Zanata: ‘Velha hipocrisia’

Velha hipocrisia

 

João Zanata Neto *

Conforme o presente caminha para o futuro, o passado se dissipa tal qual as espumas singradas na proa das naus. O passado se transforma na memória dos tempos onde só caberá à humanidade rememorá-lo e questioná-lo. Os dias que se foram formam as páginas de uma história a ser contada.

O quanto deste passado se torna importante depende de como o presente lhe interpreta. Servirá ele de bom ou mau exemplo conforme os valores presentes se apresentem como o paradigma aceitável ao julgo sensato e ponderoso do pensamento contemporâneo.

Quanto pesar ou amargor contém cada ato? Somente a consciência pode aferir as consequências que decorrem de tais atos. Um agir nunca é um ato indefeso, pois ele é o motivo modificador das implicações alheias. Mesmo que seja bom ele há de doer quando é uma verdade prolatada.

Contudo, até um não agir poderá ter implicações que a consciência há de julgar. Só podemos escolher entre o agir ou não fazer, mas nunca se estará livre das consequências. A vida pede todo dia uma reflexão antes de cada passo. É preciso hesitar para se ter êxito. Adotar um conservadorismo injustificado é tão nocivo como a impulsividade. A vida pede a sabedoria de cada dia, de cada passo.

No final de cada ano é costume veicular a retrospectiva. A contabilidade do ano derradeiro faz o seu balanço. Classificamos e contabilizamos todos os fatos e atos que despertaram o interesse ou comoveram a sociedade. A ano pode ter sido bom ou ruim, mas qualquer conclusão é sempre algo relativo. Basta adotar um viés otimista ou pessimista que tudo terá outro sentido. Contudo, a retrospectiva não deve ser uma coisa sensacional para quem vê, mesmo que seja esta a intenção por detrás da informação que impressiona. Ela é um convite para a reflexão de todos os erros ou acertos do ano que terminou.

As mensagens lustrosas que as festas do final de ano carreiam como a ladainha carimbada que roga pelo renascer da esperança tem sempre um teor de hipocrisia, pois a miséria e a desigualdade são invisíveis quase o ano inteiro. E, agora, nos finais de ano, os olhos se apiedam e se voltam para o próximo como se benfeitores fossem. A mais sórdida hipocrisia sempre entoa os mantras da esperança nas festas de fim de ano.

É mil vezes mais louvável a mundanidade escancarada do Carnaval a ter que suportar a velha hipocrisia do final de ano. 

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”

 

  • Publicado na edição impressa de 1º de janeiro de 2021