CULTURA

A longa noite de 1981: protesto depredou Sabesp e prédios em Santa Cruz

Há 40 anos, o maior protesto popular atacou até casa do então prefeito Aniceto Gonçalves

A longa noite de 1981: protesto depredou Sabesp e prédios em Santa Cruz

Sessão da Câmara posterior às depredações em Santa Cruz, quando o recinto ficou tomado por policiais

Publicado em: 15 de maio de 2021 às 02:01
Atualizado em: 15 de maio de 2021 às 03:19

Sérgio Fleury Moraes

Era o dia de 5 de março de 1981, uma quinta-feira com clima ameno. Nas ruas, as pessoas comentavam sobre os jogos que seriam transmitidos ao vivo pela televisão, às 21h. Um deles, pela TV Record, era o confronto entre o São Paulo dos craques Valdir Peres, Serginho e Zé Sérgio e o Cosmos de Nova Iorque, que ainda tinha estrelas do futebol mundial. Na Globo, a transmissão envolvia o amistoso entre as seleções paulista e carioca, direto do Maracanã, com pelo menos dez atletas titulares do Brasil em campo.

No entanto, nos bairros periféricos as conversas também tinham um tema mais áspero e importante: as elevadas tarifas de água e esgoto cobradas pela Sabesp. Havia meses que o assunto revoltava famílias de baixa renda, pois em alguns casos o valor da tarifa alcançava um salário mínimo, exatamente a renda do contribuinte.

A estatal paulista, por sua vez, demonstrava uma incrível falta de sensibilidade e cortava sem dó o abastecimento de água de famílias inadimplentes. O governador do Estado era Paulo Maluf, nomeado pelos militares — na época, a ditadura ainda não permitia o voto para governadores, prefeitos de capitais e presidente. Sem saber a quem recorrer, os moradores passaram a denunciar o problema ao DEBATE e a vereadores da oposição.

O impasse aconteceu porque, dois anos antes, o então prefeito Aniceto Gonçalves resolveu entregar os serviços de água e esgoto da cidade para a estatal paulista. Hoje, sabe-se que foi uma decisão acertada, pois a DAE (Departamento de Água e Esgoto municipal) não tinha recursos para investimentos e havia muita proteção política de acordo com a conveniência do grupo que estava no poder.

A antiga sede da Sabesp em Santa Cruz do Rio Pardo

A Sabesp começou a operar oficialmente em 1980, mas aumentou consideravelmente a tarifa de água. Além disso, acrescentava 100% ao valor a título de cobrança pelo escoamento do esgoto. A cidade se revoltou.

Um abaixo-assinado com mais de 3.000 assinaturas foi encaminhado ao juiz de Direito de Santa Cruz que, por sua vez, encaminhou o documento aos vereadores “para as providências”.

Enfim, naquele 5 de março de 1981 vários moradores da periferia compareceram à sessão da Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo, ainda no velho prédio da praça Leônidas Camarinha. A maioria eram pessoas pobres, alguns “boias frias” e várias donas de casa. Quase todos tinham em mãos o boleto da tarifa da Sabesp e exibiam os valores abusivos para os vereadores.

Antes da sessão, vários vereadores de oposição — como Jorge Araújo, Israel Benedito de Oliveira e Waldomiro Martins, todos do antigo MDB — recepcionaram os populares e anunciaram que fariam discursos denunciando a injustiça na parte final da sessão, na chamada “explicação pessoal”.

O DEBATE não tirou uma única fotografia da sessão por um motivo: o jornal estava proibido de fotografar ou gravar as sessões desde 1978, numa decisão proferida inicialmente do ex-presidente José Eduardo Catalano que foi seguida por todos os demais até 1982, quando a liberdade de imprensa passou a ser respeitada pela Câmara.

Naquela época, uma sessão legislativa só “esquentava” durante a votação de projetos polêmicos ou no final, durante o momento da “explicação pessoal” — ou “palavra vaga”, quando os vereadores podiam discursar sobre qualquer assunto. O problema é que a ata da sessão anterior era lida inteiramente no início da reunião, o que custava praticamente 30 ou 40 minutos do tempo.

