ESPORTE

A maior briga de todos os tempos da Esportiva

No ano em que a Esportiva foi campeã, o time foi jogar em Avaré e aconteceu uma briga generalizada entre as torcidas

A maior briga de todos os tempos da Esportiva

Os campeões da Segunda Divisão sendo recebidos pelo então prefeito Onofre Rosa em 1963

Publicado em: 13 de novembro de 2021 às 03:19
Atualizado em: 22 de novembro de 2021 às 17:12

Sérgio Fleury Moraes

O ano era 1963 e a Esportiva Santacruzense mudou o time no decorrer do campeonato, culminando com um forte esquadrão que terminaria a temporada com o título da Segunda Divisão do campeonato paulista. A competição, mesmo terminando no segundo semestre, era relativa ao ano de 1962, já que foi um campeonato muito longo. Mas uma das partidas ficou marcada na história pelo lado negativo: uma briga entre torcedores.

O jogo entre Avareense e Santacruzense aconteceu no primeiro semestre de 1963 e era o returno da fase regional. Quem estava no estádio “Antônio Braga”, como o economista santa-cruzense Miguel Moyses Abeche Neto, garante que foi uma das maiores brigas do futebol paulista. Só não aconteceu uma tragédia porque os torcedores fugiram e muitos entraram em residências, igrejas ou escolas. Miguel tinha onze anos na época.

A Esportiva, na verdade, não começou bem o campeonato, mas foi se acertando ainda no primeiro turno com as contratações feitas a pedido do técnico Beto Mendonça, que também chegou com a competição em andamento. Muitos jogadores que começaram a temporada foram dispensados com a vinda de outros.

De repente, o time engrenou. O técnico Mendonça não apenas escolheu a dedo algumas contratações, como também reposicionou jogadores em campo, como foi o caso de David Andrade, que virou um ótimo ponta-esquerda.

Os titulares daquela histórica conquista, então, foram Dido, Celso, Padaia, Zé Dias e Nelson; Suingue e Milão; Edson, Mendonça, Bravo e David. O massagista era José Figliolia e o presidente do clube era Antonio Yoneda, com Almeida, Cláudio Catalano, Paulo Gilberto Machado Ramos, Felipe Saliba e outros na diretoria. Ou seja, a equipe não era apenas um esquadrão dentro de campo.

Mas quando a equipe se mostrou muito forte, era preciso recuperar os pontos perdidos no início. Assim, cada jogo era decisivo, uma vez que o objetivo claro era a classificação para a próxima etapa do campeonato. Na primeira fase, a Santacruzense estava na chave intitulada “Paulo Machado de Carvalho”, uma homenagem ao empresário que foi chamado de “Marechal da Vitória” porque comandou o Brasil nas Copas do Mundo vitoriosas de 1958 e 1962.

No jogo contra o Avareense no primeiro turno, no estádio “Leônidas Camarinha” em Santa Cruz do Rio Pardo, o time ainda não era aquele esquadrão que seria campeão. Num jogo difícil, um empate sem gols foi um bom resultado para os visitantes. Porém, a torcida ficou irritada com um ponta-esquerda adversário, que fazia muita “cera” na cobrança de laterais ou simulando faltas. Eram atitudes clássicas do futebol, mas a torcida não gostou.

O ‘esquadrão’ que foi campeão da temporada de 1962, que só terminou no ano seguinte

O ponta-esquerda era “Pintinho”, o apelido de Antônio Magdanelo, que pouco tempo depois acabou virando ídolo na própria Esportiva Santacruzense. Mas naquele jogo do primeiro turno, ele vestia as cores da Avareense e admitiu que fez de tudo para que o empate persistisse (leia na próxima página).

No final do jogo, Pintinho foi literalmente “caçado” pelos torcedores a ponto de ser necessário chamar uma viatura policial para que o jogador pudesse deixar o estádio. Automóveis de dirigentes ou que transportaram jogadores de Avaré até Santa Cruz do Rio Pardo chegaram a ser danificados.

Depois desta partida, a Santacruzense subiu assustadoramente de produção e foi alcançando a zona de classificação. Aí veio o jogo do returno contra o Avareense, na casa do adversário. Uma caravana de torcedores rumou para Avaré para incentivar o time. Afinal, com o ótimo desempenho do time no campeonato, a torcida da “locomotiva” se empolgou e passou a empurrar o time. Em certos jogos, havia até um certo fanatismo.

Miguel Abeche viajou na kombi do pai, emprestada ao tio “Zezo”. No veículo ainda estavam o empresário Geraldo Vieira Martins e os filhos Lézio e Geraldinho, além do bancário José Batista Siqueira e os irmãos Osvaldo e Maurílio Meneguim.

