CULTURA

Simplesmente ‘Fila’: a saga de Filadelpho França Aranha

Homem rico, ele estudou na Europa e tentou ser prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo pelo voto direto em 1951

Publicado em: 11 de junho de 2022 às 03:28
Atualizado em: 21 de junho de 2022 às 19:01

Miguel Abeche
Especial para o DEBATE

PERFIL  Filadelpho França Aranha foi homem de vida intensa e de muitas histórias. Estudou na Europa em uma época que a maioria dos santa-cruzenses sequer conhecia São Paulo, foi prefeito de Santa Cruz com menos de 30 anos, foi um homem de uma época em que a paixão e a aventura nortearam e davam sentido à vida dos homens.

Não vou contar a história da sua vida, nem a enaltecer, mas narrar alguns episódios que vi e outros que ouvi de um velho libanês que veio para o Brasil e acabou cruzando o seu destino ao do nosso “Fila” em 1950 na avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, ainda capital federal.

Convivi com o Filadelpho no início dos anos 70 no antigo “Bar do João”, em frente ao “Cine São Pedro”, no cruzamento das ruas Conselheiros Dantas e Antônio Prado. Ali eu o encontrava no final da tarde quando voltava do Clube Náutico nos verões daqueles tempos e ficávamos — eu e o “Cacau” — a ouvir as suas incríveis histórias.

Gostava de ouvi-lo contar sobre a Europa antes da Segunda Guerra, descrevia com detalhes as cidades e as noites de Paris, Londres e Berlim. Sim, Filadelpho era filho de uma família muito rica e conheceu muitos países, especialmente da Europa.

Folheto da campanha de Filadelpho (que usou o “f” no nome) para vereador de Santa Cruz do Rio Pardo em 1947

Com o fim do Estado Novo e a redemocratização do Brasil, com as eleições presidências de 1945, a promulgação da Constituinte de 1946 e as eleições para governador, senador e deputados em janeiro de 1947, houve alterações no poder municipal em todo o Brasil. Para se ter dimensão da volatilidade do cargo de prefeito, naquele mesmo ano de 1947 Santa Cruz do Rio Pardo teve seis prefeitos, entre eles Filadelpho, que ocupou o cargo por 45 dias.

Essa instabilidade só cessou com as eleições de novembro de 1947 em que Lúcio Casanova Neto foi eleito prefeito e Filadelpho, vereador. “Fila” havia se aliado ao grupo de Leônidas Camarinha, que ainda tinha como correligionários Lúcio Casanova, Onofre Rosa de Oliveira e outros.

Em outubro de 1950, Lucas Nogueira Garcez é eleito governador de São Paulo com o apoio do governador Ademar de Barros e Getúlio Vargas, eleito naquela mesma eleição presidente da República.

As mulheres de Lucas Garcez e Filadelpho eram irmãs, o que tornou o santa-cruzense concunhado do governador de São Paulo. Com Garcez cunhado de sua mulher e Filadelpho cunhado da primeira-dama, nosso personagem se achou no direito de postular a prefeitura de Santa Cruz nas eleições municipais de 1951.

“Fila” procurou Leônidas Camarinha e Lúcio Casanova Neto e anunciou sua vontade de disputar a sucessão de Lúcio, com a bênção do prefeito e do deputado. Expôs seu plano e as facilidades que a cidade contaria com sua eleição pela ligação familiar com o governador. Leônidas Camarinha e Lúcio ouviram atentamente e ficaram de reunir o grupo a eles ligados e dar uma resposta a França Aranha.

Na verdade, Camarinha e Lúcio, duas raposas da política santa-cruzense, perceberam o risco que corriam com a eleição de “Fila” para prefeito. Assim, mantiveram o nome já escolhido de Cyro Camarinha para prefeito e Américo Pitol como candidato a vice.

Filadelpho se irritou. Afinal, havia sido vereador fiel ao grupo e, inclusive, recebera ameaças de opositores durante o mandato de vereador. Assim, ele não desistiu da ideia de ser candidato a prefeito.

A derrota de 1947 havia marcado profundamente o grupo de Omar Ferreira e isso levou a um acordo com Filadelpho, que rompeu com Camarinha e Lúcio para criar o PTB de Getúlio Vargas.