Foto no recinto da Câmara 15 dias após o quebra-quebra

Sem projetos importantes para discutir, o assunto dos governistas na cozinha, no cafezinho antes da sessão, eram os jogos de logo mais na televisão. Jamais algum vereador do grupo admitiu, mas houve uma combinação entre integrantes da bancada da base governista para encerrar a sessão imediatamente após a discussão de projetos. Assim, não haveria a “explicação pessoal” e todos poderiam assistir seus jogos preferidos no conforto de seus lares.

Apertado entre a plateia que lotou as dependências da Câmara, estava o ex-vereador Antônio Francisco Zanette, o “Batatão”, conhecido pela defesa da população mais carente e pelo jeito característico de protestar, sempre com coragem e destemor.

Foi neste clima que a sessão transcorreu de forma morna, até que a “explicação pessoal” chegou. No entanto, surpreendentemente, o presidente Antônio Lino Sartori anunciou que a reunião estava encerrada. Dias depois, ele contou que estava preocupado com eventual tumulto ante a presença expressiva de moradores e do ex-vereador “Batatão”.

O efeito, porém, foi devastador. Os vereadores da oposição passaram a protestar, enquanto na plateia “Batatão” se levantou e, apontando os governistas que já deixavam suas cadeiras, disse: “Está vendo, povo? Estes são aqueles que dizem defender vocês!”

A gritaria logo se transformou em depredação. Os governistas correram para a cozinha, enquanto populares derrubavam mesas e cadeiras, quebravam vidraças e até arrancavam quadros das paredes. Os vereadores da base aliada conseguiram fugir pelos fundos, debaixo de uma chuva de pedras e tijolos.

O barulho foi o suficiente para atrair mais gente que estava nos arredores. Em minutos, era um grupo calculado em 500 pessoas. “Agora é a Sabesp!”, gritou uma delas. A multidão, então, se dirigiu ao escritório da Sabesp, que ficava perto do atual Banco do Brasil, na rua Benjamim Constant. A porta foi quebrada e a sede da estatal foi invadida, com a destruição total de vidraças, móveis e materiais do escritório.

De repente, a turba correu em direção ao prédio da prefeitura, na praça Leônidas Camarinha. Mesmo vazio, o prédio teve sua porta frontal destruída, além de praticamente todas as vidraças.

Descontrolada, a multidão correu em direção à casa do então prefeito Aniceto Gonçalves, na esquina da Câmara Municipal, na mesma praça. A família dele viu-se acuada enquanto uma chuva de tijolos e pedras quebrava as janelas da sala. Aniceto, segundo ele mesmo contou à imprensa no dia seguinte, pegou um revólver e ficou atrás de uma porta, aguardando, embora trêmulo, o primeiro invasor da casa. Enquanto isso, suas filhas pediam ajuda à polícia por telefone.

Escritório da Sabesp completamente destruído depois do protesto 

Só havia cinco policiais disponíveis no contingente da Polícia Militar de Santa Cruz. Eles formaram um cerco em frente à casa do prefeito para impedir uma invasão. Mesmo assim, a multidão permaneceu no local, alguns gritando palavras de protesto, até meia-noite. Foi quando chegaram os reforços militares de Bauru e Marília. Pelo menos cinco pessoas foram detidas e passaram a noite na delegacia de polícia — dois homens e três mulheres.

No dia seguinte, tropas militares marchavam pelas ruas de Santa Cruz do Rio Pardo. Ninguém comentava mais os resultados de São Paulo 3 x Cosmos 1 ou o empate por 3x3 entre as seleções carioca e paulista na noite anterior. Em todas as esquinas, o assunto eram os acontecimentos na Câmara, que culminaram com uma série de depredações na cidade.

Os políticos governistas logo acusaram a oposição de “subversão” contra a ordem pública e pediram à polícia o indiciamento dos cinco suspeitos e mais os vereadores Jorge Araújo e Israel Benedito de Oliveira, além do ex-vereador Antônio Francisco Zanette, na famigerada Lei de Segurança Nacional. Ao informar o delegado seccional sobre o tumulto, um telex do único delegado de Santa Cruz, Nilton Henrique Pecciolli, diz que os três políticos eram “conhecidos” por manifestações contra a ordem pública.

