CULTURA

Há 12 anos, ‘Maria Vitória’ conquistava a UTI Neonatal para Santa Cruz

Há 12 anos, ‘Maria Vitória’ conquistava a UTI Neonatal para Santa Cruz

Sexta, 13 de dezembro de 2019

Uma médica, uma mãe que perdeu a

filha e uma reportagem do jornal: assim

começou a UTI neonatal de Santa Cruz


Sérgio Fleury Moraes

Da Reportagem Local

Há 12 anos, graças à união com uma médica pediatra, uma mãe transformou uma tragédia pessoal na realização de um sonho de toda a sociedade de Santa Cruz do Rio Pardo: a instalação de uma UTI infantil neonatal na Santa Casa de Misericórdia. Como ponto de partida para esta luta, foi imprescindível uma reportagem do DEBATE que possibilitou a aproximação entre Rosângela Ramos e a médica Kátia Henares. Surgiu, então, a “Associação Infantojuvenil Maria Vitória”, que conquistou a UTI, inédita para uma cidade do porte de Santa Cruz.

Para se ter uma ideia da importância da UTI neonatal, durante os quase 12 anos cerca de 1.200 crianças da cidade e região foram atendidas — e a maioria, inclusive, salvas – pelos leitos que a Associação Maria Vitória tanto lutou para conseguir. Aliás, se desde o início a UTI possuía cinco leitos, uma recente reforma dobrou a capacidade da unidade infantil. Ainda falta, porém, o credenciamento junto ao SUS.

RESULTADOS — Kátia Henares, ao lado de profissionais que cuidam da UTI Neonatal, que vai completar 12 anos



Maria Vitória, por sinal, é o nome da filha de Rosângela de Fátima Ramos Rodrigues, que nasceu no dia 8 de junho de 2003 e sobreviveu apenas 48 horas. Na época, não havia medicamentos na Santa Casa para o problema cardíaco de Maria Vitória e nem vagas nas UTIs próximas a Santa Cruz do Rio Pardo. A morte da filha não gerou apenas uma revolta em Rosângela, mas fez brotar nela uma força impressionante para tentar mudar a história de outros bebês.

Naquele mesmo período, no governo de Adilson Mira, a médica Kátia Henares teve a coragem de denunciar a falta de medicamentos para recém-nascidos, a necessidade de cuidados especiais com bebês e a total deficiência no transporte de crianças para atendimento em outros municípios. Foi um período conturbado, quando um recém-nascido foi levado numa Kombi em péssimas condições até a UTI de Ourinhos. A médica concedeu entrevista ao jornal e enviou uma carta para a Câmara Municipal. A cidade ficou chocada com as informações.

VIDA — Bebê em incubadora da UTI Neonatal: centenas foram salvos



União pelas crianças

O desabafo de Kátia Henares chamou a atenção de Rosângela Ramos. Ela leu a reportagem e ficou surpresa. “Fiquei chocada com os fatos. Eu li a reportagem e descobri que faltavam medicamentos e, principalmente, uma UTI infantil. Foi terrível porque eu fui para o hospital para ter um filho e voltei de mãos vazias para casa”, contou.

Dias depois, ainda abalada pela perda da filha, a artesã bateu na porta do consultório da médica que sequer conhecia, 30 dias depois da reportagem do DEBATE. “Disse a ela que eu bateria de porta em porta para conseguir recursos para melhorar o atendimento às crianças. Queria fazer algo para evitar o que aconteceu a Maria Vitória. Eu me lembro que os olhos da doutora Kátia brilharam naquele momento”, lembrou Rosângela.

Foi o início de uma luta incessante desde o início, quando as ideias começaram a crescer. Primeiro, o plano era conseguir dinheiro para comprar medicamentos, depois para conseguir um leito até que o sonho da UTI passou a ser o grande desafio.

A sociedade respondeu ao chamado. Na primeira reunião, o grupo já era grande, inclusive com a presença de muitas mães que também perderam seus bebês. Em novembro de 2003, surgiu a “Associação Infantojuvenil Maria Vitória”. Dias depois, foi lançada a campanha para arrecadar dinheiro para a instalar a UTI neonatal.

Começaram as vendas de camisetas, adesivos, pizzas, almoços e diversas outras promoções feitas por dezenas de voluntários da associação. A administração cedeu uma sala no prédio do antigo Colégio Companhia de Maria para instalar a primeira sede da “Maria Vitória” e vários deputados foram contatados para a remessa de emendas do orçamento federal. O empresário Irineu Pegorer conseguiu recursos de R$ 110 mil e o ator Umberto Magnani Netto negociou um espaço no horário nobre da Rede Globo, onde ele próprio promoveu a campanha pela UTI. Kátia Henares lembra que até crianças doaram suas pequenas poupanças para a causa.

