Publicado em: 03 de setembro de 2022 às 04:51
A primeira vez que Veneza despertou meu interesse, ainda era adolescente. Fui levado por meu padrinho a uma festa de batizado do novo neto da família mais rica de toda a região. Embora tenha sido em uma fazenda, foi um requintado banquete. Na minha frente sentaram-se dois distintos senhores, descendentes de italianos, um já falecido e o outro octogenário, e começaram a falar sobre as viagens que já haviam feito para Veneza e cada um superando o outro em detalhes. Era como estar vendo um filme quando falavam da Basílica e da Praça de São Marcos. Pensei despretensiosamente: “um dia vou conhecer Veneza”. Cuidado com o que você deseja, pois a vida pode lhe proporcionar...
Passados quarenta anos, sou acordado com o som estridente de uma campainha telefônica. Abro os olhos e demoro para entender onde estou. Levo o telefone ao ouvido e escuto uma jovem dizer: “Il signor Beto vuole parlare”. Na sequência escuto a voz do Beto, nitidamente bravo: “Cara, você nem tomou café, o trem sai em meia hora. Já chamei o taxi”. E desligou sem ouvir o meu: “tô descendo”.
Estávamos em Milão. Havíamos chegado na noite anterior, cansado depois de um longo voo, enganei-me ao programar o despertador do celular. Foi o tempo de trocar de roupa, escovar os dentes e pegar duas pequenas malas que, felizmente, havíamos deixado arrumadas. Em dez minutos eu e a esposa estávamos entrando no táxi com pedidos de mil desculpas. Beto estava com a testa franzida e Rosinha, conciliadora: “Vai dar tudo certo”. Providencialmente o hotel ficava a dois quilômetros da “Stazione di Milano Centrale”. Chegamos em dez minutos e levamos mais dez para vencer as diversas escadas e achar a nossa plataforma. Ofegantes entramos no nosso “Trenitalia Frecciarossa”, que partiu imediatamente e, em pouco mais de duas horas, percorreu os duzentos e cinquenta quilômetros.
O grande impacto ao chegar em Veneza foi que, na saída da estação ferroviária, não tem rua, mas água. Assim, pegamos o primeiro “vaporetto”, barco que equivale ao nosso ônibus circular, e chegamos ao destino. Desembarcamos próximo à Basílica de São Marcos, passamos pela monumental praça, que estava muito animada, com dezenas de lojas e restaurantes com mesas externas e música ao vivo. Aqui, um piano; ali, um conjunto de corda e, acolá, uma cantora de ópera. Lembrei do batizado de outrora. Finda a praça, entramos em uma sequência de estreitos corredores, que demorei a perceber que se tratavam de ruas centenárias. Enfim, chegamos ao hotel e deixamos as malas.
Agora, mais tranquilos, retornamos em direção à praça e, visando reparar o transtorno matinal, disse: “Em razão do nosso atraso, o almoço será por nossa conta.” “Não paga um drink especial também?” Emendou Rosinha. Levantei os dois polegares, com a indicação de positivo. Beto e Rosinha já conheciam Veneza e retornaram especialmente para nos acompanhar.
Eu não entendi bem aonde estávamos indo. Não havia letreiro na fachada e a entrada era uma porta muito discreta, que Beto abriu. Ao entrar, nos deparamos com um hotel lindíssimo. Antes que alguém nos atendesse, minha esposa, surpresa, acertou em cheio: “Mas este é o Hotel Villa F, que serviu de cenário para o filme ‘O Turista’, com Angelina Jolie e Johnny Depp.” Beto havia feito reserva de uma mesa e fomos encaminhados para o lindíssimo Salão dos Espelhos. Sentamos e, rapidamente, trouxeram taças de espumante, uma jarra com suco de pêssego gelado e uma garrafa de Prosecco produzido na região de Valdobbiadene. Eufórico, exclamei: “Bellini!” É um drink delicioso para os dias de calor: uma parte de suco e três de Prosecco. Eu sabia a história. Foi criado no “Harry’s Bar”, um dos mais tradicionais de Veneza. Seu nome foi dado em homenagem ao pintor renascentista Giovanni Bellini. Pelas janelas víamos o canal principal e as várias gôndolas atracadas. O reflexo do sol na água, projetado nos barcos, criou um tom dourado que ficamos admirando por longo tempo, até que o espumante acabou. Não lembro o que conversamos, mas foi uma experiência gratificante e inesquecível.
Sou grato ao Beto e à Rosinha pela visita à Veneza. Sempre que me recordo, agradeço ao casal e, toda vez Beto responde: “Nas contas do caderninho da nossa amizade, eu sou devedor.”
Por Mauricio Azevedo Ferreira, Promotor de Justiça aposentado que transformou uma paixão em atividade, dedicando-se ao ensino sobre vinhos. É responsável pelo conteúdo da página no Facebook, do perfil no Instagram e do canal do YouTube Apaixonado por Vinhos, além de ministrar cursos. É certificado pela WSET — Wine & Spirit Education Trust, nível 3, e FWS — French Wine Schollar.
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