Prefeitura desapropria o Clube Náutico

O clube tem permanecido fechado e é administrado por pessoas que não são sócias

Juiz autorizou depósito de R$ 721 mil, mas determinou perícia “imparcial” para apurar o valor correto

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O município de Santa Cruz do Rio Pardo, através do prefeito Otacílio Parras (PSB), ajuizou ação de desapropriação de toda a área do antigo Ingá Clube Náutico, às margens do rio Pardo, na área central da cidade. O imóvel está registrado em nome de Associação Atlética Santacruzense.

São mais de 26.000 metros quadrados que, segundo a administração, devem ser integrados ao Parque Ecológico que está sendo implantado na margem oposta do rio Pardo.

Na ação, o município pede para citar o que considera o único sócio remanescente da ata registrada em 1973 pelo ex-presidente Alceu César. É o bancário aposentado Waldomiro Castandin.

O Náutico é um dos clubes mais antigos de Santa Cruz do Rio Pardo

Mas há outros sócios ainda vivos na mesma ata. Além disso, posteriormente o clube teve vários outros presidentes — como Waldomiro “Tabaco” Martins e Edwin Brondi de Carvalho — que não estão sendo citados.

Talvez por isso o juiz Rafael Martins Donzelli autorizou o depósito de R$ 721.666,66, quantia que a prefeitura avaliou o imóvel, mas determinou que o valor fique à disposição do Juízo. Além disso, o magistrado nomeou uma perita independente para, em 30 dias, realizar nova e imparcial avaliação da área do Clube Náutico.

De qualquer forma, a desapropriação é praticamente irreversível. No ano passado, o prefeito Otacílio já havia anunciado o interesse do município na área do Náutico e assinado decreto tornando toda a área de utilidade pública. Foi o primeiro passo para assumir a área.

Na década passada, o Náutico foi reformado, ganhou melhorias e foi rebatizado como “Ingá Náutico”

De acordo com a ação, várias leis municipais declararam como patrimônio cultural, paisagístico, ecológico e turístico todo o trecho do rio Pardo que banha o município. O objetivo foi preservar os sítios de valor paisagístico e fomentar a prática esportiva. Além disso, há dois anos Santa Cruz do Rio Pardo ganhou o selo de MIT — Município de Interesse Turístico.

Segundo a administração, a maioria dos sócios já morreram e o local estaria abandonado. O plano é integrar a área do Náutico com o futuro Parque Ecológico ainda em construção, ligando as duas margens com uma “tirolesa”, que vai custar mais de R$ 100 mil. O orçamento de uma única empresa consta no processo judicial.

A avaliação do imóvel foi feita pela prefeitura, mas pode ser contestada pelos dirigentes do antigo clube. Entre os profissionais do mercado que avaliaram a área, está Irineu Gozzo, que é o corretor da família do prefeito Otacílio. A prefeitura paga pelos serviços.

A ação de desapropriação pede autorização para depositar em juízo o valor de R$ 721 mil e, ao mesmo tempo, requer a posse imediata do imóvel. O município solicita, ainda, que o juiz autorize o Cartório de Imóveis a transferir imediatamente a área ao município.

Entidade filantrópica

O estatuto do Clube Náutico que foi anexado à ação é de 1973 e não há informações se houve mudanças ao longo dos anos. Entretanto, a exemplo de outras entidades recreativas e esportivas de Santa Cruz, o documento diz que o patrimônio não pode ser vendido e que a sociedade só poderá ser dissolvida quando tiver menos de 20 sócios.

Um dos artigos determina que, em caso de dissolução, todos os bens serão liquidados, bem como os débitos. Se houver saldo remanescente, diz o estatuto, ele será entregue “a uma ou mais entidades beneficentes, sediadas neste município, para fins assistenciais”.

É o mesmo caso do antigo clube BAC, cuja continuidade foi inviabilizada pelo próprio prefeito depois que o município retomou a maior parte da área, que havia sido cedida por comodado nos anos 1980. O clube, então, resolveu vender o restante do patrimônio e o comprador foi o próprio prefeito, por um preço considerado muito abaixo do real. Um grupo de sócios vai ajuizar uma ação para anular o negócio.


O clube tem sinais internos de abandono

Hoje abandonado, Náutico é o
clube mais antigo de Santa Cruz

O historiador Celso Prado

Segundo informações do historiador Celso Prado, o Clube Náutico já estaria em atividades na década de 1920. Era um local exclusivo para um grupo de amigos, que se reunia para a prática de natação, pesca e canoagem. Mais tarde, virou um clube popular e um de seus fundadores foi José Rios, por volta de 1933. Na inauguração, houve até competições de natação.

A instituição mantenedora era a Associação Atlética Santacruzense. Ao longo dos anos, o clube foi sendo totalmente reformado e dotado de brinquedos para crianças e ampla estrutura esportiva. Era a sede da AAS, que disputou torneios no município e até a Segunda Divisão do campeonato paulista.

Segundo Celso Prado, há informações de que Maria Rosa Fernandes — que depois se casou com Renato Taveiros — foi a primeira mulher a atravessar o rio Pardo a partir do Clube Náutico. Além do feito, ela causou furor na sociedade pelo uso de um “traje ousado” para a época. Era um maiô de peça única.

O Náutico ficou muitos anos abandonado, até que, em 2001, uma nova diretoria assumiu o clube, tendo à frente o músico Ubirani Gonçalves. O local, então, foi rebatizado como Ingá Clube Náutico e recebeu melhorias. Hoje, está novamente abandonado

 

  • Publicado na edição impressa de 18 de outubro de 2020