ECONOMIA

Como a pandemia afetou a carreira de um artista santa-cruzense, reinventada graças à Aldir Blanc

Gabriel Biel Lemos, 24, sentiu na pele a distância dos palcos

Como a pandemia afetou a carreira de um artista  santa-cruzense, reinventada graças à Aldir Blanc

O artista Gabriel Biel, 24 (Foto: arquivo pessoal)

Publicado em: 27 de fevereiro de 2021 às 05:13
Atualizado em: 29 de março de 2021 às 07:13

André Fleury Moraes

Aos 12 anos, um trompetista da fanfarra de Ipaussu percebeu que levava jeito para a música. Entrou para a aula de violão. Foram dois anos alternando os dedos sobre as seis cordas, até que migrou para o contrabaixo. Nem ele se lembra ao certo quando aconteceu a mudança, tão repentina quanto sua decisão de fazer parte da fanfarra. Mas era o princípio de uma carreira que faria Gabriel Biel Lemos, 24, viajar Brasil afora.

No contrabaixo, ao contrário do violão, Biel foi autodidata. Com auxílio de videoaulas na internet, aprendeu os primeiros acordes e já passou para as partituras — com as quais tinha afinidade por causa dos anos no violão. Mal piscou e já passou a integrar bandas de adolescentes que também tinham gosto pela música em Santa Cruz.

No começo era tudo mais difícil, claro, mas Biel sempre sonhou com a carreira artística. Aos 15 anos já tocava em barezinhos de Santa Cruz frequentados por gente jovem. O repertório era sempre composto por rock — nacional ou internacional.

Desde então foram dezenas de apresentações. Inclusive no Rock Rio Pardo — tradicional evento de rock que acontece anualmente e traz atrações nacionais a Santa Cruz.

Em 2014, ele completou 18 anos e precisou se alistar no Tiro de Guerra. Não foi dispensado e acabou passando alguns meses de 2015 com certa distância dos instrumentos. Já fora da serviço militar, precisava decidir o que fazer da vida. Avesso às matérias escolares, optou por seguir o sonho de adolescente: a música.

Obteve apoio dos pais e se inscreveu para o Conservatório de Tatuí, um dos mais conceituados institutos musicais do País. Passou de primeira, fez as malas e se mudou. Teve de trancar o curso por um determinado período, mas já está de volta. Vai se formar dentro de dois anos.

 

Biel, como todo artista, sabe que a carreira musical no Brasil é difícil. Mas nunca perdeu a esperança em alcançar voos maiores. Desde 2017, aliás, ele toca com a dupla sertaneja Hugo e Tiago — famosa em todo o território nacional.

Com o grupo, o contrabaixista viajou para Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo, além de outros estados. De Norte a Sul viu seu sonho sendo realizado. A sensação única de se estar em cima dos palcos e tocar para um grande público o motivava cada dia mais. Até que veio a pandemia.

“Tínhamos uma agenda bem regrada em 2018, 2019. No começo de 2020 chegamos a fazer alguns eventos, mas de repente tudo parou”, diz. Sem eventos, Biel viu a renda cair exponencialmente em questão de semanas. “A sorte é que moro com meus pais em Santa Cruz. Caso contrário, o pior poderia ter acontecido”, afirma.

Ele viu colegas artistas vendendo equipamentos para sustentar a família e outros até mudando de profissão. “É muito triste. Pessoas com talento, criatividade, abandonando a carreira”, lamenta.

Nem mesmo a saúde mental Biel conseguiu manter em dia durante a quarentena. Longe dos palcos, e sem a adrenalina de apresentar um show, passou dias sem nem vontade de tocar. “Não tinha motivações”, disse ao DEBATE na quinta-feira, 25. Sua rotina se limitava ao quarto.

Mas não foram todos os meses assim. O contrabaixista também participou de lives — apresentações ao vivo na internet – durante a quarentena. Em geral, porém, elas foram solidárias e tinham como objetivo ajudar instituições de apoio a famílias carentes.

Quando alguns eventos passaram a ser permitidos, ele chegou a tocar em alguns bares e restaurantes da região. Mas para um público restrito. O cachê, naturalmente, também foi baixo. Um respiro viria com a Lei Aldir Blanc — projeto de incentivo a artistas afetados pela pandemia — pela qual o músico recebeu R$ 3 mil.

O valor, ainda que irrisório se comparado ao prejuízo com os shows paralisados, foi uma gota de esperança para o artista. Não deu para comprar muita coisa. Pagou algumas contas, aprimorou seus instrumentos. A principal aquisição, no entanto, foram equipamentos com os quais ergueu seu próprio estúdio, dentro de casa.

“Aqui faço trabalhos pessoais. Consigo vender algumas produções para outros artistas”, explica. É o chamado “freelancer” — ou “frila”, no termo abrasileirado. Com isso, Biel grava apenas a parte dele — no contrabaixo — e encaminha aos produtores, responsáveis pela junção de todos os instrumentos numa só música.

Porém, ele se chateou com ataques que sofreu na internet quando saíram os nomes contemplados pela Aldir Blanc. “Foram vários [ataques]. O pessoal dizendo que eu estava mamando na teta do governo. Essas pessoas não me conhecem e nem sequer devem saber que promovi eventos solidários, mesmo sem renda”, lamenta.

“Tem muita gente ignorante, que tem preconceito com arte. Pessoas que consideram artistas como ‘vagabundos’. Não é assim”, diz.

Mas não são as críticas, infundadas, que tiram a esperança do artista. No pior momento da pandemia, ele admite que não há muitas previsões para retorno às atividades. De qualquer forma, segue estudando e carrega consigo a ideia de que os objetivos por ele traçados em breve serão vividos. Não sabe quando, mas mantém a expectativa. Nem cogita abandonar a música. “Sem ela eu não sobrevivo”

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