Diva Fernandes

Palácio de vidro

Coluna de Diva Fernandes

Palácio de vidro

Publicado em: 03 de julho de 2023 às 23:48

Ai de mim se não me atrevesse a escrever, afirma o poeta, causídico de desventuras, e não raro, das belezas proféticas que na verdade falam por si.

A poesia, no entanto, sente alquebrada seu encanto diante do desencanto que corrói a vida humana, vítima da fatídica ganância orquestrada pelo sistema capitalista originário da ambição acumuladora de fortunas de um número irrisório de indivíduos.

Os raios da estrela solar se escondem lentamente no horizonte enquanto o vento frio do inverno açoita os corpos dos menos favorecidos de agasalho; aqueles e aquelas que neste dia sombrio, assim como em quase todos os outros dias e noites de suas vidas, nada encontraram para sossegar a fome que provoca vertigens e enjoos. Algumas crianças, filhos da ingratidão social e econômica disputam com um corvo o amontoado de restos orgânicos depositados ali pelos veículos de coleta.

O tempo neste lugar fétido, cronometrado pela ansiedade própria do vazio que habita o estômago e a alma humana flagelada pelo abandono de bem-estar, tece a urgência da aberração na disparidade alienada de uma sociedade que envolta na sua mesmice afortunada, recusa-se a ouvir o estalar de vidas humanas na busca por saciar-se com um grão de ervilha.

Deste lugar desprovido de vida, onde essas vidas humanas chafurdam por um fio de esperança, avista-se frondoso e absoluto, resistente e faceiro, o conhecido palácio da alvorada, localizado no planalto central a poucas milhas de distância dali. Os belos montes que contrastam naquela paisagem ressequida pelo inverno permitem a visão de grandes distâncias. O cerrado continua fascinante, exuberante na sua natureza atrevida.

O corvo, alimentado e satisfeito depois de uma tarde de regalias, assustado com o alvoroço daquelas pessoas, alça voo até um ponto de apoio bem próximo ao dito palácio em que pratos variados de requintes apetitosos, servidos na prataria encomendada para a ocasião, são preparados por renomados chefs neste jantar afagado pela política constituinte do capitalismo que atropela vidas humanas, fadadas ao desespero dos lixões na busca por um grão, que porventura possa restar do banquete no Alvorada. É Brasil.

...O corpo, com o tempo, tomba, o vidro, com o tempo, parte...


Diva Fernandes

Diva Fernandes

Escritora nascida em Espírito Santo do Turvo, é autora dos livros “Marcas do Chumbo – A História do Menino David” e “Ave Lux! Salve Luz! Vozes da História a Serviço da Fé"


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