CULTURA

O grande prefeito que Santa Cruz perdeu

Omar Ferreira, um advogado culto, foi candidato em 1947 e 1955, e derrotado pelo mesmo adversário

O grande prefeito que Santa Cruz perdeu

Panfleto da campanha eleitoral de Omar Ferreira em 1947, candidato da UDN, PDC , PTN e PSP

Publicado em: 10 de julho de 2021 às 01:39
Atualizado em: 10 de julho de 2021 às 01:58

Sérgio Fleury Moraes

Personalidade esquecida pelas novas gerações, sem uma única homenagem em Santa Cruz do Rio Pardo, Omar Ferreira foi um dos grandes nomes da política municipal nos anos 1940 e 1950. Disputou duas eleições numa época em que a cidade teve a chance de ter como prefeito um homem culto, idealista e conhecido pelas altas autoridades do governo estadual.

Derrotado duas vezes por Lucio Casanova Neto, a cidade por duas vezes privou-se de um homem com todas as qualidades que o cargo de prefeito exige e sem os defeitos da grande maioria dos políticos. Afinal, Omar era um respeitado advogado, com grande saber jurídico e um verdadeiro mestre do Direito Constitucional.

Formado em Direito pela USP de São Paulo, a histórica faculdade do Largo São Francisco, Omar começou a advogar a partir de 1934. Pouco antes, durante a revolução de 1932, ele conheceu Lygia de Toledo, com quem se casou em 1935 na capital. Ela tinha 23 anos; Omar, 24.

Decidiram morar em Santa Cruz, cidade que crescia sob a áurea do maior desenvolvimento do antigo sertão paulista. A família, porém, já era proprietária de fazendas no município desde 1919, quando adquiriu primeiro a fazenda “Carrapatal” e, depois, a “São Salvador”.

O irmão João Ferreira veio pouco tempo depois, já que sua mulher era prima do prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo nos anos 1930, o médico Abelardo Pinheiro Guimarães. Como era a prefeitura quem nomeava professores, Abelardo pediu para a prima ajudá-lo numa escola, uma vez que a cidade precisava de profissionais do ensino.

As raízes da família na região, entretanto, são ainda mais antigas. Os pioneiros vieram de Portugal na época do Império e, de Minas Gerais, chegaram ao Norte Pioneiro do Paraná para fundar Jacarezinho. O pai de Omar Ferreira também era dono de uma empresa telefônica, na época um benefício que nem todas as cidades tinham.

Já em São Paulo, Omar Ferreira posa para foto com o filho Paulo e a neta Ana Paula, todos advogados

“Meu avô era mineiro e morou muitos anos em Jacarezinho, cidade que ajudou a fundar. Anos mais tarde, implantou uma linha telefônica entre a cidade do Paraná até Chavantes e, depois, fez o mesmo até Santo Antônio da Platina e finalmente Santa Cruz do Rio Pardo”, conta Maria Helena Ferreira, 83, sobrinha de Omar. Ela é filha de João Ferreira e ainda mora na fazenda da família, nas proximidades do Posto Kafé, em Santa Cruz do Rio Pardo.

Segundo ela, o tio Omar foi uma pessoa inesquecível, daquelas que davam dinheiro para os sobrinhos e ainda brincava com as crianças da família. “Ele era muito culto, gostava de ler e de ajudar as pessoas. Foi muito querido em Santa Cruz”, contou Maria Helena.

Omar Ferreira e o irmão se tornaram sócios nas fazendas. No entanto, o advogado gostava mais do Direito e se especializou em causas criminais e constitucionais. Passou a ser figura de destaque na cidade e já tinha quatro filhos: os gêmeos Paulo e Marly, Carlos e Maria Alice. Usava terno e gravata desde o início da manhã. Até na fazenda não dispensava ao menos o paletó.

A filha Marly Ferreira, por sinal, se casou com Fernando Quagliato. Omar foi advogado da usina São Luiz, do grupo Quagliato, na época em que a empresa pertencia ao território de Santa Cruz do Rio Pardo.

A família Quagliato, aliás, se lembra que nos anos 1950 apareceu um grupo que chegou a negociar a compra da usina São Luiz. Omar, como advogado e amigo dos Quagliatos, participou de todas as reuniões e ficou muito preocupado, pois achava que os compradores não eram confiáveis. O negócio não saiu, graças a Omar Ferreira, e a São Luiz se transformou num império de álcool e açúcar nas mãos da família Quagliato.

