa entrevista de 7 horas, pouco antes de morrer. Onde a palavra mais bela? Entre seres vivos ou pontos geográficos? Guardada em minha casa ou na paisagem? Em terra firme ou debaixo d’água? Nos nomes próprios, nas impraticáveis virtudes ou na feira livre, entre frutas e legumes? Nomes próprios? Se a moça tivesse me pedido um único nome próprio de brasileiro, de A a Z, eu talvez dissesse Zilda Arns. Ou Zerbini, Euryclides de Jesus Zerbini, paciente, lá no fim do alfabeto, debruçado 12 horas por dia sobre corações estranhos, por mais de 50 anos, mesmo depois de enterrar um filho que tinha se formado médico há menos de uma semana. São tantos nomes, basta vasculhar as lápides.

E se minha palavra preferida não servir nos ouvidos de mais ninguém, ou destoar como um brinco na orelha da moça? A palavra preferida de alguém é uma coisa intransferível, que nem aceita tradução. Para Milton Terra Verdi, morrendo de sede na selva boliviana, devia ser copo d’ água; para Heitor Villa-Lobos, talvez uirapuru. Para Rubem Braga, borboleta; para o menino lombriguento, sorvete (de groselha).

Eu tenho todo o tempo para encontrar essa palavra dentro de mim. Estou procurando, com pressa e calma para não desapontar a moça dos sonhos. Mesmo que para ela não faça a mínima diferença se eu disser lesma ou pedra, alma, pirulito ou bochecha. Mesmo que ela não volte nunca mais. Não me custa nada e, afinal, eu tenho todos os dias que me restam na vida para escolher e esperar.

 

  • Publicado originalmente em 31/01/2010 e reproduzido na edição impressa de 20 de setembro de 2020