SOCIEDADE

A dor de uma mãe à procura de um filho

Ana Souza diz que caso de doação aconteceu há mais de 30 anos

A dor de uma mãe à procura de um filho

SAUDADE E DOR — Ana Maria contempla todos os dias a única fotografia do filho David

Publicado em: 20 de março de 2021 às 05:55
Atualizado em: 30 de março de 2021 às 08:56

Sérgio Fleury Moraes

Em cima da velha cômoda na minúscula casa da Chácara Peixe, ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, está a única foto do bebê que Ana Maria Souza, 57, deu à luz há 34 anos. A mulher que mora sozinha, trabalha no serviço de limpeza e acorda todos os dias às 5h, diz que sofre em silêncio há muito tempo, mas agora resolveu tentar encontrar o filho que, admite, chegou a entregar para adoção e se arrependeu minutos depois. Entretanto, este curto espaço de tempo, segundo o que conta, foi o suficiente para o bebê desaparecer.

O fato aconteceu há mais de três décadas e desde então, segundo Ana Maria, a atormenta nos pensamentos. Ela diz que o filho nasceu no dia 28 de janeiro, provavelmente em 1987, e foi registrado como David Alex de Souza. Na época, ela passava por necessidades financeiras, morava com um homem viciado em jogos e fazia a faxina no salão, no sobrado da praça Leônidas Camarinha, em frente ao Centro Cultural Special Dog. Era a responsável também pelos lanches dos jogadores.

Segundo Ana Maria, foram tempos difíceis e a gravidez não havia sido planejada. Foi uma gestação complicada e o bebê passou a ter problemas de saúde nos meses seguintes. “Eu precisava levá-lo constantemente para o hospital. Tinha infecção urinária e problemas no intestino”, conta a mãe.

O filho David

 

Ana não possuía salário fixo. O que ganhava, mal dava para o leite do filho, fraldas, mamadeira, remédios ou roupas. “Eu não tinha condições de cuidar do meu filho. Quando chegava ao hospital, ficava triste quando pessoas que trabalhavam na enfermaria diziam que eu era uma mãe desmazelada porque meu filho estava sempre sujo. Mas é que ele fazia cocô a todo instante porque tinha problemas. O cheiro era muito forte”, disse.

A cena mais marcante da vida de Ana Maria foi no dia em que resolveu entregar seu filho para doação. E ela o fez num local totalmente inadequado: a própria Santa Casa de Misericórdia. Foi um ato de desespero e, ao mesmo tempo de amor. “Eu achava que meu filho poderia morrer e fui até o hospital dizendo que estava entregando o bebê para adoção. Ele tinha uns nove meses, mas compreendeu tudo, me puxou pela blusa e disse ‘mamãe’. Achei que ele poderia sobreviver com outra família, mas deixei a Santa Casa sem chão”, lembrou.

No entanto, antes de completar um quarteirão caminhando lentamente, o remorso tomou conta da mulher. “Fiquei com o coração apertado e chorei muito. Decidi voltar e pegar meu filho de volta”, contou.

No entanto, segundo o relato de Ana Maria, as atendentes da época disseram que era tarde e que o bebê já havia sido encaminhado. “Eu fiquei desesperada, pois claro que não tinha dado tempo para isto. Foram só alguns minutos, mas nunca mais vi meu filho”, diz, aos prantos.

Ana admite que na época não levou o caso à polícia ou às autoridades responsáveis pela Infância e Juventude. “Eu tinha medo e não sabia muita coisa”, explicou. No entanto, anos depois ela chegou a ir até o cartório e perguntar pelo registro da criança. “Eles encontraram, mas estava escrito na pasta que era proibido qualquer informação”, disse. Ela sabe que a criança hoje deve ter outro nome.

Além disso, ela conta que sempre buscou informações na Santa Casa, mas as pessoas desconversavam. Uma das funcionárias da época, segundo Ana, hoje está no asilo e sofre de Alzheimer. Uma outra não trabalha mais no hospital e tinha o apelido de “mãe”.

Mas a doméstica nunca perdeu a esperança de rever seu primogênito, já que ela chegou a retomar o relacionamento com José Carlos Moreira, hoje já falecido, e teve mais dois filhos com aquele homem — um casal. Nos últimos dias, apelou às redes sociais e gravou um vídeo emocionado. “Por fora eu sou uma coisa e brinco com todo mundo. Por dentro, sou preta igual a um carvão de lenha. Sofro muito”, afirmou.

Ana garante que nunca pensou em ter o filho de volta ou incomodar a família que o adotou.

“Na verdade, eu peço a Deus que abençoe esta família. Que a mãe adotiva continue no seu papel e eu queria beijar a mão dela por ter criado meu filho. Mas eu preciso saber se ele está bem, se se casou, se eu só avó. Só isto”, afirmou.

Algumas amigas da doméstica têm ajudado na sua luta diária para receber informações sobre o destino da criança. São buscas ali e procuras pela internet. “Não quero morrer antes de ver como está meu filho. Peço isto todos os dias a Nossa Senhora Aparecida”, afirma Ana Maria, segurando com força a imagem da santa católica.

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