Pascoalino: ‘Nunca mais’

Nunca mais

 

Pascoalino S. Azords

CRÔNICA  Quaresma ainda quer dizer alguma coisa para certas pessoas. Talvez hoje eu devesse escrever uma história de assombração, ou de um fenômeno sobrenatural que a falta de energia elétrica combinada com a ignorância nos fazia ver com esses olhos que a terra há de comer.

Urubici não está nos dicionários, mas quem enxerga bem poderá encontrá-la nos mapas mais detalhados. De forma que, mesmo sem saber o que significa urubici, podemos chegar a ela seguindo as placas de sinalização, que, diga-se de passagem, não são muitas no Sul do Brasil. Subindo que nem rojão pela BR-282 na direção do Planalto Serrano cheguei a um trevo onde, ao invés de um santo qualquer, encontrei uma cuia de chimarrão em forma de monumento. Virei à direita e, depois de muitas curvas descendo a Serra do Panelão, uma placa advertia para o risco de gelo na pista. Advertido, segui numa marcha lenta em direção à várzea onde um dia alguém teve a idéia de fundar uma cidade. Do alto da serra, plana como uma mesa de bilhar, Urubici mais parece uma pista de pouso poucos metros acima do Rio Canoas que a guarda quieto, a média distância, como um jacaré.

Cheguei a Urubici depois do almoço, no sábado de Carnaval. Amplificados pelos arranha-céus de pedra da serra, os rojões àquela hora da tarde parecia um sinal de boas vindas. Era o meu primeiro engano. Ninguém há de se interessar por um Carnaval que se resume ao desfile de quatro ou cinco carros normais, como o meu, de onde os foliões buzinam, soltam foguetes, acenam e entornam latinhas de cerveja sem parar. A sonora procissão se limita ao trecho urbano da rodovia que corta a cidade de ponta a ponta. À noite acontece o baile no ginásio de esportes. De madrugada, a canja no Canto do Sabiá, um barzinho simpático tocado por um jovem casal.

O Carnaval pode ser inevitável para quem vive em Urubici, mas não é o que leva alguém a procurá-la nessa ou em outras épocas do ano. Vai-se a Urubici atrás das cascatas que despencam da Serra Geral (como a Véu de Noiva e a do Avencal com mais de 100 metros de altura), das araucárias gigantes semeadas pela gralha-azul antes do descobrimento do Brasil, e, sobretudo, e, acima de tudo, para se ver o mundo do alto do Morro da Igreja, com seus 1.840 metros. A Pedra Furada é um capítulo ou um parágrafo à parte. Escultura natural trabalhada ao longo de milhões de anos com uma abertura de 30 metros de circunferência na pedra bruta lembra as igrejas mais modestas de Minas Gerais, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Tiradentes. A Pedra não foi esculpida para alguém rezar, mas acontece de pessoas chorarem ante a sua visão!

De Urubici ao Morro da Igreja são 26 quilômetros de alumbramento por estrada de chão e um pouco de asfalto. Quando não é mais possível subir, estaciona-se o carro numa pista de cimento ao lado do precipício. O cimento explica-se: mais adiante está uma área de segurança nacional, proibida aos homens de paz. É dali que se controla o espaço aéreo do sul do país, os passos dos aviões que caem ou continuam voando.

As vizinhas Urubici e São Joaquim disputam o posto de lugar mais frio do Brasil. Abundam fotos de nevascas de ambos os lados, mas o recorde oficial registrado em 1996 pertence ao Morro da Igreja, onde o termômetro cravou 17,8 negativos, com sensação térmica de 40 graus abaixo de zero! Entre o Morro da Igreja e a Pedra Furada abre-se um abismo tão grande que conseguimos ver chover lá embaixo! É nesse abismo que a cerração se coloca entre a Pedra e as pessoas que perderam a viagem para vê-la. Quando a Pedra aparece, sentimo-nos privilegiados. Acontece de perdermos certas noções e adquirirmos outras. Tem gente que se sente no direito de pedir a um desconhecido para acionar o botão da máquina fotográfica a fim de que ninguém do seu grupo fique de fora da imagem rara. Casais se beijam tendo ao fundo a Pedra Furada sonhando com um amor que resista ao tempo, embora o tempo mude a cada minuto no Morro da Igreja. Jovens extrovertidos uivam das alturas e mulheres sensíveis deixam para trás chinelos ou até seus óculos de sol.

Tive a sorte de avistar a Pedra Furada nessa minha primeira excursão, ao lado de teimosos que já tinham perdido três ou quatro viagens. Quis trazer uma pedrinha do chão, mas fui advertido por uma mulher para não alterar a ordem daquele mosaico milenar. “Este é um dos lugares sagrados onde Deus ainda não concluiu a sua obra”, ela me disse. O caminho de volta à cidade foi mais silencioso do que a ida.

Muitas horas depois, numa mesa do Zero Grau, eu ainda pensava naquele lugar que Deus não terminou de fazer. O Zero Grau é um restaurante discreto à beira da rodovia que corta a cidade, como tudo que há em Urubici. Tem uma lareira bem posicionada para as demais estações do ano e amplas paredes de vidro para as noites frias do verão. Eu já devia estar satisfeito com a divina truta e as cervejas que não paravam de chegar, já podia ter ido dormir, afinal, aquele dia tinha sido muito generoso comigo. Mas ainda nem era meia noite. Pela rodovia passavam uns raros carros em silêncio. De repente, vindo dos lados na matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens, passou uma pick-up lotada de homens fantasiados de mulher. Logo atrás vinha um ônibus urbano, desses de bancos duros e janelas transparentes que escancaram a intimidade das pessoas com seus guarda-chuvas e suas sacolinhas de plástico. Ao contrário da pick-up das loucas, o ônibus vinha quieto como um aquário iluminado. Por conta de um quebra-molas, o cortejo passou em câmera lenta em frente ao Zero Grau. Então eu pude contar 21 índios apaches, a maioria sentada, uma meia dúzia em pé com aquelas penas de ganso clareando ainda mais o interior do circular. E quando o ônibus arrancou depois do quebra-molas, um dos índios nos concedeu um tchau de misericórdia, como se aquilo fosse um filme mudo ou uma assombração que iria aparecer em outras praças nos próximos dias da Quaresma.

Se me restar saúde e disposição eu posso rever a Pedra Furada subindo o Morro da Igreja uma, duas, quantas vezes for preciso. Mas aquele ônibus cheio de índios americanos, estáticos como se estivessem num museu de cera, certamente, nunca mais!

  • Publicada em 28/02/2010 e republicada na edição impressa de 11 de outubro de 2020