Os primeiros anos de Omar Ferreira em Santa Cruz não foram fáceis. Afinal, o País vivia a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e a política municipal era muito instável. De 1935 até 1947, por exemplo, a cidade teve nada menos do que 13 prefeitos, alguns com mandatos de poucos meses. Durante muito tempo não houve eleições e os prefeitos eram nomeados pelo governador. De 1938 a 1941, o cargo foi exercido pelo interventor Ademar de Barros.

Omar durante evento festivo 

Em 1945, Vargas caiu e veio a redemocratização do País, com eleições gerais a partir de então. Naquele mesmo ano, por exemplo, o general Eurico Gaspar Dutra se elegeu presidente, curiosamente com o apoio de Getúlio Vargas. Em janeiro de 1947, Ademar de Barros é eleito governador de São Paulo, desta vez pelo voto direto, enquanto o santa-cruzense Leônidas Camarinha conquista pela primeira vez um mandato de deputado na Assembleia Legislativa paulista.

Camarinha já era considerado o poderoso chefe político de Santa Cruz, tendo sido prefeito nomeado (interventor) de 1938 a 1946. Na era dos interventores, não havia vereadores nos municípios.

As eleições municipais estavam marcadas para novembro de 1947. Em Santa Cruz do Rio Pardo, Omar Ferreira era ligado ao grupo político do farmacêutico Alziro Souza Santos, um dos fundadores da UDN local. Pois o grupo convidou Omar para ser o candidato a prefeito. Para eles, era o nome ideal, embora não fosse filiado à UDN. Seus amigos mais próximos — Alziro, Benedito Santos, o médico Valdomiro Ferreira Neves, Benjamim Brondi, José Osiris “Biju” Piedade e outros — gostaram da indicação.

O advogado, na verdade, assim como a UDN local, apoiava Ademar de Barros até que o governador começou a prestigiar demasiadamente Leônidas Camarinha, adversário do grupo. O fato desgostou a UDN e outros pequenos grupos, que retiraram o apoio a Ademar.

Omar Ferreira continuou filiado ao PSP de Ademar, mas titubeou sobre a candidatura a prefeito. Porém, o próprio irmão, João Ferreira, o convenceu a aceitar o desafio.

E foi um desafio enorme, pois ele enfrentaria nas urnas o candidato de Leônidas Camarinha, o farmacêutico Lúcio Casanova Neto, que era muito popular e ligado ao futebol. Naquelas eleições, não havia candidato a vice-prefeito.

Comício do candidato Lúcio Casanova, o adversário de Omar Ferreira em 1955

Foi uma campanha acirrada até o fim, sem que ninguém apontasse um favorito. Porém, com os dois grupos se digladiando violentamente. A três meses das eleições, por exemplo, a sede do comitê suprapartidário liderado pela UDN em Santa Cruz foi incendiada e o fato foi denunciado na Assembleia Legislativa pelo deputado Silvestre Ferraz Egreja. Segundo ele, o ato de violência foi provocado “pelo caciquismo reinante na cidade”.

O também deputado Leônidas Camarinha rebateu na tribuna, dizendo-se “pessoalmente atingido” e o forte discussão acabou interrompendo a sessão na Assembleia.

Nas urnas do dia 9 de novembro de 1947, Lúcio Casanova venceu Omar Ferreira por uma vantagem relevante: 3.639 a 2.898 votos. O eleitorado estava tão dividido que o grupo de Camarinha elegeu 13 vereadores, contra 10 dos adversários.

Omar, então, decidiu se retirar da política, mantendo as atividades de seu escritório de advocacia. Ele morava no início da avenida Tiradentes, na casa da esquina onde praticamente começa a pista dupla vindo do bairro de São José. Hoje, é a residência de Rosa Quagliato e Hugo Yoneda. No mesmo imóvel ficava também o escritório de advocacia.

Familiares lembram que Omar Ferreira tinha um relacionamento cordial e respeitoso com os adversários fora do período eleitoral. Todos se “misturavam”, inclusive, em obras de caridade de Santa Cruz do Rio Pardo. Foi Omar Ferreira quem iniciou o esboço do estatuto social do Icaiçara Clube, que só seria inaugurado anos mais tarde.

