Flavinha sonha em ser bailarina

Aos seis anos, Flávia entrou para o Balé Municipal e hoje integra o elenco de sua idade

Menina que nasceu com uma malformação quer se tornar uma bailarina, mesmo sendo cadeirante

 

Flavinha é vaidosa e gosta de enfrentar desafios

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Alegre, super ativa e numa cadeira de rodas, Flávia Vitória Gonçalves Tavares, de apenas nove anos, já sabe a carreira que quer seguir quando crescer: se tornar uma bailarina. Ela faz parte do corpo do Balé Municipal e já se apresentou nos palcos. “Dá um frio na barriga, mas depois a gente se acostuma”, diz. A mãe, Laura Maria Gonçalves Tavares, 37, e o pai, Rodrigo Galdino Tavares, 37, incentivam o sonho da filha.

Flávia nasceu em dezembro de 2010 em São Paulo. A família é de Santa Cruz, mas o parto foi feito na capital porque Flávia foi diagnosticada com mielomeningocele, uma má-formação congênita, em que a criança, ainda na barriga da mãe, tem a espinha aberta. Este tipo de problema pode variar de leve a grave.

Mas Flavinha não liga muito para isso. Desde que ganhou a liberdade numa cadeira de rodas que ela mesmo consegue “pilotar”, ninguém segura a menina. Virou uma verdadeira atleta sobre rodas e a casa da família, no Parque São Jorge, é cheia de marcas nas paredes. No corredor que dá acesso ao quarto de Flávia, há uma mancha grande na parede, resultado da mão da bailarina, que faz uma surpreendente curva, “aparada” pela mão direita, para entrar no espaço.

Sonho de ser bailarina já colocou Flavinha no elenco do Balé Municipal

A casa foi construída quando Laura e Rodrigo ainda estavam namorando. Hoje, todos os espaços ganharam rampas. “Mas ainda precisa de mais algumas reformas”, conta Laura.

Sempre juntas, mãe e filha se incomodaram com a falta de acessibilidade em Santa Cruz e até de brinquedos adaptados nas praças públicas. Em 2017, elas foram conversar com o prefeito Otacílio Parras, que achou a ideia excelente. Hoje, algumas praças da cidade ganharam brinquedos especiais para deficientes físicos. A conquista resultou até numa homenagem da Câmara Municipal. Mas a irrequieta Flávia, por sinal, brincou pouco. Hoje, o foco dela é outro.

Há três anos, ganhou uma cadeira de rodas que ela própria move. “Foi o grito de liberdade dela”, conta Laura. Antes, alguém precisava empurrar a cadeira. Para a dança, foi um passo adiante, já que a própria Flávia começou a criar algumas performances diferentes.

Aliás, a menina aprendeu dança na escola maternal “Arco-Íris”, onde começou a se apresentar nas festividades escolares. Na época, uma mãe de uma aluna se encantou com o talento de Flávia e a estimulou nos ensaios.

No Dia da Pátria, a aluna da escola Arnaldo Moraes desfila como porta-bandeira

Hoje, Flávia estuda na escola “Arnaldo Moraes Ribeiro” e continua adorando dança, além de se apresentar na frente dos desfiles de Sete de Setembro, como porta-bandeira. A garotinha teve aulas no Icaiçara Clube, além de ensaios na escola Arnaldo, na Adefis e até na Apae. Foi o estopim para chegar ao elenco do “Balé Municipal”.

De quebra, Flávia gosta de se apresentar ao som de música clássica, especialmente cantadas. Não é à toa que a menina é fã declarada da cantora lírica santa-cruzense Giovanna Maira. Em dezembro de 2017, quando tinha seis anos, Flávia, sempre inquieta, surpreendeu os pais ao ficar ouvindo Giovanna em silêncio. Na verdade, ficou encantada.

