Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Defeitos do vinho

Vamos entender como o TCA chega na rolha

Defeitos do vinho

Publicado em: 11 de março de 2022 às 19:36
Atualizado em: 12 de março de 2022 às 05:56

Nem tudo são flores no mundo de quem aprecia vinhos. O pior cenário possível ocorre ao se deparar com um vinho com defeito. Sim! O vinho, esta bebida maravilhosa, pode apresentar defeito e existem vários.  

Certa vez, recebendo amigos em casa, abri uma garrafa e à medida que servia os convidados à mesa, percebi que, ao levarem a taça ao nariz, faziam cara feia. Um disse, educadamente: “Acho que este vinho não está bom.” E recebeu o aceno confirmatório com a cabeça dos demais. Beto, o mais desinibido, soltou: “Nossa! Que cheiro é esse? É horrível!”.  “Nossa, você, Beto! Não precisa falar assim.” Ralhou Rosinha. Beto tentou consertar, mas a emenda ficou pior que o soneto: “Mas se o vinho for assim mesmo, fedido, e todo mundo provar, eu também provo”.

Estendi a palma das mãos em direção ao Beto, sinalizando que não era preciso provar, pois eu sabia que o vinho servido não tem cheiro horrível e se era este que exalava da taça, havia algo errado.  Girei a minha taça e, mal a aproximei do nariz, já confirmei o cheiro desagradável e sentenciei: “Este vinho está com defeito. Não se preocupem, vou abrir outra garrafa muito melhor que esta. Mas, antes de trocarmos as taças, eu quero saber que cheiro é esse. Vou falar três odores e vocês vão tentar identificar qual é. Seria poeira-pó, mofo ou papelão molhado?” A maioria identificou como sendo papelão molhado. Cheirei a rolha e nela havia o mesmo odor. Aplaudi os amigos: “Exatamente, trata-se de cheiro de papelão molhado.” 

Antes que me questionassem, expliquei que este é um defeito considerado comum, pois estudos estimam que pode atingir até 4% dos vinhos do mundo e possui o nome popular de “defeito da rolha” ou “cheiro de rolha”, Bouchonée em francês e Corked em inglês. Lembrando que bouchon e cork significam rolha, nos referidos idiomas.  Não se trata de rolha estragada. Mas de rolha contaminada com a substância denominada Tricloroanisol, ou, de forma abreviada, TCA. Os aromas de fruta e madeira, próprios do vinho, ficam encobertos pelo cheiro de pó-poeira, nos casos de uma leve contaminação; odor de mofo, quando a contaminação for de média intensidade e, em níveis mais altos, surge o papelão molhado, como no nosso vinho. É importante perceber que usamos a designação de “aromas” para todas as percepções olfativas agradáveis do vinho e “cheiro” e “odor” para as desagradáveis. 

O tal TCA geralmente não é encontrado na natureza. Ele surge através de fungos e bactérias. Estes microrganismos possuem um mecanismo de defesa e para se protegerem de uma substância que lhes é nociva, como o cloro, a transformam em TCA. Vamos entender como o TCA chega na rolha.  Esta vem da cortiça, que é extraída da casca de uma árvore chamada sobreiro. Fungos e bactérias têm atração por madeira e dela se alimentam. Por muitos anos os sobreiros receberam inseticidas, fungicidas e até produtos para evitar que pegassem fogo, à base de cloro. Estes produtos se acumularam no solo. Assim, os fungos e bactérias diante destas substâncias que lhe eram nocivas, as transformaram em TCA. Quando o fungo se instala na casca da árvore, acaba por contaminá-la com TCA. Por isso, atualmente, mudaram a fórmula destes produtos de maneira que estes microrganismos não encontram substâncias nocivas para metabolizar o TCA. Mas, como disse, muitos produtos ainda continuam no solo.

“Como não tem rolha, este defeito não aparece em vinho fechado com tampa de rosca”, concluiu Beto, açodadamente. 

Detalhei que, infelizmente, isso não é verdade.  Uma vinícola pode sofrer uma contaminação sistêmica por TCA em suas barricas ou até mesmo em conectores de mangueiras que transportam o vinho de um tanque para outro, antes mesmo do engarrafamento. Neste caso, o Bouchonée vai atingir até o vinho fechado com tampa de rosca.

Substituídas as taças, agora com um bom vinho, Beto levantou a sua e bradou: “Deus nos livre do TCA”.


Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Por Mauricio Azevedo Ferreira, Promotor de Justiça aposentado que transformou uma paixão em atividade, dedicando-se ao ensino sobre vinhos. É responsável pelo conteúdo da página no Facebook, do perfil no Instagram e do canal do YouTube Apaixonado por Vinhos, além de ministrar cursos. É certificado pela WSET — Wine & Spirit Education Trust, nível 3, e FWS — French Wine Schollar.


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