João Zanata Neto: ‘O estranho’

O estranho

 

João Zanata Neto

Ele não estava sempre atento. Era muito calmo. Tranquilo, pois nem sempre era calmo. Contudo, como de costume, atravessou a rua e foi para o bar. Era final da tarde, a hora ideal para tomar um gole. Ele não era sofisticado. Com ele não havia essa de beber um drink. Era humilde até nos seus vícios. Pode parecer não ser sensato embriagar-se todo dia, mas qual é? Algumas doses para o bebum bem treinado são inofensivas.

Lá ele tinha o seu lugar cativo. Uma mesinha na calçada para ver a vida passar é suficiente. Embora nada levasse a crer, ele estava ali por ofício. Quem fosse um bom observador notaria que sobre a sua mesa descansava um bloco de papéis e um lápis. Não, não. Não era mais um escritor em busca de inspiração. Ele estava ali esperando algo, mas nada específico. Ele esperou, bebeu, esperou, bebeu e nada aconteceu. Nenhum rabisco, nenhuma palavra foi escrita.

O que você esperava? É mais uma tarde como todas as outras. A vida nem sempre é uma novela interessante. Ele realmente é escritor? Ou será que está sem inspiração? Comentou alguém. Eu acho que todo mundo é escritor, mas nem todos escrevem. Escritor é uma definição subentendida, eu disse.

No começo, quando ele começou a frequentar este bar, achei que ele era um jornalista. Para mim faz bem o tipo. Depois, observando melhor, tive certeza que ele não era um jornalista. Jornalista respira jornalismo. Ele ali, taciturno, esperando um não sei o que, não tinha nada de jornalista. Se jornalista ele não era, mais cedo ou mais tarde ele se transformaria em notícia. Grosso modo, todo mundo achava que ele era um sujeito estranho. Todo mundo quero dizer os clientes bebuns do bar e entre estes havia um palpite forte de que o sujeito era um detetive particular, um sujeito perdigueiro com faro bom para adultério. Era bem provável, mas o sujeito não tinha uma Nikon.

Deve ser de bolso, gente, disse outro bebum. De qualquer forma, hoje não parece ser um dia bom para o adultério. Não é nada disso, disse outro bebum em tom baixo, ele só está fingindo que é escritor, tirando uma onda, é só para ter o charme de escritor, o cara é uma fraude, ele está achando que este bar é um pub. Escolheu errado, então, disse outro bebum, aqui a única inspiração é o álcool. Inspiração que nada, redarguiu outro, aqui só tem é transpiração, muita grosseria e reclamação. Na minha opinião, um sujeito com papel e um toco de lápis mordido pode ser qualquer coisa, acrescentou outro bebum, deve ser uma lista de compra da esposa ou vai jogar na loto.

Eu já senti o drama, falou uma rara representante feminina, este cara fez merda com a namorada e está ali tentando escrever um pedido de desculpas. Todo mundo coçou a cabeça naquele instante. É isto mesmo, ela matou a charada. Todo mundo aqui já fez merda um dia e conhece bem o drama, respondeu outro bebum. Olha, eu não tenho nada contra a feminista aí, mas não é nada disto, disse outro bebum, esse cara aí é um matemático ou um físico, quem é que escreve com lápis?

Estamos de novo na estaca zero, concluiu outro bebum, solta aí outra rodada chefe. Este cara aí deve ser da inteligência, um espião. Eu acho que é um fiscal da prefeitura e só não fechou o boteco porque está usufruindo da propina destilada. Calados. Ele está escrevendo. E ele escreveu muito mesmo, umas quatro folhas sem parar. Depois, parou e pediu outra dose. Caraca! Que sujeito mais estranho. Agora, ele parece feliz, disse outro bebum. Esperem, eu vou lá, eu disse.

— Cortesia da casa, posso me sentar?

— Será um prazer!

— Olha, parece estranho ou insensato, mas eu e a galerinha lá dentro estávamos lhe observando.

— Eu entendo. Eu deixei vocês intrigados. De fato, eu sou um escritor e estava sem ideia até uns momentos atrás, mas vocês me deram um texto pronto e estou muito grato por isto. Agora, me desculpe, mas preciso ir… olha este bar para mim é um verdadeiro pub. 

 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

 

  • Publicado na edição impressa de 18 de outubro de 2020