Donas de clínica onde ‘funcionava’ o Podemos são primas da contadora

Carro da contadora Fátima de Jesus Chaves em frente à casa de Marina de Fátima Borges, irmã de Alini (Foto: André Fleury)

Há um mês, Letícia Dias disse que não conhecia Fátima e que nunca existiu partido no local

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

As podólogas e esteticistas Alini e Letícia Dias são primas da contadora Fátima Chaves, envolvida no processo da prestação de contas suspeita da antiga comissão provisória do Podemos de Santa Cruz do Rio Pardo. Ela é chamada de “tia” por consideração. Alini e Letícia são proprietárias de uma clínica de podologia cujo endereço foi usado pelo Podemos como sendo sua sede, além de ser a suposta residência do ex-presidente Juraci Barbosa.

No dia da convenção que lançou Murilo Sala candidato a prefeito, Fátima almoçou com uma delas em um restaurante.

Na semana passada, a contadora vagou entre as casas da família de Alini e uma chácara em Santa Cruz do Rio Pardo.

Na quinta-feira, 15, Fátima estava na residência de Marina de Fátima Borges, irmã de Alini Regina Dias Borges e de Letícia Regina Dias Borges — as esteticistas proprietárias da clínica.

À esquerda, Alini Dias em viagem com Fátima (à direita, de vermelho)

O grau de parentesco entre elas aumenta as suspeitas de que a antiga comissão provisória do partido não forneceu aquele endereço à Justiça à toa.

Quando o DEBATE esteve na clínica, um mês atrás, Letícia, que atendeu a reportagem, disse que não conhecia Fátima Chaves e nem Juraci Barbosa. Afirmou também que ali nunca funcionara partido algum e que ela não tinha conhecimento sobre movimentação partidária naquela rua, a Conselheiro Antônio Prado, perto do cinema.

A clínica de podologia de propriedade das primas de Fátima Chaves, local em que o Podemos informou ser sua sede em 2019 (Foto: André Fleury)

Uma notificação chegou a ser encaminhada ao endereço da clínica pelos Correios para intimar Juraci. No entanto, a encomenda retornou à Justiça. O motivo: Juraci seria desconhecido no local.

Na semana em que o DEBATE publicou a primeira reportagem sobre o caso e ligou para fazer questionamentos a Fátima Chaves, a contadora, além de ameaçar processar o jornal, alegou que tem parentes em Santa Cruz do Rio Pardo. Mas não disse quais.

No dia seguinte, quando Murilo Sala foi lançado candidato a prefeito no sábado, 12, Fátima compareceu à convenção. Durante entrevista, voltou a dizer que possui parentes na cidade, mas se recusou a dizer quais seriam. De forma ríspida, abandonou a entrevista.

Ela permaneceu em silêncio sobre o caso, segundo apurou a reportagem, a mando de Renata Abreu, presidente nacional do Podemos. Fátima teria recebido ordens da deputada federal para não falar mais sobre as contas suspeitas.

Fátima passou a última semana entre a cidade, onde visitou os parentes, e uma chácara de propriedade da família na zona rural de Santa Cruz.

Casa de Marina, irmã de Alini e prima de Fátima, onde contadora esteve na semana passada

O DEBATE esteve na clínica de Alini na sexta-feira, 17. A podóloga se recusou a comentar o caso e disse que tem o direito de permanecer em silêncio. Não explicou o motivo pelo qual, há um mês, sua irmã negou conhecer Fátima Chaves.

Alini se limitou a dizer que o endereço da clínica não é mais o mesmo do partido. “Se eu tiver que falar alguma coisa, não será para vocês”, disse a proprietária da clínica.

A contadora do Podemos foi a maior beneficiada pelos repasses que aconteceram no Podemos de Santa Cruz no ano passado. A movimentação bruta das contas da sigla ultrapassou meio milhão de reais.

A Executiva Nacional repassou R$ 369 mil do fundo partidário à comissão provisória de Santa Cruz. Fátima, por sua vez embolsou R$ 229 mil. Nada disso foi declarado à Justiça.

O imbróglio foi percebido quando o candidato Murilo Sala, que hoje preside o Podemos, e o ex-tesoureiro do partido Maurício Serra assinaram uma declaração afirmando que as contas bancárias da sigla não haviam movimentado recursos.

O juiz eleitoral Rafael Martins Donzelli pediu o extrato bancário do partido ao cartório, momento em que se constataram os repasses milionários. O Ministério Público Eleitoral deve abrir um inquérito policial para investigar eventuais crimes de corrupção.

Com um carro de luxo, contadora trafega pelas ruas de Santa Cruz do Rio Pardo

Segundo revelou o DEBATE há duas semanas, a contadora Fátima de Jesus Chaves é próxima da família da deputada federal Renata Abreu, que historicamente comanda o Podemos. Ela já rondava os Abreu quando a sigla ainda se chamava PTN — partido fundado nos idos de 1990.

Fátima assessorou a contabilidade do PTN quando José Masci de Abreu presidia o partido. Permaneceu na função até o ano passado, com o partido já sob a chefia de Renata.

Houve época em que Fátima prestou serviços para a deputada Renata Abreu na Câmara e à Executiva do Podemos ao mesmo tempo. 

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  • Publicado na edição impressa de 18 de outubro de 2020