Franco Catalano: “Com as próprias mãos”

Com as próprias mãos

Franco Catalano *

CULTURA   Uma amiga arquiteta certa vez me confidenciou que seu marido, no calor de uma discussão, lhe disse algo que a atingiu de forma cruel: que ela nunca havia plantado uma árvore sequer em toda sua vida. Ele, por sua vez, criou e cuidou com muito esmero do rico pomar da casa deles. Consolando-a, sem falsidade ou condescendência nenhuma de minha parte, disse que ela havia plantado muito mais árvores que ele durante sua longa carreira. Projetou dezenas de jardins para seus clientes, escolhendo a dedo plantas ornamentais, das nativas às mais exóticas, das frutíferas aos pinheiros, das arbustivas às rasteiras. Naquele momento sua ficha caiu e o olhar triste e frustrado deu lugar a um sorriso de alívio.

Existe um sentimento, o qual já experimentei e não gostei, que podemos chamar de “sabotador interno”. É aquela voz que nos diz que não somos bons ou dedicados ou experientes o suficiente. Uma autocobrança de sermos algo que não somos, apenas para satisfazer as expectativas dos outros. É aquela velha história de se medir com uma régua que não é sua.

Senti — e esporadicamente volto a sentir — que meu ofício é muito acomodado no conforto da minha prancheta, da minha cadeira de couro caramelo e do ar-condicionado que nos poupou do calor dos últimos dias. Me frustro por achar que nunca concretizei algo. Que nunca construí nada com as minhas próprias mãos. Mas a voz da razão é mais forte e acaba silenciando o sabotador interno.

No meu ramo, a construção civil, o resultado depende cem por cento do esforço coletivo de um batalhão de profissionais. Enquanto arquiteto, estou presente em todas as etapas de uma obra, com mais ou menos intensidade: antes, no projeto, lidando com as expectativas dos clientes; durante, na execução, lidando com o estresse e inúmeros imprevistos que invariavelmente surgem; e depois, na finalização, onde o resultado final parece dirimir qualquer problema que tenha ocorrido nas etapas anteriores.

Estes dias me peguei pensando nisso: que triste é saber que o encanador, o pedreiro, o eletricista, enfim, os trabalhadores essenciais para o sucesso das etapas iniciais de uma obra, nunca podem vê-la concluída. O que veem é a bagunça, a sujeira, os perrengues que precedem a perfeição de um ambiente finalizado e decorado. O pedreiro não vê o trabalho do azulejista, que não vê o trabalho do marmorista, que não vê o trabalho do instalador de cortina. Mas isso, assim como a confidência e seguinte epifania da minha amiga das árvores não plantadas, não significa que não tenham feito a sua parte. O ditado “a união faz a força” nunca fez tanto sentido.

* Franco Catalano é santa-cruzense, estudou História da Arte em Madrid e é arquiteto

  • Publicado na edição impressa de 4 de outubro de 2020
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Proprietário e Editor do Jornal Debate