Suposto algoz de Tonico Lista reapareceu meses após crime

CORONELISMO — Vista de Santa Cruz em 1902, época de coronelismo e início do apogeu político de Tonico Lista (Foto de Vicente Finamore - acervo de Edwin Brondi de Carvalho)

Juiz expulso de Santa Cruz do Rio Pardo pelo coronel em 1909, voltou como secretário estadual de Segurança Pública “nos braços do povo”

 

AUTORIDADE — Cardoso Ribeiro, inimigo de Tonico, virou ministro do STF

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A incrível história do coronel Antônio Evangelista da Silva, o maior líder político de Santa Cruz do Rio Pardo no início do século passado, é cheia de reviravoltas. Uma delas envolve um dos primeiros juízes da comarca, Francisco Cardoso Ribeiro, que se desentendeu com o coronel e foi praticamente expulso da cidade. Entretanto, jurou vingança e aparentemente conseguiu. Os dois desafetos, porém, tiveram um fim trágico.

Menos de um ano após o assassinato de Lista, Cardoso voltou à cidade, como secretário de Segurança Pública, e foi recebido com pompas, com direito a notícias em jornal. Um dos exemplares de “A Cidade” está no acervo do aposentado Edílson Arcoleze e mostra que o antigo juiz foi recebido por diveersas autoridades.

Cardoso Ribeiro chegou a Santa Cruz do Rio Pardo em 1905. Era jovem na magistratura e, segundo consta, um idealista no Direito. Enfim, queria impor a ordem e a lei numa terra onde o calibre da garrucha falava mais alto.

Reunião da oposição em 1921, com a presença, entre outros, de Dalmati (ao centro) e Arlindo Crescêncio Piedade (segundo em pé, da esquerda para a direita)

Quatro anos depois, numa situação vexatória, foi obrigado a abandonar Santa Cruz. O juiz se desentendeu com o coronel Tonico Lista, o poderoso chefe político da época, e foi ameaçado. Na verdade, Cardoso Ribeiro começou a dar atenção especial aos processos sobre crimes, alguns encomendados, que envolviam o coronel.

O juiz resolveu inquirir várias testemunhas e não quis ouvir os conselhos para ter cuidado com o coronel. O livro “Tonico Lista, o Perfil de uma Época”, do escritor José Ricardo Rios, narra o episódio da chegada do novo juiz a Santa Cruz, definindo-o como “culto, porém, inexperiente para enfrentar os grupos políticos antagônicos que se digladiavam no poder”.

O escritor conta que o juiz foi alertado de que Lista era poderoso e poderia removê-lo da cidade. Cardoso, então, foi conversar com o coronel. Tonico teria dito que nada tinha contra o magistrado, mas que ele deveria ter cuidado com boatos espalhados pela oposição. “Cuido da política e o senhor, da lei”, teria dito o coronel.

Mas Cardoso Ribeiro ouviu os boatos e, mais uma vez, resolveu falar com o coronel. Desta vez, entretanto, a conversa foi ríspida, pois o juiz disse que tinha amigos em São Paulo, não se curvaria diante dos poderosos e só deixaria Santa Cruz quando quisesse. O livro diz que Tonico tentou ser amável, explicando que iria recorrer das sentenças desfavoráveis e insistiu que nada tinha contra a pessoa do juiz.

A conversa tomou um rumo áspero e, então, Tonico perdeu a paciência. “O senhor não acreditou em mim”, teria dito, para em seguida dar 24 horas para o magistrado sair da cidade. O coronel ainda determinou à empregada para acompanhar o “doutor” até a porta de saída.

Minutos depois, Cardoso Ribeiro, ainda de acordo com a narrativa de José Ricardo Rios, começou a se indagar sobre quem o protegeria, já que o delegado de polícia era submisso ao coronel. Lembrou-se, então, de um amigo, João Dalmati, dono de uma padaria.

Ao fundo, a residência e padaria de João Dalmati (no final da rua), o homem que retirou o juiz de Santa Cruz

Ao saber da história, Dalmati aconselhou o juiz a deixar imediatamente a cidade. O problema era que o trem só sairia na madrugada e, segundo Dalmati, havia o risco de Cardoso ser surpreendido na estação ferroviária por capangas do coronel.

