Antiella Carrijo Ramos: ‘A gente não quer só comida’

A gente não quer só comida

 

Antiella Carrijo Ramos

Tenho analisado minha trajetória na psicologia social na tentativa de compreender quais foram os afetos que me motivaram a seguir nessa área entre tantas outras. Comecei a recordar dos tempos da universidade e percebi que a relação de amor com a área social foi trazida pelas mãos de um outro amor — meu marido. Foi por meio dele que tive meu primeiro contato com uma comunidade na periferia de Bauru, foi ao seu lado que dei os primeiros passos na Assistência Social. Ele abriu portas, caminhou comigo e juntos vimos a política pública se construir no país. Nossos caminhos profissionais não são mais os mesmos, mas a verdade é que esse foi meu ponto de partida.

Essas histórias afetuosas me fazem compreender as decisões que tomei, criando em mim a necessidade de buscar os conceitos que embasam a minha prática e essa busca me faz pensar em como a pobreza é compreendida pelas pessoas que trabalham diretamente com ela. Cotidianamente me deparo com atitudes que reproduzem estereótipos e estigmatizam as famílias pobres, criando uma caricatura daquilo que julgam ser a realidade de suas vidas.

Esther Duflo e Abhijit Banerjee, vencedores do Prêmio Nobel de Economia em 2019, afirmam que “se queremos avançar, devemos parar de reduzir os pobres a caricaturas e dedicar algum tempo para realmente entender suas vidas em toda a sua riqueza e complexidade”. A psicologia social me fez querer avançar e me trouxe a certeza de que a solução da pobreza também tem que partir das pessoas que estão submetidas a ela, o respeito as suas vontades e desejos é condição para o processo de transformação social que busque romper com a desigualdade. E como muito bem colocou Arnaldo Antunes “a gente não quer só comida”, a gente quer diversão, arte, cultura, educação, saúde, trabalho, uma vida digna e feliz.

E enquanto pensava sobre a pobreza, descobri que para os cristãos, o dia 15 de novembro é o Dia Mundial do Pobre. Foi instituído para nos lembrar da necessidade concreta de apoiar os mais vulneráveis, romper com a exclusão, construindo uma sociedade em que a pobreza não seja o projeto social. Essa mudança no mundo é urgente, não se esqueçam disso nesse domingo!

Antiella Carrijo Ramos é psicóloga em Santa Cruz do Rio Pardo

 

  • Publicado na edição impressa de 13 de novembro de 2020