Luiz Antonio Sampaio Gouveia

Sebastiana Cunha Bueno

Coluna de Luiz Antonio Sampaio Gouveia

Sebastiana Cunha Bueno

Publicado em: 26 de novembro de 2023 às 16:25
Atualizado em: 27 de novembro de 2023 às 20:34

Deu-me vontade a escrever sobre esta grandiosa mulher, importante exemplo para Santa Cruz e Ipaussu, mas certamente para muitos e particularmente para mim.

Titubeei porque imaginei como pudesse ser interpretado o que, no entanto, foi daqueles tropeços de alma, que não encontram explicação. Acho, contudo, que tenho este dever em falar dela.

Há pouco recebi de um neto dela, livro biográfico desta senhora, que reputo gigantesca e por ter vencido o seu tempo e vou contar algumas passagens dela, que merecem destaque.

Dona Sebastiana nasceu na Fazenda Pereiras, em Itatiba, parte da grande gleba que foi adquirida por Joaquim Alves Cardoso, no início do século XIX e que abrangia, entre outras, o que é hoje a Quinta da Baronesa e mais, a Fazenda Dona Carolina, a caminho de Bragança Paulista, dentre outras.

Joaquim Alves Cardoso fundou, em 1840, essa Fazenda Pereiras, um dos primeiros baluartes da cafeicultura no Oeste Paulista, já com máquinas de café, terreiros ladrilhados e colônias de imigrantes. Joaquim Alves Cardoso foi antepassado dela. Ambos descendiam – como meu pai -, do bandeirante Antonio Alvares Cardoso, que se casara com Mariana, filha de Amador Bueno da Ribeira, um paulista que não quisera ser rei do Brasil, em 1640. Também descendentes dos bandeirantes Anhanguera e de Fernão Dias Pais.

José Bueno de Aguiar, meu primo, que fora um genealogista de nossa família, contava que Sebastiana Cunha Bueno chamara-se Sebastianinha, por causa de minha trisavó, tia dela, Sebastiana Leite de Barros.

Palmilhando o Vale do Paranapanema, de seu ancestral Antonio Alvares Cardoso, ela, Eliseu Teixeira de Camargo, fundador da Fazenda Luiz Pinto e outros, todos cafeicultores, como meu pai, para cá foram atraídos pelo   pioneirismo deles.

Meus bisavôs tutelares, Eponina Macedo Soares Affonseca e seu marido Carlos, então proprietários da Fazenda Santa Cândida, em Santa Cruz e meus avós biológicos, Lizuca e Pedro Cesar Sampaio, médico, por aqui, mesmo minha mãe, que morou com ela, na sede da Fazenda Bela Vista, em Ipaussu, quando, no início da vida, foi professora lá, deixaram muito por herança, a admiração por esta grande senhora.

 

 

Dona Sebastiana formada em farmácia, veio para Santa Cruz, inicialmente, onde aqui moravam meus referidos bisavôs tutelares, a trabalhar na farmácia de um cunhado dela, que se casara com sua irmã, em primeiras núpcias, Agenor Camargo. Estabelecimento farmacêutico, que ficava em Santa Cruz, onde hoje é a Praça Leônidas Camarinha. Para onde depois vieram meus avós biológicos. Meu avô, médico de quem Camargo era o farmacêutico. Todos, inclusive, o Coronel Henrique Cunha Bueno, moradores de Santa Cruz, que faziam daquela farmácia o ponto de encontro e convivência deles.

Líder e bonita de forte personalidade, Sebastiana ganhou a admiração do Coronel Cunha Bueno. Vovó Eponina, então, foi o cupido que os uniu. Ambos, Sebastiana e Cunha Bueno viveram a bonança do café depois da geada de 18. Foram morar na Europa. A crise de 29, trouxe-os de volta.

Poucos sabem o que foi a crise de 29, para os cafeicultores paulistas. Muitos ficaram a zero. Meus avós paternos, então, proprietários, com suas famílias, das Fazendas Tapera Grande e São José, em Itatiba, ficaram a zero, vendendo-as para pagar dívidas. Recomeçaram, contudo, a vida e com o caráter e brilho deles e de seus filhos

Neste contexto, contam-me, Cunha Bueno deprimiu-se. Sebastiana tomou pulso. Venceu! Tomou a administração das fazendas em mãos. Que não eram pequenas para um homem administrar. Imaginem para uma mulher, nos anos 20 ou 30, do século passado, fazê-lo solitariamente como ela fez! De início, cozinhava para os colonos, já que não havia quem o fizesse por ela, para tocar o negócio. Com empenho, dinamizou-se afazendando-se nas botas e no traje, sem nunca perder a beleza e a femininalidade. Fez fortuna e expressivo património imobiliário em São Paulo. Comprou com o fruto de seu trabalho a hoje fazenda Jamaica, antes Santa Cecília, em Santa Cruz, para seu filho, aquinhoando igualmente suas duas outras filhas.

Muito de minha infância convivi com ela, seja na casa de meus avós, que ela visitava regularmente, em Santa Cruz ou em São Paulo, em casa de meus bisavôs tutelares sempre ou na casa de meus tios, em Ipaussu, em que meu tio, marido de irmã de minha mãe, fora médico em suas fazendas.

Ela me provocava prazerosamente, dizendo me raça ruim. O que muito me incomodava. Fugia dela, escondia-me quando a via, atrás de cortinas e em baixo de mesas. Mas eu não escapava, raça ruim!

Mais tarde, soube porque raça ruim. Aquilo era um elogio. Ela me explicou contando a saga de brio de nossa gente. Em que compreendi mesmo o texto do testamento de um familiar ancestral. A meus filhos, não deixo capitais ou apólices, para que vivam de juros ou imóveis para viver de aluguéis. Deixo princípios e terras para plantarem café e viverem do suor de seu rosto. Isto, em muito, a história de Sebastiana Cunha Bueno.


Luiz Antonio Sampaio Gouveia

Luiz Antonio Sampaio Gouveia

Santa-cruzense, Sampaio Gouveia é advogado graduado pelas Arcadas e especialista em Finanças e Contabilidade (pela EAESP/FGV) e em Direito Penal Econômico (pela GVLAW/FGV), mestre em Direito Público (Constitucional) pela PUC-SP, Conselheiro e Orador oficial do IASP, membro do Consea/Conjur/Fiesp, procurador-jurídico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, entidade em que é irmão Mesário e remido, conselheiro da Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, mantenedora da Faculdade de Medicina da Faculdade de Misericórdia de São Paulo. É membro do Instituto Brasileiro de Recuperação de Empresas em Crise. Foi conselheiro-seccional da OAB-SP e da ASP. CEO Sampaio Gouveia Associados


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