Enzo Pellegrino

Amor febril

Coluna de Enzo Pellegrino Pedro

Amor febril

Publicado em: 10 de maio de 2023 às 16:51

Quando saiu da barriga de sua mãe, em 02/05/1988, a primeira coisa que Guilherme Gaia ouviu nesse mundo foi um grito cheio de espanto do cirurgião responsável pela cesariana. Embora não se lembrasse do momento e menos ainda do conteúdo do grito, a filmagem do parto jamais permitiu que seus pais mentissem quando lhe contaram, ainda criança, o soou pela voz do doutor: “Nossa! Mas que cara de malandro tem essa criança!”

Não se sabe qual foi a mágica dessas palavras, mas ainda que ele realmente tivesse uma cara de malandro já desde seus primeiros segundos de vida (contam os demais presentes que o bebê soltava piscadelas e mostrava a língua quando os pais desviavam o olhar), esse estigma o acompanhou até a vida adulta. Aonde quer que ele fosse, não importa o que fizesse, simplesmente não conseguia ganhar a confiança de ninguém.

No ensino fundamental, Guilherme jamais pôde fazer uma prova sequer sem estar sentado na primeira fileira. Seus próprios pais, aliás, o proibiram de colecionar qualquer tipo de coisa e concordavam com a postura dos professores. “Tudo bem que é nosso filho, mas será que dá pra confiar? Melhor não arriscar”, diziam sem pestanejar.

O tempo foi passando e continuou convivendo com a desconfiança de todos na cidade, com seus pouco mais de 47 mil habitantes. Todos compravam fiado, menos ele; não podia ter conta na cantina do colégio mesmo que sua própria irmã pendurasse salgados e refrigerantes diariamente; e até mesmo num baile com entrada franca pediram-lhe para pagar, uma singela medida para evitar possível prejuízo aos organizadores.

Na vida amorosa os problemas eram ainda maiores. Andar por aí conversando com a namorada de algum amigo? Nem pensar! Todos mantinham-no sob eterna vigilância, o que obviamente acontecia também com as famílias das meninas com quem tentava se relacionar. Era só o pai da garota bater o olho nele e pronto, no dia seguinte já estava solteiro novamente, sem receber muitas explicações (e precisava?).

Quando chegou aos 30 anos, Guilherme já não aguentava mais. Havia completado 3 décadas de vida sem fumar, beber, brigar ou enganar qualquer pessoa, então por que justo ele tinha que carregar consigo aquela cara e ter aquela fama? O que mais poderia fazer para ganhar a confiança das pessoas sendo que já havia tentado ingressar nas artes marciais, trabalhado duro na farmácia do avô desde os 14 anos e participado até do grupo de jovens da igreja?

O tempo seguiu correndo e foi só em vias de completar 36 anos de idade que ele finalmente decidiu relaxar. “Chega de pensar nos outros!, dane-se todo mundo!, vão para a casa do chapéu!”. A partir do seu aniversário, não mais mudaria sua aparência, atividades ou desejos para impressionar ninguém, e para comemorar a libertação, comprou uma camiseta nova e foi caminhar até o trabalho, pelo mesmo caminho de todos os dias.

Qual não foi sua surpresa quando a primeira pessoa em seu trajeto, um senhor de idade, o interrompeu para desculpar-se pela desconfiança de toda uma vida. “Meu jovem, você nem me conhece, mas sei quem você é e fui injusto com você ao sempre atravessar a rua para evitar qualquer coisa, sabe como é”, sussurrou, com os olhos marejados.

Metros depois, outra pessoa interrompeu seu passo para colocar-lhe dinheiro no bolso da calça jeans, sem maiores explicações. Mais um pouco à frente e um antigo inimigo de escola passou dirigindo um luxuoso conversível e insistiu em oferecer-lhe carona, educadamente recusada. Porém, foi ao dobrar a esquina que Guilherme se deparou com a maior surpresa. Lá estava Luiz Roberto, pai da menina por quem era apaixonado desde as primeiras memórias, paralisado ao olhar para ele. Após segundos que pareceram anos, o senhor o abordou e pediu que fosse jantar em sua casa, sua filha estava lá e seria uma honra tê-lo com a família.

“Aí já é demais”, pensou. Seria uma pegadinha? Precisava saber o que estava acontecendo e tinha, no tão sonhado sogro, uma ótima chance de descobrir. “Obrigado pelo convite, senhor, mas antes preciso saber uma coisa. Por que está me convidando?”

“Ora”, começou Luiz, “que homem não deseja ter, como genro, um homem íntegro, leal, perseverante, que jamais vai desistir da mulher que ama, não importa o que aconteça? Um homem que, faça chuva ou sol, não se entrega, não esmorece, que estará junto dela para enfrentar todos os momentos? Na saúde e na doença, não é assim que dizem? Ainda mais quando o genro sabe perdoar, dá segundas chances e fala da esposa com amor mesmo quando ela não merece — principalmente quando ela não merece, pois é quando ela mais precisa. Um genro que não desistirá do trabalho, dos filhos e de nada! Para os momentos bons está cheio de gente disponível, mas para aguentar a tempestade, não há muitos marinheiros interessados!

Incrédulo diante da tão desejada aniquilação do estigma da malandragem, quis saber, também, a razão de o senhor tê-lo elevado em tamanha conta tão repentinamente.

“Sua camisa, garoto. Só mesmo alguém muito corajoso, verdadeiro e perseverante para estar feliz, numa manhã de segunda-feira e depois do jogo de ontem, vestindo uma camisa do São Paulo Futebol Clube. Podemos marcar o jantar para às 19h00 ou é cedo demais? Pode ser mais tarde, se você preferir.”


Enzo Pellegrino

Enzo Pellegrino

Enzo é advogado em Santa Cruz do Rio Pardo


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