Foi uma aliança “sui generis” naquele distante 1951. Consolidada a sua candidatura, Filadelpho foi a São Paulo pedir apoio ao concunhado e governador de São Paulo. No entanto, Garcez não se comprometeu e não permitiu que usasse a proximidade familiar na campanha. O fato é que o governador não queria melindrar outros compromissos políticos em Santa Cruz do Rio Pardo.

Sem o apoio que contava como certo, Filadelpho foi ao Rio de Janeiro falar com Osvaldo Aranha para levá-lo a Getúlio. Apesar do sobrenome e do parentesco muito longínquo, Osvaldo Aranha — que foi tudo no Brasil, menos presidente da República — concordou em conduzi-lo ao Palácio do Catete e o apresentou a Getúlio como “parente e amigo”.

Porém Getúlio Vargas, que recebeu uma votação estrondosa em São Paulo e teve o apoio de Ademar de Barros, não quis se envolver no estado a não ser por nomes referendados pelo ex-governador paulista. E o fato era que Ademar de Barros estava fechado com Leônidas e Cyro Camarinha.

Leônidas Camarinha ao lado de Juscelino Kubitschek

No entanto, Osvaldo Aranha sugeriu que o santa-cruzense procurasse Samir Barchad, um libanês que havia morado na França e trabalhava em uma agência de publicidade na avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro.

Desse encontro surgiu a ideia de trazer Samir para Santa Cruz e ajudar na campanha de Filadelpho. Samir era um craque em propaganda na França, mas não entendia o processo eleitoral de uma cidade pequena. O resultado foi uma vitória tranquila de Cyro Camarinha e Américo PItol. Foi o fim da carreira política de Filadelpho França Aranha.

Mas durante a campanha Santa Cruz ganhou um show magnífico com o cantor argentino Nicola Paoni, que fazia muito sucesso em Nova York e estava em temporada no Brasil. Filadelpho gastou uma nota para trazer Nicola Paoni a Santa Cruz. O show aconteceu no antigo Soarema Clube, o prédio onde hoje está a prefeitura. Foi um acontecimento na cidade e em toda região, sucesso absoluto e clube lotado. Mas deu Cyro Camarinha na eleição.

Vivi duas histórias com Filadelpho. Em 1975, eu tive um rápido romance com uma garota de Jacarezinho-PR. Em um sábado de janeiro fomos jantar na churrascaria Gaúcha, em Ourinhos. Ao entrar no restaurante, ouvi o “Fila” me chamar. “Abeche, senta comigo e me apresenta essa moça linda”.

Sentamos para ficarmos alguns minutos e logo mudarmos para outra mesa. Mas ele contou que estava esperando a Miss Minas Gerais para jantar e pediu para que ficássemos fazendo companhia até a chegada da modelo. Pensei comigo, duvidando: “Tá bom que a miss Minas Gerais vai vir em Ourinhos para encontrar com o Fila”.

Passados alguns minutos, entrou no restaurante uma mulher belíssima e, apresentados, eu e minha amiga fomos finalmente para outra mesa. Mas é claro que não acreditei que fosse a miss Minas Gerais.

Passados exatos vinte anos, janeiro de 1995, fui chamado ao Palácio do Planalto. Fui direto para a sala do secretário particular do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

Sentei esperando ser chamado e comecei a conversar com uma mulher lindíssima. Gosto de saber a origem das pessoas e, depois de dizer que era mineira de Belo Horizonte, ela perguntou se eu era paulista. “Sou de Santa Cruz do Rio Pardo”, respondi.

A mulher ficou pensativa por segundos e depois falou: “Fica perto de Ourinhos?” “Isso mesmo, encostado”.

E para minha surpresa, ouvi: “Eu já estive em Ourinhos. Era Miss Minas Gerais, fui participar de um baile em Cambará-PR e fiquei hospedada em Ourinhos”. Eu não toquei no assunto do jantar nem do Filadelpho. Era ela mesmo e eu ainda duvidando do meu amigo.

Para encerrar, outra passagem do “Fila”, desta vez no Carnaval de 1969 em Santa Cruz do Rio Pardo. Eu estava entrando no Icaiçara quando um pequeno tumulto se formou na entrada do clube. Era o Filadelpho com duas belíssimas mulheres barrado na portaria.

As garotas estavam com pouca roupa e um diretor reclamou: “Fila, estas mulheres são de vida duvidosa”.

E o Filadelpho: “Não, não. Estas são prostitutas mesmo. As de vida duvidosa estão aí dentro”. E foi brincar seu Carnaval com as duas lindíssimas mulheres em outros salões.

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