CULTURA

Santa Cruz teve massacre de uma família por índios

Fato ocorreu em 1861, mas investigações indicaram que índios foram contratados por bandidos mineiros

Santa Cruz teve massacre de uma família por índios

No centro da foto está José Fortunato, que sobreviveu à chacina

Publicado em: 27 de março de 2021 às 04:27
Atualizado em: 30 de março de 2021 às 15:17

Sérgio Fleury Moraes

Uma carta do juiz do Termo de Botucatu, Filippe Correa Pacheco, ao presidente da Província de São Paulo (cargo equivalente hoje a governador), João Jacintho de Mendonça, descreve as atrocidades cometidas por índios contra uma família da região rural do Alambari, em terras que pertenciam a Santa Cruz do Rio Pardo em 1861, no século XIX. O povoado estava se formando, após a doação de 100 alqueires pelo fazendeiro Manoel Francisco Soares, um dos fundadores da cidade e o primeiro habitante do local. Santa Cruz era vinculada à freguesia de São Domingos do Tupá, pertencente ao município de Botucatu. Foi quando houve o banho de sangue.

Os documentos foram obtidos pelos historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado e estão digitalizados. A carta do juiz é totalmente manuscrita, uma vez que a máquina de escrever era uma novidade cuja produção em série estava começando no planeta.

No período, o bandeirante pioneiro José Teodoro de Souza, que desbravou a região e fundou várias cidades, ainda estava na região, especificamente em Salto Grande, onde comandava um “aldeamento” indígena — uma espécie de comunidade para onde os índios eram levados para serem “catequizados” e incentivados a ter contato com a “civilização”.

O massacre por ataque de índios foi narrado na carta do juiz (centro) e ganhou repercussão na imprensa nacional, especialmente do Rio

 

O massacre aconteceu quando um bando de índios invadiu as terras de Fortunato da Silva Bueno, um bugreiro ligado a Francisco de Souza Ramos, irmão de José Teodoro. Como todos os aventureiros da época, eles ocupavam terras dos índios e exterminavam as tribos. Segundo Celso Prado, a fazenda do Alambari ficava entre Duartina e Cabrália Paulista, terras de Santa Cruz do Rio Pardo.

Fortunato morava na casa principal junto com a mulher e sete filhos. Havia escravos e trabalhadores que cuidavam do desmatamento e plantio. No entanto, o ataque dos índios foi de surpresa. “Houve um vacilo de todos, pois imaginavam que o índio tinha medo de se aproximar dos brancos. O segurança, por exemplo, fugiu com a aproximação do bando”, disse Celso Prado.

O ataque atingiu a casa de Fortunato. Além dele e da mulher, os índios ainda assassinaram cinco dos sete filhos do casal. “Foi uma cena horrível. Segundo relatos, vários corpos foram desmembrados e decapitados”, lembrou Prado.

Uma das filhas de Fortunato, que segundo o historiador deveria ter entre dez e 12 anos, se abraçou ao irmão caçula e ambos provavelmente desmaiaram. “Foi numa cena de muita gritaria quando os índios passaram a saquear a propriedade e talvez imaginaram que todos estavam mortos. Mas a menina e o irmão conseguiram se salvar quando o bando fugiu”, contou.

João Mendonça, o presidente da província de SP até 1862

O menino caçula que sobreviveu era José Fortunato Bueno, nascido em Santa Cruz do Rio Pardo. Posteriormente, ele se casou com Jesuína, filha de José Luiz de Andrade. Teve um ou dois filhos em Santa Cruz e se mudou para Jacarezinho. “Ele prosperou na vida, se tornando tenente e delegado”, contou.

O historiador conseguiu até uma fotografia do sobrevivente do massacre, cedida pela família de Rosalvo Rizzi. Na imagem, aparecem José Fortunato e a mulher Jesuína, junto com os netos e outras pessoas.

Entretanto, o massacre foi investigado e, alguns meses depois, descobriu-se que os índios que atacaram a propriedade não eram da região, mas vieram de Minas com um bando de bandidos que os contrataram para matar. Já havia suspeitas, uma vez que testemunhas contaram que os índios assassinos não usavam cabelos compridos. “Os cabelos eram curtos, conforme a Justiça verificou, segundo a moda dos índios aldeados, que eram considerados mansos. Já os coroados (ou kaingangs) tinham cabelos no formato de uma coroa, daí o nome da tribo”, explicou Celso.

Segundo ele, as barbáries eram constantes e o conflito por terras continuou até o início do século XX. “E as mortes aconteciam tanto por ataques de índios como de brancos. Mas alguns mercenários, como é o caso deste massacre, contratavam índios para matar índios. Era uma chacina sanguinária”, contou.

O historiador Celso Prado (Foto: Sérgio Fleury)

O caso teve uma repercussão nacional e saiu nos principais jornais do País — como “Correio Paulistano”, “Correio Mercantil” e revistas da época. “Saiu até no boletim do Império e na revista do Instituto Histórico e Geográfico, além de almanaques da época”, explicou o historiador. “O governo imperial mandou apurar e comprovou-se que houve a ação de mercenários usando índios de Minas Gerais”, afirmou.

Naqueles tempos em que a escravatura negra era legal, segundo Prado, matar índio não era considerado um pecado e ninguém era responsabilizado criminalmente. “Eles diziam que índio não possuía alma e deveria ser transferido para aldeamentos a fim de serem catequizados”, lembrou. Os índios, por sinal, também eram escravizados na forma de prestarem serviços gratuitos aos fazendeiros. Na época, havia protestos internacionais contra a matança de índios no Brasil.

A carta do juiz Pacheco ao presidente da Província de São Paulo narra toda a chacina em Santa Cruz, referindo-se ao fazendeiro como “o infeliz Fortunato”. O documento diz que, vários dias depois, foram encontrados uma série de objetos roubados da casa do fazendeiro durante o massacre.

Avisado, José Teodoro de Souza, que estava em Salto Grande, resolveu vingar a chacina promovendo outra. E errou o alvo, já que as autoridades imaginavam, a princípio, que o crime era obra de índios da região. Ele praticamente dizimou um bando inteiro. 

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