De Santa Cruz para Floripa, e da capital catarinense para a Suécia

André anda pelas ruas de Gotemburgo, uma das principais cidades suecas, onde está hoje

Tatuador santa-cruzense vive estilo de vida nômade há anos: passou por SP, SC e está agora na Suécia

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Ele deixou de ser André Luís há muito tempo. Hoje atende pelo apelido “Kppa” (pronuncia-se capa). Desenhista em potencial já na infância, André nunca se deu bem em empregos comuns. Diz que não se sentia à vontade com as profissões tradicionais. Foi quando um amigo, tatuador, pediu para que o ajudasse a reparar uma tatuagem. “Meu interesse pelo ramo começou aí”, diz Kppa.

Andava de skate nos idos de 1990, quando o esporte sequer era popular. E já naquela época adotava um estilo alternativo, com tênis e camisetas largos. Quase se profissionalizou no esporte, mas decidiu que levaria a vida tatuando.

“Após um ano praticando em Santa Cruz, fui para Bauru, onde fiquei durante um tempo. Depois comecei a viajar. Passei por Marília, Jaú, Agudos, Piraju e outras cidades do interior”, lembra.

Cansado da vida interiorana, decidiu se mudar para capitais. Passou um tempo em São Paulo e, depois, no Rio de Janeiro. “Foram épocas de total desconforto, necessidades e dificuldades. Não conhecia ninguém. Só queria trabalhar e conhecer o mundo”, conta.

Naquele tempo, Kppa estava em seu auge como atleta de skate. Tinha patrocínio e disputava dezenas de campeonatos por ano. Mas um acidente mudou os rumos de sua vida. E o caso, por sinal, sequer aconteceu com ele.

“Um amigo tatuador, que morava em Santa Cruz, teve um AVC. Pegou todos de surpresa. Fiquei sabendo e voltei para a cidade. Tinha que ajudá-lo. Foi quando ele me perguntou se eu não poderia ‘tocar o estúdio’ para ele”. Dito e feito.

De volta a Santa Cruz, Kppa tatuava e, apesar disso, não deixou o skate de lado. “Sempre busquei incentivar os mais jovens. Queria levar esperança para eles, coisa que eu não tive no começo”, cita.

Em Florianópolis, capital catarinense, um de seus hobbies era surfar

O amigo tatuador se recuperou do AVC e pôde voltar a comandar o estúdio. Kppa, em contrapartida, resolveu voltar à vida nômade que sempre levou. Se mudou para Florianópolis.

Conseguiu um primeiro emprego na capital e alugou uma pequena casa na cidade.

Costumava participar de eventos em bares ou baladas. Sempre foi alheio ao álcool: sua intenção era mesmo trabalhar e conquistar espaço. Mas o comodismo nunca o agradou.

Sempre se interessou por espiritualidade e religião. Decidiu ir a fundo nos estudos. Se debruçou sobre Leonardo da Vinci, geometrias e outras teorias ligadas à fé. Fez cursos no ramo também. Talvez por isso tenha desenvolvido um estilo próprio de tatuagem.

O cliente passa por sessões de autoconhecimento antes de decidir o desenho que deseja marcar na pele. São vários dias para se chegar a uma conclusão definitiva. É o chamado “Autoconhecimento na pele”. Embora ainda seja Kppa, passou a assinar como “Luuz”.

“O mais importante é a terapia por que passa a pessoa. A tatuagem em si é o de menos”, explica.

Pela diversidade cultural da capital catarinense, André conheceu dezenas de estrangeiros. Por imposição da cidade, aprendeu — na marra — a falar inglês. Hoje namora uma sueca.

Kppa tinha planos de ir para a Europa já no início do ano. Mas o coronavírus tomou proporções antes inimagináveis, e a viagem acabou cancelada.

“Esperei alguns meses e recebemos um convite da Discovery Channel para participar de um reality show. Eles fizeram os contratos, tive ajuda de minha namorada e embarquei para a Suécia”, conta.

Ele diz que a cultura no país europeu é completamente diferente. “Avançada e desenvolvida por um lado, mas que não entende muito o lado humano”, diz. Tatua e expõe seu trabalho na Suécia.

Não tem planos para voltar ainda, mas diz que espera ser reconhecido também por lá. Sente falta mesmo é dos amigos. 

 

  • Publicado na edição impressa de 18 de outubro de 2020