A carteira de advogado de Omar Ferreira

Nas eleições de 1951, Omar Ferreira apoiou a candidatura de Filadelfo França Aranha (coligação UDN-PDC), derrotado pelo grupo de Leônidas Camarinha, com Cyro de Mello Camarinha sendo eleito prefeito de Santa Cruz.

Em 1955, o novo prefeito seria eleito no mesmo dia das eleições presidenciais. A UDN apoiou Juarez Távora, que visitou Santa Cruz do Rio Pardo e esteve na residência do advogado Omar Ferreira. Leônidas Camarinha apoiou Ademar de Barros e, curiosamente, o presidente eleito chegou a fazer campanha em Santa Cruz, sendo recebido pelo deputado estadual, mas não teve apoio. Apesar da vitória no País, Juscelino Kubitschek foi o último colocado em Santa Cruz do Rio Pardo, perdendo até mesmo para o integralista ultradireitista Plínio Salgado.

Nas eleições municipais, a UDN busca novamente Omar. Afinal, seria a vez dele depois da derrota de 1947. O advogado aceita, mas o grupo de Leônidas resolve lançar novamente Lúcio Casanova. Era a grande revanche eleitoral.

No entanto, mais uma vez a vitória é de Lúcio, com uma margem um pouco maior do que 1947. O problema em 1955 é que as eleições foram ainda mais acirradas e, quando o resultado foi anunciado, caminhões levando correligionários de Camarinha passavam sem parar em frente à residência de Omar Ferreira, gritando o nome de Lúcio. A provocação continuou nos dias seguintes.

Chateado, Omar Ferreira decide deixar Santa Cruz do Rio Pardo. Ele desfaz a sociedade com o irmão João, compra duas fazendas — uma em Cambará e outra em Ribeirão Claro — e vai morar num apartamento na praça Buenos Aires em São Paulo. Nunca mais se envolveu na política e morreu em novembro de 1989 em Ourinhos. Tinha 77 anos.

O advogado não imaginou que as eleições seguintes, a de 1959, fatalmente seria sua grande chance de se tornar prefeito. Um ano antes, houve uma cisão no grupo de Camarinha, com a saída de políticos com forte base eleitoral — entre eles o prefeito Lúcio Casanova, Onofre Rosa de Oliveira, Anísio Zacura, Reinaldo Zanoni e outros.

A UDN apoiou Onofre Rosa, que venceu as eleições sem nunca ter sido udenista. Caso Omar ainda estivesse em Santa Cruz, existia a possibilidade de a cidade ter três candidatos, com chances reais de vitória para a UDN.

Maria Helena, sobrinha de Omar, lembra com carinho do tio

Enfim, Omar Ferreira foi o grande prefeito que Santa Cruz não teve. Ficaram as lembranças, como a da neta Vera Quagliato. “Sinto muita saudade do meu avô, de quem só tenho boas lembranças. Era um homem sério, sempre de terno e gravata, colete, chapéu e relógio de bolso. Mas, apesar da aparência, era muito irreverente e inteligente. Nunca dizia ‘não’”, conta Vera.

O economista Miguel Moyses Abeche Neto era criança em 1955, mas se lembra de uma história marcante contada pela mãe sobre um comício que mostrou a religiosidade intensa do advogado. 

“Minha mãe não apoiava o Omar, mas admirava muito o seu caráter e sua coerência. Ela contou que, durante um comício na praça central de Santa Cruz, Omar discursava sobre seus planos para a cidade. Foi quando os sinos da igreja começaram a badalar porque eram 18h, o horário da Ave Maria. Imediatamente o candidato interrompeu seu discurso e virou-se em direção à igreja, com a cabeça erguida e um olhar fixo na cruz no topo. Fez-se, então, um silêncio profundo na praça e uma coisa extraordinária aconteceu num comício político. Centenas de homens descobriram a cabeça em sinal de respeito, enquanto as mulheres balbuciavam orações. Nos últimos acordes da Ave Maria, Omar fez o sinal da cruz, voltou-se novamente para o povo e retomou seu discurso eleitoral. Não se ouviram palmas e nem vivas, pois a praça foi tomada pela emoção e pelo respeito”, lembrou.  

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