Pascoalino S. Azords

La Luna

Coluna de Pascoalino S. Azords

La Luna

Publicado em: 08 de outubro de 2022 às 08:31

Dona Maria não lê jornal. Em compensação, tem um faro mais apurado do que o meu! E só agora, depois dessa indiscrição desnecessária, dou-me conta de que não sei até que ponto seria uma vantagem ou desvantagem o exercício pleno dos seis sentidos que nos foram dados pela divina providência. Não ter cobiça e nem enxergar bem, por exemplo, além de mais poético, às vezes é muito mais prudente. Se fazer de surdo ou se calar como um macaco, apenas para não receber ordens, pode ser uma sábia estratégia. Gente sabida é o que não falta nesse mundo.

Mas voltando à dona Maria, que não compactua e muito menos desconfia dessas minhas especulações. Dia desses, dona Maria me ensinou que o olfato muito desenvolvido pode ser prejudicial – como o tato, coisa que eu já tinha desconfiado. Foi na segunda-feira que ela cismou com o cheiro da urina da Luna. Para mim, foi uma surpresa. Até então eu achava que um coelho não urina, assim como não late.

Luna chegou aqui em casa no inverno passado. Era um filhotinho, que é a melhor forma de se chegar à casa de quem ainda não carece de um bicho de estimação. Pequenininha e vestida de branco, nem tinha rabo para enfiar entre as pernas. Também não tinha nome. Fui eu que a batizei de Luna, em homenagem a um filme incestuoso do Bertolucci que vi uma única vez, 40 anos atrás.

E em poucas semanas aprendi que ter um coelho em casa é como ter um peixe ornamental, ou dezenas de peixes num aquário. Com a vantagem de não precisar lavar o aquário e nem levar o bichinho para obrar na calçada do vizinho. Coelho come de tudo: da sola do seu tênis à tiririca que insiste em crescer no quintal. Não late, não mia... Só cresce – um pouco. Mas se crescer muito pode virar um belo prato.

Eu já comi muito coelho na vida – assado é melhor que cozido, como preferem os alemães. Já comi muita coisa nessa vida, até escargot, e outras coisas difíceis de escrever aqui num jornal familiar. Mas ainda não me imagino mastigando alguém que não tira o vestido de noiva e corre pelo quintal como se fosse a brisa da manhã. Que se apoia nas patas traseiras para lavar a cara com as duas mãozinhas. Que por nada dispara como um buscapé e se deita, com as patas traseiras esticadas para trás, pestanejando como uma tia encalhada, mas com aquela postura que as grandes mulheres copiaram dos coelhos para se bronzear na praia.

Eu nunca tinha visto tanta elegância num animal em pelo, mas, como disse dona Maria, esse coelho também urina! Eu ainda não senti o cheiro, mas pode ser. Se um dia eu fizer uma lista das coisas evidentes que não vi a um palmo do meu nariz, não posso deixar de constar o gato que ri e a nossa Luna urinando.

 

* Publicada em 09/12/2018


Pascoalino S. Azords

Pascoalino S. Azords

Cronista, mantém coluna no DEBATE desde 1977


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