João Ferreira: “O dever da verdade”

O dever da verdade

João Ferreira *

POLÍTICA   Em uma de suas obras mais importantes, Rui Barbosa desfila elegância e críticas veementes à imprensa vendida. Para Rui Barbosa, “Todos os regimens que descaem para o absolutismo vão entrando logo a contrair amizades suspeitas entre os jornais”.

Realmente, é por meio da caneta ou do microfone vendido que o déspota ou o coronel massacra os seus adversários e afaga os protegidos. Rui Barbosa fala, inclusive, no “apagamento da consciência” em razão da “imersão habitual” das pessoas “na cultura da mentira”.

Não é só. Rui Barbosa faz uma triste constatação: “Toda essa triste súcia, podre dos quatro costados, não distingue entre Deus e o demo. Mas tem a religião do embornal, guarda a fé na manjedoura, ou no cocho, e adora o milho. O milho é o ídolo dos afocinhadores da mentira. Outrora se amilhavam asnos, porcos e galinhas. Hoje em dia há galinheiros, pocilgas e estrebarias oficiais, onde se amilham escritores”.

São muitos os veículos de informação que servem a dois senhores (coronéis e a população), mas a nenhum deles diz a verdade. Lustrar as botas dos coronéis com a língua e vender um produto falsificado (a versão dos coronéis) apequena a profissão e desprestigia os verdadeiros jornalistas.

Muitas vezes, o microfone comprado deixa a população de joelhos diante de quem lhe açoita. Ainda conforme Rui Barbosa, “O silêncio dos grandes muitas vezes não significa outra coisa que a sua condescendência com os atentados”.

Mais adiante, Rui Barbosa alerta e adverte em seguida:

“Logo, senhores, se o homem público há de viver na fé que inspirar aos seus concidadãos, o primeiro, o maior, o mais inviolável dos deveres do homem público é o dever da verdade: verdade nos conselhos, verdade nos debates, verdade nos atos; verdade no governo, verdade na tribuna, na imprensa e em tudo verdade, verdade e mais verdade”.

[…]

Convertem-lhe nos seus contrários as qualidades mais evidentes: o talento em estupidez, a honradez em improbidade, a pureza em devassidão. Inteligência? Será um burro. Ciência? Um analfabeto. Honestidade? Um ladrão. Cidadão, filho, marido, pai de família reconhecidamente exemplar? Um canalha. Um parricida. Um devasso. Um crapuloso”.

São críticas duras, mas que sobreviveram ao tempo, principalmente diante da profissão de mentiras e palavras compradas.

E, para os coronéis simpatizantes dos microfones vendido, um alerta: o veludo que afaga é a tira de couro que machuca amanhã

Rui Barbosa I

“O jornalismo não perdeu todos os presídios da sua honra” (Rui Barbosa, A imprensa e o dever da verdade).

Rui Barbosa II

“O remédio da mentira está na verdade. […] Só nos salvaremos, opondo a essa idolatria a religião da verdade”.

* João Ferreira é advogado em S. Cruz e professor da faculdade Oapec

  • Publicado na edição impressa de 4 de outubro de 2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate