Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

“Digam ao povo que fico”

Coluna de Mauricio Azevedo Ferreira

“Digam ao povo que fico”

Publicado em: 07 de janeiro de 2022 às 14:21
Atualizado em: 08 de janeiro de 2022 às 04:32

Merece um estudo a forma como a criança enxerga o mundo. Na minha ingenuidade, uma torre chamava a minha atenção. A Torre de Belém, cuja foto havia visto na enciclopédia “Tesouro da Juventude”. Quando o padre falava que o Menino Jesus não nasceu em um palácio, eu me perguntava: “Por que será que ele não nasceu na Torre de Belém.” Mal sabia que ela não ficava em Judá-Israel.

Era julho, estávamos hospedados no Cais de Sodré, no início da rua Alecrim, de fronte para o Rio Tejo, em um pequeno e aconchegante hotel boutique. Era o nosso primeiro dia em Lisboa e estávamos ansiosos, eu mais ainda, para conhecer a Torre cartão postal que recebeu o nome da região onde está situada: Belém.

Estávamos próximos. Tomamos um autocarro (ônibus) e chegamos em poucos minutos. Logo que desembarcamos, não consegui disfarçar. Meu semblante mudou e foi percebido pelos demais. Coloquei um sorriso no rosto, mas não convenci os amigos, muito menos a esposa. Fiquei intrigado com o tamanho da torre. Era menor e não correspondia ao imaginário de uma criança. Mas descobri que nunca foi palácio, mas uma fortificação construída para proteger Lisboa de ataques de invasores e, tempos depois, transformou-se em prisão.

Após a visita, retornamos caminhando até o monumento das grandes navegações, chamado “Padrão dos Descobrimentos”, marco de onde saíram as caravelas. Aqui também tiramos muitas fotos. Cruzamos a imensidão do gramado da Praça do Império e chegamos ao Mosteiro dos Jerónimos. É magnífica a vista exterior, com sua fachada de trezentos metros de extensão. A construção iniciou em 1502, por decisão do Rei D. Manuel I, para acolher os monges de São Jerónimo, uma ordem religiosa católica de clausura, fundada no século XIV.

Com ingressos previamente adquiridos, entramos sem demora. O interior é deslumbrante, no estilo gótico tardio, com riqueza de detalhes, e um toque renascentista.  Um capítulo à parte são os túmulos, no interior da igreja, de ilustres personagens de Portugal: o próprio Rei D. Manuel I, Vasco da Gama, Luís de Camões e Fernando Pessoa.  Um quadro chamou a atenção do Beto, que exclamou: “Este aqui se parece com D. Pedro I, olha a costeleta e o bigode. Onde está o tumulo dele? Mas está escrito D. Pedro IV.”

Rosinha respirou fundo, abriu um sorriso e disse ao marido: “Beto, querido, você faltou nessa aula. Eu explico: no dia 9 de janeiro de 1822, ante a pressão da corte portuguesa, D. Pedro I decidiu ficar no Brasil, foi quando ele teria dito: ‘Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico’. Em razão da morte de seu pai, Dom João VI, em 1826, ele foi declarado Rei de Portugal, como D. Pedro IV. Mas, as pressões aumentaram e D. Pedro I abdicou do trono brasileiro em favor do filho, D. Pedro II, e partiu para Portugal em 1831, onde, após seu falecimento em 1834, foi enterrado. Somente em 1972 seus restos mortais foram trasladados para o Parque da Independência, em São Paulo.” 

Depois da aula de história, caminhamos menos de trezentos metros e chegamos à ‘Casa do Pastel de Belém”, fundada em 1837. Importante destacar que esta iguaria da doçaria conventual portuguesa se chama pastel de nata, mas ganhou fama mundial aquele produzido nesta confeitaria que fica no Bairro de Belém. Somente este pode ser chamado de “Pastel de Belém”.

Para acompanhar escolhemos um belo vinho português de cor dourada: Moscatel de Setúbal, safra 2012, produzido pela renomada José Maria da Fonseca. Apesar do nome, não se se trata de espumante, como o Moscatel brasileiro. Mas de um vinho licoroso doce, fortificado, produzido na Península de Setúbal, com a uva que empresta o nome ao vinho. Apresenta deliciosas notas que remetem à casca de laranja, florais, cítricos, mel de laranjeira, uva-passa, tâmara e à delicada madeira. Entrega uma gostosa acidez e tem um final longo. Enfim, harmonização perfeita para o nosso doce.  

Estes dias Beto ligou e disse: “Estou com saudades de Portugal e de seus vinhos.  Quando voltamos? ”

 


Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Por Mauricio Azevedo Ferreira, Promotor de Justiça aposentado que transformou uma paixão em atividade, dedicando-se ao ensino sobre vinhos. É responsável pelo conteúdo da página no Facebook, do perfil no Instagram e do canal do YouTube Apaixonado por Vinhos, além de ministrar cursos. É certificado pela WSET — Wine & Spirit Education Trust, nível 3, e FWS — French Wine Schollar.


PUBLICIDADE

SANTA CRUZ DO RIO PARDO

Previsão do tempo para: Segunda

Períodos nublados
24ºC máx
13ºC min

Durante todo o dia Céu limpo

COMPRA

R$ 5,21

VENDA

R$ 5,21

MÁXIMO

R$ 5,28

MÍNIMO

R$ 5,20

COMPRA

R$ 5,08

VENDA

R$ 5,39

MÁXIMO

R$ 5,29

MÍNIMO

R$ 5,23

COMPRA

R$ 5,52

VENDA

R$ 5,52

MÁXIMO

R$ 5,57

MÍNIMO

R$ 5,51

PUBLICIDADE

voltar ao topo

Voltar ao topo