CULTURA

Revistas que marcaram época: memórias do jornaleiro

Carlos Orlando lembra com detalhes de cada publicação que vendeu, muitas já extintas

Revistas que marcaram época: memórias do jornaleiro

O jornaleiro Carlos Henrique Orlando, dono da 'Banca do Jabá'

Publicado em: 23 de fevereiro de 2021 às 20:56
Atualizado em: 30 de março de 2021 às 08:10

André Fleury Moraes

A Veja sempre foi e ainda é o carro chefe de vendas quando o assunto é revista. Líder absoluta há mais de três décadas, apesar da crise, hoje a publicação é beneficiada com a baixa concorrência no mercado editorial. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que revistas chegavam em caixas nas bancas — e supriam todos os gostos.

Quem lembra com detalhes desta época é o jornaleiro Carlos Henrique Orlando, o “Jabá”, cuja banca que leva o mesmo nome completará 29 anos de existência em março.

A profissão levou Jabá a acompanhar a quebra de tabus, transformar informação em conhecimento e também a vivenciar situações inusitadas.

Certo dia, por exemplo, marido e mulher foram até sua banca, na praça conhecida como “Expedicionários”, e o clima ficou tenso quando o rapaz sinalizou a intenção de comprar uma Playboy — cuja circulação no Brasil foi interrompida em 2017.

A esposa se incomodou e, logo na sequência, disparou: “Me separa uma G Magazine [revista de nudez masculina, extinta em 2013] que eu vou levar também”. Constrangido, os dois decidiram que ninguém levaria nem uma e nem outra.

“Mas eu não vendia a Playboy somente para homens. Mulheres também compravam. A revista tinha matérias ótimas, com uma visão de mundo muito diferente. Era a líder quando o assunto era entrevistas”, lembra Orlando.

A Playboy, porém, não reinava sozinha. A revista Ele e Ela, voltada ao público masculino, também fazia uma mistura entre nudez e literatura. Nos bastidores da imprensa, era conhecida por seu redator-chefe, Leonardo Borges, que não cortava reportagens de jornalistas caso gostasse do texto. Outra que fazia sucesso era conhecida por “catecismo”, com conteúdo de sexo explícito, mas desenhado a mão. Eram exemplares já um pouco antigos, mas que ainda vendiam. Também havia a Status.

Carlos Zéfiro era o responsável pela publicação da “catecismo”. Mas o nome era um pseudônimo, já que a ditadura militar perseguia quem divulgasse conteúdo pornográfico. Sua identidade verdadeira — Alcides Aguiar Caminha, funcionário público — só seria revelada em 1991.

“A Catecismo não chegava sempre aqui na banca. Mas quando vinha, todos os seus exemplares eram vendidos num só dia”, conta o jornaleiro.

Jabá tem um caderno com todas as revistas que vendia, além da quantidade de cada uma que chegava na banca. Ele se lembra com saudades da finada revista Manchete, que chegou a disputar o mercado com a gigante O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand. Foi da Cruzeiro, aliás, que a Manchete ‘roubou’ o famoso fotógrafo Jean Manzon.

De caráter futurista, a Manchete chegou a ter, como colaboradores, Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues. Era uma das preferidas entre escritores boêmios.

A Cruzeiro parou de circular em 1975, mas alguns exemplares chegavam à banca de Orlando para leitores mais velhos e saudosistas.

Porém, Jabá mantém a esperança. Ele conta que existem jovens que descobrem revistas fantásticas e passam a adquiri-las mensalmente. Geralmente são publicações voltadas a um público específico, com textos diferentes quando comparados ao jornalismo noticioso tradicional.

É o caso da “Piauí”, cujo texto, ímpar e literário, aborda desde questões cotidianas, passando pela política — e pelo humor político — até artigos culturais. Também há a Quatro Cinco Um, com textos voltados ao mundo academicista.

Uma das perdas mais marcantes para o jornaleiro foi o fim da revista Recreio, mensal e que posteriormente se tornou semanal, produzida especialmente para as crianças e pré-adolescentes. Atenta aos hábitos das novas gerações, a publicação da editora Abril vinha acompanhada de pequenas reportagens, charadas, piadinhas e um brinde.

O jornaleiro ainda hoje recebe pedidos de pais e escolas que buscam a Recreio para as crianças. A solução é encomendar exemplares que estão em arquivo por distribuidoras. “Sempre me programo para a volta às aulas, por exemplo”, diz Jabá.

A variedade era tão grande que mesmo revistas voltadas a temas como ciência e tecnologia tinham espaço para concorrer entre si. A Galileu, por exemplo, incomodava a Super Interessante. E vice-versa.

A versão impressa da Super ainda existe e circula mensalmente. A Galileu não sobreviveu e interrompeu sua edição impressa no final de 2019.

Também faziam sucesso as revistas que traziam noticias sobre a televisão e detalhes sobre os próximos episódios das novelas. “Hoje elas ainda são vendidas, mas a procura é baixa. Até porque, em razão da pandemia, as novelas estão sendo reprisadas”, diz Jabá.

Concorrentes diretas, a Capricho e a Carícia também disputavam o público jovem. Abordavam assuntos como variedades, moda, relacionamentos. E também entrevistavam artistas que estavam no auge — e cujas produções só podiam ser vistas quando se compravam os seus CDs. Aquele que quisesse ler a entrevista só poderia obtê-la comprando um exemplar da revista nas bancas.

Esta faixa etária, lamenta Jabá, hoje pouco se interessa pelo papel. “Queria que este costume de parar e ler fosse resgatado”, diz o jornaleiro.

Hoje é possível assinar as revistas na internet. Somente aquelas que restaram, e que não sucumbiram ao tempo. Jabá sente falta de cada uma delas, e revive esta época a cada folheada no caderno que o acompanhou a vida toda.

Com o fim de várias publicações, a banca teve de se reinventar. Ainda há tradicionais publicações que diária ou semanalmente chegam na porta de seu estabelecimento — como Veja, IstoÉ, Carta Capital e Época. E também o DEBATE, que acompanha Jabá desde a fundação da banca.

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