Caminhão FNM já foi o ‘rei’ das estradas

Nos anos 1960, foto mostra o irmão de Darcy Pereira (que acabou morrendo num acidente) no Nordeste, num FNM da frota de “Lilo” Longo

No auge de sua fama, de cada dez caminhões nas rodovias, pelo menos seis eram da histórica marca que está voltando

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Com aquele ronco inconfundível — “laga, laga, laga, laga” — o caminhão FNM (Fábrica Nacional de Motores) já dominou as rodovias brasileiras na década de 1950 e início dos anos 1960. Forte, robusto e nacional, o “fenemê” era um caso de amor e ódio. Ou o caminhoneiro amava o veículo, ou vivia louco para vendê-lo. Em Santa Cruz do Rio Pardo, houve verdadeiras frotas de FNMs e, ainda hoje, pelo menos um deles está sendo recuperado. O dono, claro, é um daqueles motoristas que se apaixonaram pelo “bruto”.

Carlos Roberto Damasceno, 58, veio para Santa Cruz há 20 anos e sempre foi apaixonado pelo caminhão FNM. Quando juntou suas economias, não pensou duas vezes: comprou um modelo 1978 de um empresário que tinha dois. Carlos queria o amarelo, mas o vendedor só consentiu em vender o vermelho.

Durante mais de três anos, Carlos foi feliz com seu FNM. Viajou pelo Brasil e garante que o caminhão nunca quebrou. Quando a mãe precisou comprar uma casa, sugeriu que o filho vendesse o FNM. Carlos elevou o preço nas alturas, para evitar que alguém levasse. “Mas um caminhoneiro aceitou na hora”, diz, lembrando que chegou a chorar. “De raiva de mim mesmo e de tristeza”, disse.

EM RECUPERAÇÃO — O FNM ano 1973 que o próprio dono, Carlos Danasceno, pintou na cor amarela e o recupera

Carlos, que hoje é motorista da Rede Graal, lembra que ninguém acompanhava seu FNM nas estradas. “Muitas vezes eu saía junto com amigos motoristas com caminhões de outras marcas. Meu FNM era ‘passo longo’ e quando eles chegavam ao destino, eu já tinha descarregado a carga”, contou.

Sem o seu companheiro FNM, ele comprou um Scania “cara chata”. Mas não era feliz e até passou a trabalhar como motorista de ônibus. Um dia, veio uma oferta de compra do Scânia. Como parte do pagamento, havia um FNM ano 1973. Era azul, mas Carlos aceitou.

Caros Damasceno ainda sonha em viajar pelo País com o “amarelo”

Como já tinha um outro emprego, decidiu reformar o FNM, que hoje está numa oficina para um reparo no câmbio. “Aí eu resolvi pintar de amarelo. Eu mesmo fiz nas horas vagas”, contou. O trabalho durou meses. O sonho de Carlos é deixar o FNM “em dia” para, um dia, retomar alguns fretes. Na verdade, quer “passear” pelo Brasil sendo remunerado. Uma curiosidade é que as portas abrem do lado contrário.

O “bruto”, aliás, está na oficina de Carlos Fernando Pereira Cruz, 57, que comanda a empresa fundada pelo pai, “Carlito”, que também foi caminhoneiro. Cruz diz que é difícil alguém consertar FNM, mas aceitou o trabalho de Damasceno porque o câmbio já é mais moderno, embora original da fábrica.

O mecânico Benedito Carlos Barbosa ao lado do FNM de Damasceno, que está na oficina para reparos no câmbio

É que os antigos FNMs tinham uma característica que dificultava a direção. Havia dois câmbios, que duplicavam as quatro marchas para oito. No entanto, o motorista tinha de manejá-los ao mesmo tempo, enquanto segurava o volante com o joelho. “O FNM era para poucos”, diz Carlinhos.

Dono de oficina sem ser mecânico, Cruz já foi apaixonado pelo FNM, que era o caminhão do pai. “A gente viajava juntos, eu, minha mãe e três irmãos. Cabia todo mundo. Eu dormia num colchoado em cima da tampa do motor”, lembra.

Segundo Cruz, o FNM era um caminhão robusto, mas também quebrava. “Era o melhor em sua época”, conta. Quando apresentava algum defeito nas estradas, era o próprio motorista quem desmontava peças ou, dependendo do caso, fazia o reparo. “Era fácil, por exemplo, desmontar o câmbio. O motor era de alumínio”, conta.

MEMÓRIAS — Darcy Pereira em seu FNM “bruto” nos anos 1980, cujas recordações estão em velhas fotografias

Aventuras

Darcy Pereira de Souza, 68, foi dono de FNM, com o qual transportava as máquinas de sua empresa de terraplanagem. “O FNM foi aquele que ajudou a construir Brasília. Tudo era transportado nestes caminhões”.

Quando criança, via o irmão no FNM ano 1958 e foi paixão à primeira vista — ou à primeira brincadeira. Aos 15, já dirigia caminhão, “cortando volta” de alguns policiais.

Antes do caminhão próprio, Darcy foi motorista do grupo Maitan — outro FNM. Ele lembra que um dos maiores frotistas da cidade foi “Lilo” Longo, que tinha vários FNMs. “Era o caminhão top da época. No entanto, era difícil dirigir por causa dos dois câmbios. Era para motorista baguá mesmo”, brincou. “Meus amigos carregavam 10 ou 12 mil quilos em São Paulo. Eu saía com 20 mil no FNM”, lembra.

Carlos Cruz e o caminhão de Carlos Damasceno (ao lado), que foi reformado pelo dono e está na oficina apenas para um reparo no câmbio, que é da versão mais nova

Darcy tem saudades do caminhão. “Tinha a maior cabine entre todos. Teve um ano que surgiu até um modelo com beliche, enquanto nos outros a cama era uma adaptação dos bancos”, conta.

Porém, nem todos tiveram sorte com o FNM. Já aposentado, o caminhoneiro Ivo Geromini, 79, brinca que tudo o que tem, deve ao FNM. “Cabeça quebrada, dor na coluna e na barriga”, diz, rindo.

Brincadeiras à parte, Ivo ficou dez dias em coma por causa de um pneu que estourou na cabeça. Se recuperou e voltou às pistas. Com o FNM.

Ivo Geromini foi dono de vários modelos dos caminhões FNM

Ivo foi dono de dois modelos 1958, outro 1960 e, por fim, 1966. “Todos tinham aqueles dois câmbios”, explicou. “Os mais antigos eram bem lentos, mas um bom caminhão”, avalia.

Ivo, porém, já ficou várias vezes na estrada. Certa vez, permaneceu dias numa cidade do Nordeste aguardando uma peça de São Paulo para consertar o caminhão. “Não tinha em Feira de Santana. Ela chegou de ônibus. Fiquei uma semana esperando ”, conta.

O curioso é que a rodovia Rio-Bahia cruzava a cidade e a inauguração aconteceu exatamente naqueles dias. “Os cinegrafistas subiram na capota do meu caminhão, que estava na beira da estrada, para filmar as autoridades”, lembra.

Os caminhões foram evoluindo, ganhando tecnologia, e o FNM ficou obsoleto. Porém, ainda hoje existem vários modelos rodando pelo País. Incrivelmente, chamam a atenção quando passam. 

 

  • Publicado na edição impressa de 27 de setembro de 2020