Foram quatro anos de intensa campanha até que, em dezembro de 2007, a UTI finalmente foi inaugurada. Na verdade, ela estava pronta antes, mas faltava o credenciamento para funcionar com o convênio do SUS.

‘LUTADORAS’ — Kátia Henares e Rosângela Ramos iniciaram, em 2003, a campanha para criar a UTI Neonatal



Sem prejuízos

Segundo a médica fundadora da associação, a UTI Neonatal não dá prejuízo para a Santa Casa. “Nestes anos todos, a UTI atendeu aproximadamente 1.200 recém-nascidos. Todo mês temos uma verba de R$ 172 mil do governo federal somente para custeio, funcionários e equipamentos. O financiamento é praticamente todo federal, pois a prefeitura repassa o mínimo de R$ 12,5 mil”, explicou Kátia.

A entidade, porém, sempre buscou mais recursos. Em 2009, de acordo com a médica pediatra, a Associação Maria Vitória implantou mais cinco leitos para uma unidade semi-intensiva, proporcionando o aumento de verbas. Depois, veio o projeto “Mãe Canguru”, com outros três leitos, e a inclusão da Santa Casa do projeto “Rede Cegonha”. “A UTI adulto só veio depois, já pensando, inclusive na mãe do bebê”, disse Henares.

A médica se envolveu tanto na luta que passou a ser voluntária em atendimentos aos bebês. Há anos, ela atende gratuitamente em seu consultório aquelas crianças que saíram da UTI.

O interessante é que, pouco tempo antes da inauguração da UTI, ainda com os equipamentos e medicamentos encaixotados, a associação conseguiu sua primeira vitória, ao disponibilizar um medicamento imprescindível para o bebê Otávio. Ele teve o mesmo problema de Maria Vitória e o remédio era justamente aquele que faltou em 2003. Hoje, Otávio está entrando na adolescência.

“A missão da minha filha, que viveu apenas dois dias, era deixar algo muito maior para muitas pessoas. A Maria Vitória significa vida. Claro que ainda choro, sinto falta dela, mas tenho um amor imenso em saber que fui escolhida para fazer parte desta missão”, diz Rosângela Ramos, emocionada. 




COM A FILHA — Elaine cuidade Manuela dentro da unidade semi-intensiva



Manuela, mais um bebê

salvo pela UTI Neonatal

'Graças a Deus que existe esta UTI e estas mulheres abençoadas”. A frase de gratidão, lembrando a luta da médica Kátia Henares e da artesã Rosângela Ramos — é de Elaine Cristina Franciscon, que deu à luz após 37 semanas de gestação. Na semana passada, como faz praticamente todos os dias, ela estava com Manuela no colo dentro da unidade semi-intensiva da UTI Neonatal da Santa Casa.

A bebê sofreu complicações no parto e não respirou. “Ela ficou roxinha e os médicos não me deram esperanças. Foi uma correria e a Manuela chegou à UTI”, contou Eliane.

A bebê está há mais de dois meses na UTI. Aos poucos, está se recuperando e os tubos da boca e do nariz foram retirados. Manuela engordou e já é a responsável por trocar o semblante preocupado da mãe por um sorriso de alegria.

Devido à longa internação, não foi possível a mãe amamentar Manuela. A presença diária de Elaine, porém, foi determinante para a recuperação. A bebê deve receber alta nos próximos dias e se juntar à família — especialmente ao irmão. “Se não fosse esta UTI, possivelmente eu não estaria aqui com a Manuela”, conta Elaine Cristina. 



  • Publicado na edição impressa de 8/12/2019


SANTA CRUZ DO RIO PARDO

Previsão do tempo para: Sexta

Períodos nublados com aguaceiros e tempestades
30ºC máx
19ºC min

Durante a primeira metade do dia Céu encoberto com tendência na segunda metade do dia para Céu encoberto com chuva moderada

COMPRA

R$ 5,51

VENDA

R$ 5,51

MÁXIMO

R$ 5,54

MÍNIMO

R$ 5,50

COMPRA

R$ 5,47

VENDA

R$ 5,80

MÁXIMO

R$ 5,68

MÍNIMO

R$ 5,64

COMPRA

R$ 6,68

VENDA

R$ 6,68

MÁXIMO

R$ 6,74

MÍNIMO

R$ 6,66
voltar ao topo

Voltar ao topo