Seu gosto musical é tão eclético que ela também adora a dupla sertaneja “Fernando & Sorocabana”, a ponto de ganhar a fivela que um dos integrantes da dupla usava durante apresentação na “Festa do Rodeio”. O “troféu” está pendurado no quarto da menina.

A menina de nove anos não esconde que tem medo de altura. Mas ela
costuma enfrentar os desafios e chegou a visitar a “Pedra do Índio”, na cidade de Ribeirão Claro

Depois dos pequenos palcos das escolas, Flávia já se apresentou no “Palácio da Cultura Umberto Magnani Netto” e no festival da academia Sport Center. “Dá saudade”, diz a garota, incomodada com a suspensão das atividades nesta época de pandemia.

Enquanto o balé e a escola não voltam, Flavinha mantém sua rotina em casa, acordando cedo e fazendo o que quer. Fala o tempo todo, às vezes promove um “bazar” de coisas usadas em frente à sua residência e não brincou muito com bonecas. “Na verdade, ela é um pouco avançada para a idade”, admite a mãe.

O balé e a música, por sinal, fizeram aflorar a sensibilidade de Flávia. Há alguns dias, um amiguinho disse que iria pedir “ao papai do céu” para que ela andasse. A mãe disse à Flávia que ela também poderia pedir. “Ora, mãe, eu já ando. Tenho minha cadeira”, disse.


O professor Robson e suas bailarinas, entre elas Flávia

‘Aprendi muito com a Flávia’, diz professor de balé

O professor Robson Willian Souza, o premiado coreógrafo do Balé Municipal de Santa Cruz do Rio Pardo, é um dos entusiastas de Flávia Gonçalves. Ele conta que se surpreendeu quando Laura Gonçalves foi pedir a inscrição para a filha, então com seis anos. “Eu costumo dizer que estou aprendendo muito com a Flavinha”, afirmou. Robson garante que Flávia é a primeira cadeirante a participar do balé municipal.

Sem querer, a garota acabou influenciando outra amiga cadeirante, Marina, a entrar no grupo. “Aconteceu uma semana depois. Hoje, a Flávia está no segundo ano e a Marina, no terceiro”, contou. Flávia ingressou no primeiro grupo, chamado de “Baby”, e, segundo Robson, pode estar abrindo portas para outras pessoas com algum tipo de deficiência.

O coreógrafo conta que houve uma interação imediata do grupo com Flávia. “Muitas vezes ela costuma mudar algum exercício, por ser cadeirante, e todo mundo vai atrás”, diz.

Segundo Robson, ele já viu cadeirantes num festival de balé, mas na Argentina. “No Brasil há poucos grupos que se preocupam com esta inclusão. Claro que isto deve ser mais trabalhado no nosso País”, afirmou. Em Santa Cruz do Rio Pardo, ele diz que há avanços, especialmente porque o barracão do balé está terminando de ser reformado. O espaço ganhou até banheiros para cadeirantes.


Flávia no meio dos pais, Rodrigo Galdino Tavares e Laura Maria Gonçalves Tavares

A primeira cirurgia,
na barriga da mãe

Foi aos cinco meses de gestação que Laura Gonçalves recebeu o diagnóstico sombrio: a filha que iria nascer tinha mielo. Flávia veio ao mundo após 39 semanas. Antes, porém, passou pela primeira cirurgia, ainda no útero. Na época, ainda estava em testes uma outra operação para fechar a coluna, mas só foi aprovada um ano depois.
A cirurgia intrauterina foi feita para colocar uma válvula que controlasse a pressão no cérebro. Ela é necessária para evitar complicações, principalmente no primeiro ano do bebê.
Mas é claro que Flávia já era sapeca ainda na barriga da mamãe. Meses após o nascimento, num exame de rotina, os médicos descobriram que a válvula havia desaparecido. “Não durou uma semana”, disse Laura. A constatação veio num raio-X, mas não atrapalhou a saúde da criança.

  • Publicado no Suplemento DEBATINHO de 11 de outubro de 2020