CULTURA

Presenciou o assassinato de um capanga de Tonico e dançou com Jânio Quadros

A história de Maria Contim Batista, 89, filha de imigrantes italianos que viveu em Santa Cruz

Presenciou o assassinato de um capanga de Tonico e dançou com Jânio Quadros

Publicado em: 20 de fevereiro de 2021 às 13:04
Atualizado em: 29 de março de 2021 às 13:38

Sérgio Fleury Moraes

Perto de completar 90 anos, Maria Contim Batista arregala os olhos quando fala de Santa Cruz do Rio Pardo. Hoje moradora de Ourinhos, ela se recorda com carinho da cidade em que nasceu e acompanhou períodos marcantes. Maria diz que os pais contavam sobre o domínio político de Antônio Evangelista da Silva, o “Tonico Lista”, mas ela chegou a presenciar um crime muitos anos depois da morte do coronel. Foi quando um de seus capangas voltou à cidade e foi morto na praça da igreja de São Benedito, a poucos metros de Maria.

Hoje, Maria mora com um dos quatro filhos, dois de cada casamento. Mas não se cansa de dizer que gostava mesmo é dos tempos de Santa Cruz. “A vida era dura, sem luxo, mas havia uma união maior”, conta. Ela nunca frequentou uma escola, mas aprendeu a ler e escrever em apenas alguns meses graças aos ensinamentos de uma vizinha professora. Escreveu até um pequeno livreto há dez anos, com algumas passagens de sua vida.


O coronel Tonico Lista (Foto: Arquivo / DEBATE)

A idade dela é um mistério, pois na primeira metade do século passado as famílias demoravam para registrar os filhos. O caçula de Maria acredita que a mãe já deve ter 90 anos.

De duas famílias de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil, Maria Contim foi a primeira neta a nascer. Ela veio à luz no bairro rural da Graminha em Santa Cruz. “Vim ao mundo antes da revolução de 1932. Depois de mim, vieram mais 99 netos”, diz, rindo. Maria nasceu pelas mãos da parteira Inocência, mulher do maquinista do trem da Sorocabana.

Ela não conheceu o temido coronel Tonico Lista, mas se lembra das histórias contadas pelo pai e pelo avô. “Eles diziam que o coronel mandava e desmandava. Era realmente o chefe supremo de Santa Cruz do Rio Pardo. Tudo passava pelas mãos do Tonico, mas o impressionante eram os capangas dele, que viviam a cavalo pelas ruas da cidade”, contou.

Segundo as histórias que ouviu, Tonico foi assassinado por um soldado da Guarda Nacional, a mando de opositores liderados por um juiz. “Foi num bar perto da prefeitura velha. O soldado estava na praça e, ao perceber a presença do coronel, foi até o estabelecimento e atirou contra Tonico. O coronel ainda revidou e acertou o soldado, que, mesmo ferido, correu e atravessou o rio”, disse.

De fato, historiadores narram que Tonico Lista foi assassinado por um ato de vingança. Dez anos antes do fatídico dia 9 de julho de 1922, o coronel expulsou da cidade um juiz que ousara enfrentá-lo. Era Francisco Cardoso Ribeiro, que fugiu de Santa Cruz escondido dentro de uma carroça de pão de João Dalmati, até alcançar a estação ferroviária de Bernardino de Campos. Antes de pegar o trem para a capital, jurou vingança pela humilhação sofrida.

Muitos anos depois, Cardoso Ribeiro virou secretário estadual de Justiça e Segurança Pública e teria participado do complô político para afastar definitivamente Tonico Lista da vida pública. Relatos de testemunhas arroladas pela polícia por ocasião do crime citam o nome do juiz e contam que ele comandou até mesmo a formação de um partido político em Santa Cruz. Cardoso Ribeiro ainda foi ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) até sua morte, em 1932.

Maria Contim conta que, segundo o pai, após a morte do coronel um vagão de policiamento ostensivo desembarcou na estação de Santa Cruz. “Era para colocar ordem na cidade, para impedir novos assassinatos entre os grupos. Meu pai contava que os capangas de Tonico Lista foram obrigados a fugir”, disse.

Porém, muitos anos depois um episódio marcou a vida de Maria. Ela era muito jovem e vinha da chácara onde morava a família para a cidade. Na praça da igreja de São Benedito, percebeu a presença de um dos antigos capangas do coronel. Era José Negrão, que havia reaparecido na cidade e bebia pinga numa venda.

“Um tal de Diogo, que eu conhecia, tinha acabado de fazer uma compra e estava arrumando a carroça quando o Negrão se aproximou e disse que ele também deveria beber pinga. O Diogo, que tinha uns 19 anos, não aceitou e se sentou perto de um local onde funcionava o cartório. O tal Negrão se irritou e ergueu o reio para acertar o jovem que, imediatamente, sacou de uma faca e atingiu o capanga”, contou.

