Marquinho é reeleito em São Pedro, e festa tem ofensas contra mulheres

Carreata teve duas bonecas açoitadas em alusão à chapa adversária; motorista é acusado de assassinato no Pará

 

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O prefeito Marco Aurélio Oliveira Pinheiro (PSDB), o “Marquinhos”, foi reeleito em São Pedro do Turvo para um novo mandato de quatro anos. Ele obteve 2.606 votos no domingo, 15, e venceu a candidata Rose Montequesi (PSD), que ficou com 1.924 votos. As eleições em São Pedro costumam ser acirradas e disputadas por grupos políticos tradicionais. No entanto, também registram comemorações violentas.

A atual vice, Maria Elizabete Pedron (Republicanos), foi mantida na chapa e também reeleita. Ela é mulher do ex-prefeito Luiz Cláudio da Cunha, o “Nenê da Neguinha”. A chapa adversária foi formada por mulheres cujos maridos também foram prefeitos. Rose tem como companheiro o ex-prefeito José Carlos Damasceno, ex-aliado de Marquinhos. A vice dela, Marilda, é mulher do ex-prefeito Roberto Di Bastiani, que se elegeu vereador no domingo.

Na noite de domingo, quando a vitória de Marquinhos foi confirmada, uma camionete saiu às ruas com duas enormes bonecas cor-de-rosa presas na traseira, sendo açoitadas a pauladas por apoiadores do grupo político vitorioso. O carro ainda tinha a frase grotesca “periquito nelas” escrita na lateral.

A cena é uma alusão à chapa da oposição, que teve Rose Montequesi (PSD) como candidata a prefeita e Marilda Rodrigues Di Bastiani (PT) como vice. As duas usaram a cor rosa como símbolo da campanha de uma chapa exclusivamente feminina. Pintaram até um fusca de rosa na campanha. Derrotadas, foram “malhadas” simbolicamente nas ruas, numa atitude considerada machista e violenta.

Populares que apoiaram Marquinhos açoitam bonecas. abaixo, Alessandro e mais uma pessoa colocam as bonecas no carro

O fato mais grave é que a camionete era dirigida pelo empresário Alessandro Camilo de Lima, acusado de ter matado a namorada Ana Karina Matos Guimarães em Parauapebas, quando morava no Estado do Pará. Ela estava grávida de nove meses e prestes a ganhar a criança. O crime aconteceu em 2010 e na época Alessandro confessou que matou a namorada com ajuda de outras pessoas, uma delas já condenada a 24 anos de prisão.

Após ser morta a tiros, o corpo da mulher foi esquartejado e colocado dentro de um tambor que, em seguida, foi jogado no rio Itacaúnas, no município de Marabá. Os restos mortais de Ana Karina nunca foram encontrados. Segundo consta, o desentendimento entre Alessandro e a namorada era devido ao pagamento das despesas com o parto.

Com família em São Pedro do Turvo, Alessandro ficou preso vários anos até ser beneficiado por um “habeas corpus” concedido pelo STJ em 2017. Desde então, ele aguarda o julgamento em liberdade. No ano passado, a defesa do empresário conseguiu transferir o júri popular para a comarca da capital, Belém. Os advogados alegam risco de linchamento se o julgamento acontecer em Parauapebas. A data, porém, ainda não foi agendada pelo Poder Judiciário.

Não foi a primeira vez que São Pedro do Turvo teve comemoração eleitoral violenta. Há muitos anos, quando o saudoso ex-prefeito Celso Pinheiro perdeu uma eleição, os adversários depenaram e mataram um galo vivo nas ruas. Galo era o apelido de Celso.

Um dia após eleição, ‘Marquinho’
sofre denúncia do Ministério Público

O prefeito de São Pedro do Turvo Marco Aurélio Oliveira Pinheiro (PSDB) comemorou a vitória nas urnas no último domingo. Um dia depois, no entanto, foi denunciado pelo Ministério Público da comarca pela compra – irregular, acusa o MP – de produtos da empresa “Ramos & Rodrigues Construção” que pertence a seu ex-secretário de Administração, Antônio Andrade Ramos. Ele também foi denunciado.

Assinada pela promotora Paula Bond Peixoto, a denúncia do Ministério Público aponta indícios de fraude na composição societária da empresa e outras irregularidades em compras da administração. É a primeira ação civil pública contra o prefeito de São Pedro do Turvo.

Segundo a peça, o secretário Antônio foi sócio da empresa até 16 de janeiro de 2017, data em que se desvinculou da “Ramos & Rodrigues”. Em contrapartida, quem assumiu foi sua filha. Um dia depois, em 17 de janeiro, Antônio Andrade Ramos foi nomeado secretário do município.

A partir de então, expõe o MP, a prefeitura passou a adquirir produtos da empresa sem licitação prévia. Para o órgão, o desligamento de Antônio da sociedade foi doloso.

“Sua retirada, justamente no início da contratação da empresa para a aquisição dos materiais de construção, demonstra que a alteração contratual ocorreu com a nítida finalidade de contornar a expressa vedação expressa na Lei Orgânica do município”, diz a denúncia.

A Lei Orgânica dispõe que agentes políticos não podem ter negócios com a administração salvo em condições uniformes — isto é, quando é feita licitação prévia.

Além disso, o MP também aponta compras fracionadas em valores menores — mas em datas sequentes — que, segundo o órgão, foram feitas a fim de burlar a lei de licitações, que prevê o certame a partir de R$ 17.600. A denúncia ainda precisa ser aceita pela Justiça. A ‘Marquinho’ e Antônio, o Ministério Público pede a suspensão dos direitos políticos pelo prazo de até três anos, o pagamento de multa civil de até 100 vezes a remuneração do prefeito e a proibição de contratar com o poder público — que também é requerido com relação à empresa.

Procurado, Marco disse que a denúncia ““causa estranheza, já que as compras da prefeitura são feitas mediante cotação e não houve compras em estabelecimentos cujo sócio fosse secretário. Respeitamos o Ministério Público mas discordamos dessa informação”. 

 

  • Publicado na edição impressa de 22 de novembro de 2020