Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Vinho sem preconceitos

Coluna de Mauricio Azevedo Ferreira

Vinho sem preconceitos

Publicado em: 05 de fevereiro de 2022 às 05:18

Pior que o desconhecimento é o conhecimento parcial de algo, pois pode produzir conclusões equivocadas e, ainda mais grave, acompanhadas da certeza de se estar certo. Isto tem sido uma característica dos dias atuais. Basta observar. A informação está à nossa disposição, a apenas um clique, e muitos se consideram especialistas depois de ter lido meia dúzia de linhas, ou assistido a um vídeo de dois minutos. 

O mundo do vinho não está isento desta situação. Ainda mais neste período de pandemia em que o consumo de vinho no Brasil viu um acréscimo de quase 30%, como já mencionei em semana anterior.  O incremento se deu mais em função do aumento de consumidores do que devido ao aumento do consumo individual. Um dos motivos é que, quando ocorreu a restrição de abertura de estabelecimentos comerciais, já existia uma sólida estrutura de venda on-line de vinhos.  Ademais, não há ex-bebedor de vinho e muito menos ex-comprador on-line.  Esta alta de consumidores amplificou várias discussões sobre esta prazerosa bebida, uma delas é sobre o seu teor alcóolico.

Alguns chegam a empregar o termo técnico: “Eu só bebo vinho com ABV baixo.” Outros contestam: “Vinho de qualidade tem ABV alto.” ABV é a sigla para “Alcohol by Volume”, “Álcool por Volume” em inglês. É definido como o volume em ml de etanol puro em 100 ml de uma solução a 20°C. Resumindo, indica o percentual de álcool do vinho. Tecnicamente, vinho com menos de 11% de ABV é considerado com álcool baixo e, acima de 14%, alto. Todavia, muitos apreciadores rotularam que até 12,5% de ABV seria álcool baixo.

O cerne da contenda é: Existe relação entre a qualidade do vinho e o seu teor alcóolico?

Para responder a esta pergunta é necessário entender que a fermentação é o processo através do qual as leveduras transformam o açúcar do suco da uva (mosto) em álcool. Cada 17 gramas de açúcar por litro de suco geram um 1% de álcool. Assim, não é difícil concluir que quanto mais madura a uva, mais elevada será a sua concentração de açúcar e, por conseguinte, maior será o potencial alcoólico do vinho. Sim, potencial, pois nem todo o açúcar é transformado em álcool e este açúcar que sobra, chamado residual, pode produzir vinhos desde quase secos até muito doces. Ainda, não se pode esquecer que a maturação depende do clima.

A Alemanha produz um vinho branco doce fantástico, geralmente com a uva Riesling botritizada, isto é, que sofreu a famosa podridão nobre, já referida em outra oportunidade. Tal estilo de vinho é chamado Trockenbeerenauslese. As uvas têm tanto açúcar que as leveduras morrem antes de transformá-lo todo em álcool. Assim, o vinho fica com ABV baixo, entre 8,5% a 11%. É uma infelicidade quem deixa de provar este néctar dos deuses sob o argumento de que somente bebe vinhos com alto teor alcóolico.

No dia dos namorados comentamos sobre o Amarone della Valpolicella, o vinho da terra de Romeu e Julieta. As uvas maduras são colhidas e deixadas para secar, quase viram passas. Perdem muito líquido, em torno de 30%. Ocorre a concentração de açúcar, aromas e sabores. Este vinho supera, facilmente, 14% de ABV, assim como o Châteauneuf-du-Pape. Ambos são encorpados, suculentos e macios. É triste alguém se privar destes vinhos somente pelo discurso de ter um alto ABV. Tal apreciador jamais terá a satisfação de provar um vinho fortificado, Porto, Jerez, etc., com ABV variando entre 15,5% a 22%.

Em suma, não há relação entre o teor alcoólico e a qualidade do vinho. Há maravilhosos e medíocres tanto com ABV alto, como baixo. O que importa é que o vinho seja equilibrado, com acidez, tanino (no caso dos tintos) e álcool em harmonia, sem que qualquer um destes elementos se sobressaia. O equilíbrio do álcool é constatado quando, ao se engolir o vinho, não se percebe um calor desagradável na garganta e no peito.

Escolher e degustar sem preconceitos é fundamental para se viver novas e agradáveis experiências no mundo do vinho.


Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Maurício Ferreira: apaixonado por vinhos

Por Mauricio Azevedo Ferreira, Promotor de Justiça aposentado que transformou uma paixão em atividade, dedicando-se ao ensino sobre vinhos. É responsável pelo conteúdo da página no Facebook, do perfil no Instagram e do canal do YouTube Apaixonado por Vinhos, além de ministrar cursos. É certificado pela WSET — Wine & Spirit Education Trust, nível 3, e FWS — French Wine Schollar.


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