POLÍCIA

Homem morre mais de dois meses após ser atropelado por frei em Santa Cruz

Dominicano Gustavo Trindade agora deve ir a júri popular sob a acusação de homicídio consumado

Homem morre mais de dois meses após ser atropelado por frei em Santa Cruz

Imagens mostram o momento em que Gustavo Trindade invade a calçada e atropela ladrão que havia furtado roupas da Casa Paroquial

Publicado em: 30 de julho de 2022 às 03:09
Atualizado em: 30 de julho de 2022 às 03:43

Sérgio Fleury Moraes

Ângelo Marcos dos Santos Nogueira, 40, morreu na manhã de quarta-feira, 27, na Santa Casa de Misericórdia de Santa Cruz do Rio Pardo. Ele estava internado pela segunda vez desde que foi atropelado pelo padre Gustavo Trindade dos Santos, 37, no dia 7 de maio, minutos após furtar três blusas de moletons e uma camiseta da Casa Paroquial da Igreja Matriz de São Sebastião. O religioso é réu numa ação criminal movida pelo Ministério Público do município.

Conhecido como “Anjinho”, Ângelo era dependente químico e já tinha várias passagens na polícia por pequenos furtos. Ele estava em coma desde o atropelamento, que foi flagrado por câmeras de monitoramento, e o caso virou notícia nos principais meios de comunicação do Brasil.

Ângelo passou pelas UTIs dos hospitais de Santa Cruz e Ourinhos e chegou a receber alta para continuar o tratamento em casa. Porém, seu estado de saúde se deteriorou e ele voltou a ser internado há alguns dias. Morreu na quarta-feira, 27, sem ter recobrado a plena consciência desde o acidente.

A morte do acusado pelo furto praticamente não muda a situação criminal do padre Gustavo Trindade dos Santos, que era o pároco da Igreja Matriz de São Sebastião de Santa Cruz do Rio Pardo. Acusado pelo Ministério Público por tentativa de homicídio qualificado, agora ele irá responder por homicídio consumado. A denúncia do MP, já aceita pela Justiça, pede que o frade dominicano seja levado a júri popular.

O caso aconteceu num sábado, quando o padre Gustavo havia acabado de celebrar um casamento na Igreja Matriz. Ele foi avisado por uma funcionária de um furto na Casa Paroquial, quando um ladrão teria levado três moletons e uma camiseta. Imediatamente o padre se dirigiu ao local e se deparou com um homem pulando um muro, iniciando uma perseguição com um Chevrolet Cobalt de propriedade da Diocese de Ourinhos.

O homem seguiu pela rua Alziro de Souza Santos e entrou na avenida Tiradentes. Na altura da garagem de uma loja de tintas, o padre jogou seu veículo na calçada e atropelou Ângelo Marcos dos Santos Nogueira, arrombando o portão e prensando a vítima contra um caminhão estacionado no interior. Em seguida, o padre fugiu sem prestar socorro.

A identificação do veículo só foi possível graças ao depoimento de testemunhas. Posteriormente, as investigações comandadas pelo delegado Valdir Alves de Oliveira descobriram que havia um segundo passageiro no carro do padre, um estudante da escola dominicana.

O padre Gustavo chegou a dispensar advogados de Santa Cruz que o defendiam e contratou profissionais de Ribeirão Preto. Em entrevistas a emissoras de rádio, um deles atacou o delegado e deu declarações controvertidas. Para o advogado César Augusto Moreira, o padre teria usado seu carro “em legítima defesa” e que ele seria vítima de “perseguição religiosa”.

Na semana passada, o padre trocou novamente de advogado. Seu novo defensor é Roberto Ribeiro de Almeida, de São José do Rio Preto. Gustavo só foi ouvido em junho, quando negou estar arrependido e afirmou, surpreendentemente, que o ladrão teria se jogado sobre o veículo após ignorar os gritos para parar.

A versão contrasta com as imagens das câmeras de monitoramento, a prova mais contundente de que o atropelamento foi proposital.

Ângelo Marcos dos Santos Nogueira foi sepultado na manhã de quinta-feira, 28, no cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo.

 

Comissão Dominicana de Justiça e Paz emite nota de pesar e advertência

Após a morte de Ângelo, a “Frei Bartolomeu de Las Casas”, sede dos frades dominicanos, divulgou nota de pesar, informando que o próprio frei Gustavo Trindade manifestava sua dor e seu pesar.

No mesmo dia, entretanto, a Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, da Ordem dos Pregadores com sede em Goiânia, também emitiu nota de solidariedade à família de Ângelo, mas em tom crítico.

O texto diz que o homem foi vítima de “um criminoso atropelamento provocado pelo frei Gustavo Trindade”.

De acordo com a nota, “tal tragédia ensombrece ainda mais o momento obscuro de nosso país e envergonha a Igreja como um todo, na medida em que um padre formado sob os nossos dosséis, se arvorou no direito de fazer justiça com as próprias mãos, contrariando os ensinamentos de Jesus de Nazaré, que convoca ao perdão e ao amor, ao acolhimento e à caridade – e nunca à violência”.

A Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil salienta que “tal atitude é mais um sinal do ódio que passou a fazer parte do cotidiano de muitas pessoas em nossa sociedade, que normalizaram os discursos de ‘higiene social’ que induzem à violência e à morte daqueles que são, no fundo, resultado de uma sociedade desigual”.

De acordo com o texto, a morte de Ângelo deve ser recebida por todos com pesar, “mas sobretudo como advertência para que tais discursos e atitudes sejam banidos em nosso meio onde quer que eles apareçam — inclusive e principalmente dentro das igrejas”.

Ao defender que o padre assuma sua responsabilidade diante da Justiça, a nota da comissão conclui: “O antídoto contra tais comportamentos tão intoleráveis é o estudo sério do Evangelho, da tradição cristã de serviço à causa da justiça, da paz e dos direitos humanos, a leitura e interpretação eficazes da realidade e, sobretudo, o serviço social aos menos favorecidos. Que este trágico episódio seja a chance de renovação desses compromissos”.  

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