Murilo muda o discurso e, com Serra, pede devolução dos repasses suspeitos

O vereador e candidato derrotado Murilo Sala durante sessão da Câmara (Foto: André Fleury)

Integrantes do Podemos alegam ter sido ‘enganados’ pela contadora Fátima Chaves

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O vereador Murilo Sala, candidato a prefeito derrotado em novembro, mudou o tom ao tratar do escândalo do Podemos e, juntamente com o ex-tesoureiro da sigla Maurício Serra Bianchi, pediu a rejeição das contas do Podemos de 2019 e a devolução dos valores repassados de maneira suspeita pelos antigos dirigentes.

Os atuais integrantes do partido pedem que os valores sejam devolvidos, por sinal, ao Podemos de Santa Cruz do Rio Pardo. A manifestação consta em um ofício encaminhado à Justiça Eleitoral na semana passada.

Em setembro, na convenção partidária em que foi lançado candidato a prefeito, Murilo defendeu durante discurso no palanque da Câmara a retificação de contas da sigla, alegando que tudo estaria sendo explicado. A primeira reportagem do DEBATE sobre o caso havia sido publicada naquele mesmo dia 12 de setembro.

O documento em que estariam as supostas provas da regularidade dos repasses do dinheiro a contas bancárias particulares havia sido entregue pessoalmente a Murilo por Fátima de Jesus Chaves, a contadora do Podemos que veio a Santa Cruz a pedido da deputada Renata Abreu, presidente nacional do partido.

“A movimentação é um fato. Aconteceu. Mas agora temos a retificação aqui”, disse na tribuna da Câmara durante a convenção. “Ela veio aqui hoje só para trazer a retificação das contas. Ela se colocou à disposição e disse que tinha tudo”, emendou, referindo-se a Fátima.

Minutos depois, em entrevista coletiva, Murilo afirmou que acreditava na veracidade dos documentos apresentados por Fátima. Naquele momento, no entanto, ele se recusou a mostrar os papéis à imprensa.

Quando a retificação foi tornada pública na Justiça Eleitoral, porém, descobriu-se que ela possuía documentos rasurados, indícios de fraude e notas fiscais sequenciais e sem descrição efetiva dos serviços prestados.

A petição dizia que a comissão provisória de Santa Cruz gastou, no ano passado, em “serviços técnicos e contábeis”, “eventos promocionais” e “despesas financeiras”. O total ultrapassou R$ 369 mil. Nenhuma das notas fiscais foi emitida durante o período em que aconteceram os repasses suspeitos.

Fátima Chaves afirmava, por exemplo, que recebeu uma parcela de R$ 90 mil para “orientar” o partido com relação à documentação de abertura a ser regularizada, pela contabilidade do mês e por 100 horas de “palestra” sobre o partido aos dirigentes. Todos moram em outras cidades.

A data de emissão das notas fiscais de Liliane Rodrigues dos Santos, ex-integrante da antiga comissão provisória do Podemos, estavam rasuradas com tinta branca.

No ofício em que pedem a rejeição das contas e a devolução do valor repassado, Murilo e Serra admitem que, antes de se filiarem ao Podemos, consultaram e direção estadual do partido e entraram em contato com Fátima Chaves. Ela teria afirmado aos atuais líderes da sigla que o partido não havia movimentado dinheiro em conta.

Após a revelação de que os antigos dirigentes do Podemos deixaram de declarar R$ 369 mil do fundo partidário, Maurício Serra deixou o cargo de tesoureiro do partido. Apesar disso, seguiu filiado ao Podemos.

Há duas semanas, o promotor Reginaldo Garcia, da Justiça Eleitoral, determinou que o escândalo do Podemos seja investigado pela polícia. O inquérito criminal deve apurar também eventual prática de falsidade ideológica nos documentos fornecidos à Justiça pela antiga comissão provisória.

Apesar de citar os antigos dirigentes, a investigação deve abranger também a ex-tesoureira da sigla Fátima Chaves, que recebeu mais de R$ 200 mil dos repasses no ano passado e não declarou nada. Recai sobre Fátima o fato de ela ser prima de Alini e Letícia Dias, donas da clínica onde teria funcionado o Podemos — fato que nunca aconteceu. As irmãs também devem prestar depoimento à polícia.

Fátima pode ser peça fundamental nas investigações. Letícia Dias, irmã de Alini, chegou a dizer ao DEBATE em setembro que não conhecia Fátima Chaves ou Juraci Barbosa, fato que depois acabou desmentido.

Não é descartada a hipótese de ouvir em juízo a deputada federal Renata Abreu, presidente nacional do partido, já que sua família tem relações com a contadora Fátima Chaves desde 2011.

  • Publicado na edição impressa de 20 de dezembro de 2020
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