À direita, o então vereador Pedro Renófio; à esquerda, discursando, Antônio Zanette, o “Batatão” 

O prefeito Aniceto Gonçalves vai à rádio Difusora e acusa “baderneiros” da cidade pelas depredações, além de afirmar que as contas altas de água eram provavelmente frutos de vazamentos nas residências. No mesmo dia, o supervisor da Sabesp da região de Registro, Massato Cerada, disse que o tumulto fora provocado por “um punhado de vândalos” e também insistiu na hipótese de vazamentos para o valor das contas.

Na imprensa de São Paulo, o então presidente da Sabesp, Osmar Souza Teles, disse que não havia razão para a população se revoltar contra o preço das tarifas. Ele negou a existência de contas altíssimas, contrariando reportagens do DEBATE que mostravam exatamente o contrário. “Baderneira é a Sabesp”, retrucou na imprensa o vereador Israel Benedito de Oliveira.

As declarações das autoridades foram mal recebidas pela população. Em horas, circulou boatos de que a sede da Sabesp seria incendiada, o que fez o prefeito Aniceto solicitar mais reforços policiais à região. Até viaturas da Rota foram vistas rodando pelas ruas.

À noite, o apresentador Cid Moreira, da Rede Globo, abre o “Jornal Nacional” com a manchete: “Tumulto e quebra-quebra em Santa Cruz do Rio Pardo”. O caso mereceu chamada de capa na “Folha de S. Paulo” e foi notícia em vários jornais, revistas e emissoras de rádio e TV. O jornal “Movimento”, de resistência à ditadura militar, publicou a capa do DEBATE, com a manchete que avaliou os acontecimentos: “O povo desabafou!”

Mais alguns dias e chegaram à cidade nomes de expressão na luta pelos direitos democráticos, como José Carlos Dias — presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e mais tarde ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso —, o advogado Luiz Antônio Guimarães Marrey — depois procurador-geral de Justiça durante vários mandatos — e outros. Gratuitamente, como faziam na época com presos políticos ou perseguidos pela ditadura militar, eles resolveram defender os acusados pela Lei de Segurança Nacional.

Porta de entrada do antigo prédio da Câmara mostra destruição da noite em que a população se revoltou contra a Sabesp

Quinze dias depois, a próxima sessão da Câmara teve forte aparato policial. Soldados cercaram todo o prédio e ainda fizeram um cordão que “abraçou” todo o recinto onde ficava o plenário e a plateia no prédio antigo da praça Leônidas Camarinha. Mesmo assim, quase 2.000 pessoas se aglomeraram no interior do prédio e nos arredores da Câmara para acompanharem a sessão. Muitos não se importaram com a presença da polícia e fizeram manifestações no interior do prédio, batendo os pés e exigindo providências dos vereadores.

Aquela fatídica noite de 1981 teve uma série de descobramentos. A batalha no Judiciário durou vários anos e os advogados conseguiram livrar os acusados de serem enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Apenas o ex-vereador Antônio Francisco Zanette foi condenado, mas recebeu uma pena leve. Mais do que a punição, “Batatão” retomou seu papel de líder político em Santa Cruz do Rio Pardo, voltando à Câmara Municipal como um dos mais votados pelo PMDB nas eleições de 1982.

Aliás, o PMDB venceu as eleições para prefeito, embora com um nome — Onofre Rosa de Oliveira — que havia saído das hostes da Arena, antigo partido da ditadura militar. O partido também fez uma esmagadora maioria na Câmara.

O vereador Antônio Lino Sartori presidiu sua última sessão 15 dias após as depredações. Ele renunciou ao mandato e nunca mais disputou eleições ou ocupou cargos públicos.

A Sabesp chegou a trocar sua diretoria regional e até o gerente de Santa Cruz. Alguns meses depois, as tarifas tiveram os valores sensivelmente reduzidos. Ficaram para a história a indignação de um povo, resumidas nas palavras do professor Exedil Magnani em entrevista à “Folha de S. Paulo” naqueles dias tensos: “Sou contra a violência, mas há situações que levam a ela. O povo de Santa Cruz do Rio Pardo é muito pacato, mas está cansado de ser explorado”.

 Reportagem do jornal Folha S. Paulo sobre os acontecimentos em Santa Cruz (Acervo Folha)

 

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