Pintinho no Palmeiras, onde ficou apenas alguns meses

Cerca de 300 santa-cruzenses se acomodaram no estádio no lado oposto dos torcedores locais, em arquibancadas sem cobertura. Tudo parecia bem e a Esportiva vencia o jogo, mas a direção do Avareense cometeu uma perigosa imprudência. É que ao lado dos torcedores de Santa Cruz, havia um lote de pedriscos, provavelmente de uma obra em andamento no estádio.

E também havia o fator “Pintinho”, pois a torcida da Santacruzense não havia perdoado o ponta-esquerda que, segundo muitos, fora o responsável pelo empate sem gols no primeiro turno. Não apenas por jogar bem, mas por fazer a chamada “cera”.

De repente, torcedores passam a atirar os pedriscos nos jogadores do Avaré que cobram laterais ou faltas na parte do campo perto da arquibancada adversária. “Na verdade, não foi toda a torcida, mas o gesto partiu daqueles torcedores fanáticos que costumavam assistir aos jogos grudados no alambrado”, conta Miguel Abeche.

Foi o estopim para uma grande confusão. A torcida do Avareense, também irritada com o que havia acontecido em Santa Cruz no primeiro turno, correu em direção aos santa-cruzenses. “Foi uma das maiores brigas da história do futebol paulista do interior, talvez no brasileiro. Claro que não houve mortes porque o futebol era diferente naquela época e as desavenças eram resolvidas no braço. Naqueles tempos, a violência não era tão grande nos estádios”, contou Miguel.

Mas a verdade é que “o pau quebrou”. Quem não apanhou conseguiu escapar por um portão lateral das arquibancadas, que foi arrebentado pelos torcedores. O problema, porém, é que na rua a multidão de torcedores de Avaré foi aumentando e os santa-cruzenses começaram a ser perseguidos.

Momentos da carreira de “Pintinho”: no Avareense e, depois, defendendo a Esportiva

 

Vários carros também foram danificados, muito mais do que os veículos de Avaré que vieram a Santa Cruz no primeiro turno. Miguel Abeche lembra que o gerente do Banco Comercial, José Antônio Ramos, teve sua reluzente Simca Jangada totalmente riscada. Mais de quarenta carros foram depredados, segundo contou o economista.

A briga foi prolongada. Torcedores de Avaré fecharam as saídas da cidade e alguns automóveis fizeram tortuosos percursos pela zona rural para alcançar as rodovias. Alguns torcedores só voltaram para Santa Cruz do Rio Pardo quase dois dias depois.

“Eu me lembro que um dos filhos gêmeos do Abílio Luca entrou numa casa e pediu abrigo. Mas os moradores acabaram avisando a torcida e ele precisou correr e se esconder num matagal durante um dia todo”, contou Miguel.

 

O estádio em Avaré em foto da época: torcida de Santa Cruz ficou no canto inferior esquerdo

 

A situação só não foi pior porque o ponta-esquerda Pintinho desta vez foi o responsável por proteger os santa-cruzenses. “A torcida queria invadir até o campo para pegar os jogadores, mas o Pintinho conseguiu conter os ânimos”, disse Abeche.

Segundo ele, o jogador permaneceu até o fim no estádio e, inclusive, acompanhou os jogadores até as kombis azuis e brancas, como eram os veículos de táxi na época.

Teve torcedor que só conseguiu voltar após pegar um trem para Bernardino e, depois, seguir com a locomotiva do ramal ferroviário até Santa Cruz. Como a Difusora transmitiu o jogo e informou sobre a briga, as famílias foram esperar os automóveis dos torcedores no trecho da SP-225, onde a rodovia terminava — não havia ainda o pontilhão no bairro da Estação e nem aquele localizado mais à frente, perto da sede da Sabesp. A cada carro que estacionava, as famílias corriam para ver a situação dos parentes ou os estragos provocados pela briga.

A Esportiva Santacruzense venceu o jogo por 2x1, com o goleiro Dido garantindo o resultado. No final da série, o time se classificou para a fase seguinte, disputando o título com equipes de todo o Estado, como a Ferroviária de Botucatu, Cerâmica de São Caetano e Ituverava. O título veio para Santa Cruz do Rio Pardo pela primeira vez na história.

 

O ponta Pintinho, na época em que defendia o Avareense, em 1963; depois, ele virou ídolo na Esportiva

‘Pintinho’ lembra a ‘rixa’ com
Avaré, que durou muito tempo

Craque do futebol que chegou a ter seu passe preso ao Palmeiras e foi emprestado para clubes como Santa Cruz de Pernambuco e outros, Antonio Magdaleno se consagrou no futebol como o ponta-esquerda “Pintinho”. Em 1963, ele vestia as cores do Avareense e infernizou os laterais do campeonato paulista da Segunda Divisão, inclusive os da Santacruzense.

