Antiella Carrijo Ramos: ‘Consciência negra? Sim!’

Consciência negra? Sim!

 

Antiella Carrijo Ramos

No dia 20 de novembro celebramos a consciência negra. A data faz referência à morte de Zumbi — líder do Quilombo dos Palmares — símbolo da resistência dos negros escravizados no Brasil e também da luta por direitos que os afro-brasileiros reivindicam. A data foi criada pela Lei nº 12.519, no dia 10 de novembro de 2011, durante o governo de Dilma Rousseff.

Desde então nos deparamos com pessoas desinformadas que compartilham conteúdos questionáveis para legitimar a defesa da celebração de uma consciência humana, sob a alegação de que todos somos iguais. A verdade é que, historicamente, negros e brancos tiveram vivências bem diferentes, enquanto os primeiros eram tratados como mercadoria, os últimos se beneficiavam do trabalho compulsório dos primeiros. E embora todos nós sejamos humanos, a desigualdade social transcende os aspectos econômicos e expressa uma relação íntima com a questão racial.

Depois de muita luta, resistência dos negros e negras escravizados e pressões estrangeiras em 1888 a escravidão no Brasil chegou ao fim. Mas, infelizmente, o fim da escravidão não trouxe o fim do preconceito racial e negar a necessidade de celebrar a história e a resistência do povo negro é ignorar a subjugação ainda presente nas relações sociais e o racismo estrutural que forjou a nossa sociedade.

Porque então devemos celebrar a consciência negra? Porque o racismo ainda está presente e a população negra, maioria no país, ainda lidera os piores índices de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), ganham menos, são mais suscetíveis a sofrer violência do Estado, morrem mais de causas violentas, tem menos acesso à saúde e a educação. Quando mudaremos essa realidade?

A reparação histórica é urgente para a inclusão social dos negros no Brasil pós escravidão, e para isso, é indispensável que nós, brancos, reconheçamos nossos privilégios e passemos a fazer parte das trincheiras que buscam criar políticas sociais afirmativas que reparem a desproteção do Estado, realizada no passado e ainda tão engendrada no presente.

Celebrar a consciência negra é uma forma de reparar a dívida histórica que o país tem com o povo negro e que a gente nunca se esqueça que “numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista” (Angela Davis).

 

Antiella Carrijo Ramos é psicóloga em Santa Cruz do Rio Pardo

 

  • Publicado na edição impressa de 22 de novembro de 2020