“Eu vi tudo. Era criança, mas aquela cena me marcou. O capanga ainda se encostou no muro e disse que o rapaz não tinha acertado. Morreu ali mesmo”, disse. Segundo Maria, o rapaz fugiu, avisou a família que havia matado um antigo capanga de Tonico Lista e se embrenhou no mato. O corpo de José Negrão, segundo ela, foi levado numa carroça com a mesma roupa que usava no crime, sem um caixão, e enterrado num buraco aberto no cemitério.

Três dias depois, Diogo resolveu se apresentar à polícia. “Ele veio a cavalo, descendo pela rua do São José. De repente, as pessoas começaram a se aglomerar, inclusive mulheres, e, aos gritos, diziam que o rapaz não poderia ser preso. Tinha gente com pau de vassoura na mão dizendo que, se o Diogo fosse preso, eles quebrariam a cadeia”, contou Maria. “Foi impressionante ver aquele rapaz a cavalo e uma multidão atrás. A cidade não queria mais sangue”, disse.

Maria Contim acompanhou Santa Cruz durante décadas e presenciou a chegada do rádio e, depois, da televisão. “O rádio ainda era aparelho para quem tinha dinheiro. Nesta época, a gente morava num sítio na Grumixama e as famílias se reuniram à noite, na propriedade de quem tinha rádio, para ouvir música ou novela. Eu me lembro que a primeira rádio a funcionar na região era de Santa Cruz do Rio Pardo”, disse.

A TV só chegou muitos anos depois. “Tinha uma loja na rua da prefeitura que exibia um aparelho ligado na vitrine. A imagem era um chuvisco, mas a rua ficava cheia de pessoas curiosas por aquela maravilha”, lembra.

A aposentada também conta que presenciou os bailes do “Clube dos Negros”, que aconteciam no sobrado em frente ao atual Centro Cultural Special Dog. “Eles não se misturavam. Na praça, os negros andavam circulando na rua, enquanto os brancos caminhavam pelo interior. Uma vez, muito curiosa, subi as escadas do sobrado para ver eles dançando. Tomei uma bronca de um senhor, que disse que meu lugar era lá embaixo”, disse.

Maria também trabalhou na usina São Luiz e presenciou sua inauguração, com a presença de Jânio Quadros. “Aquilo era um alambique de pinga e acabou se transformando numa usina, inicialmente pertencente a Santa Cruz. O Orlando Quagliato veio da Itália junto com meus avôs. Conheci muito a dona Rosa. Na inauguração, houve uma festa e de repente o Jânio Quadros disse que queria dançar comigo. Imagina só, eu dancei com o Jânio”, conta, rindo.


O ex-presidente Jânio Quadros

Ela também viveu os tempos da Segunda Guerra Mundial, quando faltavam alimentos e combustíveis no Brasil. “Não tinha nem eletricidade, que só funcionava algumas horas. Era terrível, pois faltava até pão porque não tinha farinha de trigo”, disse. Os veículos foram adaptados para gasogênio porque a gasolina era racionada. Aliás, Maria conta que tudo era racionado. “Não tinha nem sal ou querosene para o lampião”, disse.

A idosa se casou duas vezes. Na primeira, o casamento foi traumático. “Os papéis estavam prontos, mas ele não quis se casar. Depois, veio com um revólver e me levou de casa. Eu tinha 22 anos e passei 12 anos com o Geraldo em Ribeirão Claro, mas a verdade é que ele virou bandido. Foi preso duas vezes e estava jurado de morte. Foram anos de amargura até que eu decidi abandonar tudo e voltar para minha família. Nunca mais o vi”, disse.

Ela ainda perdeu um dos dois filhos, que morreu aos 19 anos vítima de meningite, uma doença muito comum no passado. Depois de sete anos, Maria casou-se com Juvenal, que morreu no ano passado. “Demorou cinco anos para eu aceitar. Mas vivi com ele 50 anos e só nos separamos pela morte dele”, contou.

Maria também acompanhou a era Vargas e garante que o povo adorava Getúlio. Em 1954, ela retornava do trabalho na roça de café quando a mãe disse que tinha uma notícia ruim para dar. O rádio estava ligado e anunciava o suicídio de Getúlio Vargas. “Na hora eu falei: ele não se matou; mataram o presidente. Até hoje tenho minhas dúvidas”, afirmou.

Ainda ativa, principalmente na máquina de costura, Maria Contim vive das lembranças de um passado duro, mas que a fez forte e orgulhosa. “Eu calcei minha primeira sandália aos 32 anos”, resume.  

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