Hoje residente em Osasco/SP, ele ri quando se lembra que no jogo do primeiro turno, em Santa Cruz, realmente fez “cera” para garantir o empate. “É coisa do futebol e qualquer jogador hoje em dia ainda faz isto. Mas realmente aquilo irritou a torcida e chegaram até a jogar uma pedra que passou raspando pela minha cabeça”, diz.

Na partida no “Leônidas Camarinha”, o ponta-esquerda só conseguiu deixar o estádio dentro de uma viatura policial, pois a torcida o ameaçava. “Eu me lembro que muita gente usou tijolos e telhas para riscarem os carros dos dirigentes e torcedores do Avaré. E olhe que alguns automóveis eram novos, mas aquelas cenas marcaram o pessoal do Avareense”, disse.

Pintinho lembra que o clima hostil estava criado para o returno em Avaré. “Mas não houve nada até que torcedores da Santacruzense começaram a atirar algo contra os jogadores do Avaré”, disse. O ponta-esquerda imaginava que eram mexericas, mas quem estava no estádio garante que eram pedras. Um dos jogadores atingidos foi o lateral Chiquinho.

Foi, então, que a torcida do Avaré, que estava nas arquibancadas opostas, saiu do estádio e correu em direção ao outro lado para pegar os santa-cruzenses. “Foi uma confusão. Alguns pularam um muro enorme e depois entraram até em igrejas. Muitos carros também foram danificados. Foi uma coisa lamentável, provocada por fanáticos”, disse.

Pintinho disse que os ânimos continuaram exaltados entre os jogadores após a partida. “Não houve invasão de campo, pois a briga foi externa. No entanto, quando o jogo terminou, um dos nossos jogadores, o Silvio Barros, acabou dando um murro no atacante Milão. Não sei se os dois se desentenderam desde o jogo de Santa Cruz”, contou.

A rixa entre os torcedores continuou durante meses. “O pessoal não podia vir a Santa Cruz e vice-versa. Foi uma situação muito desagradável”, lembrou o ex-jogador.

Magdaleno, aliás, já estava acertado para jogar na Esportiva após o final do campeonato. “Mas o clima ficou tão pesado que a negociação foi suspensa”.

Pintinho, então, seguiu para o Palmeiras e assinou contrato imediatamente após o primeiro treino. Treinava com a equipe de Djalma Santos, mas não se relacionava bem com o técnico e nunca foi escalado para um jogo importante. “Era difícil, pois o técnico me escalava nos treinos como beque ou lateral direito. Se eu não aceitasse, poderia ser multado. Então, decidi sair”, contou.

Pintinho jogou pouco tempo no Santa Cruz de Recife, mas quem levou o passe foi mesmo a Santacruzense. “O Moraes trabalhava em São Paulo e era parente do professor Sérgio Moraes Ribeiro. Na verdade, foi uma espécie de representante da Esportiva. Ele conversou com a direção do Palmeiras, com quem tinha bom relacionamento, e eu fui liberado”, contou.

Por via das dúvidas, o jogador conta que viajou a Santa Cruz do Rio Pardo no trem da Sorocabana e desembarcou em Ipaussu sob a proteção do presidente do clube. “O Antônio Yoneda foi me buscar com seu DKW. Mas a verdade é que as coisas já estavam mais calmas”, lembrou. Durante o início de sua trajetória em Santa Cruz, ele se apaixonou por uma funcionária da antiga “Casa Yoneda”, de propriedade do presidente do clube, se casou e constituiu família em Santa Cruz.

E Pintinho começou uma das fases mais brilhantes de sua carreira, com a Esportiva de 1966, que ficou a um gol de disputar a vaga para a Divisão Especial, a elite do futebol paulista. Mas esta é uma outra história.

PUBLICIDADE

SANTA CRUZ DO RIO PARDO

Previsão do tempo para: Terça

Períodos nublados com chuva fraca
28ºC máx
17ºC min

Durante todo o dia Céu encoberto

COMPRA

R$ 5,61

VENDA

R$ 5,61

MÁXIMO

R$ 5,61

MÍNIMO

R$ 5,61

COMPRA

R$ 5,59

VENDA

R$ 5,92

MÁXIMO

R$ 5,76

MÍNIMO

R$ 5,76

COMPRA

R$ 6,33

VENDA

R$ 6,33

MÁXIMO

R$ 6,33

MÍNIMO

R$ 6,32

PUBLICIDADE

voltar ao topo

Voltar ao topo