Beto Magnani: ‘O violino’

O violino

 

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— Alguém ai tá a fim de ser adulto?! — perguntou a menina aos colegas da orquestra infantil.

— Não é hora para este tipo de pergunta. Estamos no meio do ensaio. — respondeu o maestro à pequena violinista.

— Ensaio no meio da praça não e ensaio, é apresentação. Tem um monte de gente assistindo. – retrucou a menina ao maestro.

— Mais um motivo para a senhorita não interromper. As pessoas que estão assistindo o ensaio querem ouvir música, não perguntas inoportunas.

— Mas se estão assistindo é porque a gente está se apresentando, não ensaiando.

— É apenas um ensaio aberto ao ar livre. Não exatamente uma apresentação.

— Se tem gente assistindo é apresentação sim. Não tem como ser diferente. Se fosse só ensaio eu não estaria com medo de errar como estou agora. Não gosto de errar na frente dos outros. Alguém aqui tá sem medo de errar?!

— Apenas toque menina! Vamos para a próxima música, as pessoas estão esperando.

— Tá vendo, o senhor está preocupado com a plateia. Se fosse mesmo só um ensaio não ligaria para ela. Alguém aqui não tá nem aí para as pessoas em volta?!

— Por favor, chega de perguntas!

— Maestro, o senhor tem que entender que as coisas não são iguais quando mudam! Se muda, muda. Entende? Não é mais igual como antes.

— Vamos tocar aquela que todos gostam.

— Por que o senhor só quer saber de agradar os outros?

— Sem perguntas, já falei. Se posicione para o inicio da música.

— O senhor tem medo de perguntas?!

— Não querida, não tenho medo de nada. Só quero continuar o ensaio.

— De nada? Nenhum medo? Nem quando era criança?

— Só de escuro.

— Passou?

— Acho que sim.

— Acha?

— Acho.

— Alguém aqui acredita que o medo do maestro passou?!

—Eu vou ter que pedir para a senhorita se retirar caso continue com suas perguntas!

—O senhor está ficando nervoso. Parece que tá com medo de outras coisas além do escuro.

— Ao contrário senhorita!

— Ao contrário? Tá com medo da luz então! Eu sabia! Tinha certeza que era isso! Pobres adultos!

— Tá difícil hein?!

— É difícil mesmo! Quem falou que era fácil? Alguém aqui acha que é fácil?!

— Podemos continuar?

— Vai, começa logo a música. — encerrou a menina posicionando seu violino.

A orquestra toda riu. A plateia acompanhou. Pareciam todos crianças. A música encheu a praça novamente. Continuei ali. Criança também. (Magú)

 

  • Publicado na edição impressa de 11 de outubro de 2020