Então, os dois encontraram uma solução. Nas primeiras horas da madrugada, Dalmati saiu com sua carroça para entregar pães. Em vez dos produtos, porém, dentro da caçamba estava Cardoso Ribeiro. A carroça foi até Bernardino de Campos, de onde o juiz embarcou em segurança no trem para São Paulo.

Mas aquela situação o deixou com muita raiva. Humilhado, segundo o relato de Ricardo Rios, o juiz prometeu se vingar: “Ele vai pagar! Nem que demore, um dia eu o destruirei”, teria dito, ainda na estação.

A vingança

Muitos anos depois, Francisco Cardoso Ribeiro alcançou altos cargos, antes de chegar ao Supremo Tribunal Federal. Em 1921, como secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, conseguiu a nomeação para Santa Cruz do Rio Pardo de um juiz, promotor e um delegado, todos ligados a Cardoso e, segundo consta, com a missão de prender Tonico Lista. O delegado, por exemplo, era Coriolano Goes, que anos depois foi o chefe da polícia de Getúlio Vargas.

O delegado Coriolano Goes em 1930: ele foi chefe de polícia de Getúlio Vargas

O cerco judicial estava feito. A oposição se fortalece e funda o Partido Municipal, inspirado pelo secretário de Segurança Pública paulista. Este fato está, inclusive, mencionado no depoimento de Arlindo Crescêncio Piedade, após um tiroteio na Câmara que culminou com a morte de dois oposicionistas e um “capanga” do coronel.

Um processo sobre outros crimes põe Tonico na cadeia. Fica, porém, pouco tempo. Uma magistral defesa apresentada pelos advogados Júlio Prestes, Altino Arantes e Raphael Corrêa de Sampaio absolve Tonico Lista. Para a oposição, ficara claro que só a morte poderia afastar o coronel do poder.

Em dezembro de 1921, Tonico publica um texto no jornal “A Cidade”, dizendo que “o plano sinistro dos nossos adversários” foi desmascarado. Acusa os inimigos de pregaram o seu assassinato e afirma: “Eu não temo essas ameaças, nem lhes dou ouvidos”.

FIM DE UMA ERA — O coronel Tonico Lista foi assassinado a tiros em 1922

No dia 8 de julho de 1922, Tonico tomava café e lia jornal na venda de Mizael de Souza, perto do antigo prédio da Câmara. Um soldado da Força Pública entra duas vezes no estabelecimento para beber pinga. Na última, saca dois revólveres calibre 38 a atira contra o coronel. Cambaleante, Tonico ainda reúne forças para atirar contra o soldado, que corre pela rua, e atingi-lo na clavícula.

O coronel, porém, está muito ferido. Uma junta médica decide encaminhá-lo para São Paulo, 12 horas após o atentado. Nas proximidades de Mairinque, Tonico deu seu último suspiro. Foi sepultado na capital.

O retorno

Oito meses após o assassinato de Tonico, eis que surge em Santa Cruz do Rio Pardo o secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Francisco Cardoso Ribeiro, o mesmo que prometera vingar-se do coronel. O aposentado Edílson Arcoleze possui um exemplar do jornal “A Cidade” de 18 de março de 1923 que noticia a visita com grande destaque.

Cardoso Ribeiro havia acabado de inaugurar as comarcas de Presidente Prudente e Salto Grande, desembarcou em Ourinhos e foi transportado de automóvel até Santa Cruz, onde foi recebido por uma banda musical na entrada da cidade. Às 21h, subiu as escadarias do prédio municipal — a antiga Câmara, na praça central de Santa Cruz —, recebeu flores e ouviu discursos elogiosos. “Esta cidade sente-se hoje sobremaneira lisonjeada em receber a visita de seu antigo magistrado”, disse o presidente da Câmara, Pedro Doria. Em seguida, discursaram os vereadores Ataliba Vianna e Antônio Bernardino, além do próprio homenageado.

Cardoso Ribeiro ainda andou pelas principais praças de Santa Cruz do Rio Pardo antes de embarcar num trem especial da Sorocabana, que o aguardava na estação às 22h.

Claro que o texto do jornal não diz, mas certamente o secretário teve a sensação da vingança cumprida. No entanto, o fato “assombraria” Cardoso Ribeiro pelo resto de sua vida. Em 16 de maio de 1932, aos 56 anos, tirou a própria vida. Era um dos ministros do Supremo Tribunal Federal. 

 

  • Publicado na edição impressa de 27 de setembro de 2020