SOCIEDADE

De família humilde e bolsista, Pedro vai cursar Engenharia Elétrica na Federal

Pedro mora em Espírito Santo do Turvo e vai cursar Engenharia Elétrica

De família humilde e bolsista, Pedro vai cursar Engenharia Elétrica na Federal

Pedro ao lado da mãe Marlene (Foto: arquivo pessoal)

Publicado em: 29 de maio de 2021 às 00:39
Atualizado em: 29 de maio de 2021 às 00:45

Sérgio Fleury Moraes

A história do menino Pedro Augusto Barbosa de Medeiros, hoje com 18 anos, poderia ser diferente caso não houvesse o “faro” da própria família e de professores para perceber sua inteligência incomum. Ele veio da Paraíba com a mãe Marlene em 2012, para se juntar ao pai, Agnelo, que havia arrumado emprego na agricultura em Espírito Santo do Turvo. Era cortador de cana e colhedor de laranja. As dificuldades, porém, não foram obstáculos para o estudo do jovem. E valeu a pena. A partir de agosto, Pedro vai cursar engenharia elétrica na Universidade Federal de São Carlos.

Natural de Princesa Isabel-PB, o garoto já sabia ler razoavelmente bem quando entrou no Ensino Fundamental, numa escola da zona rural. A dificuldade maior, na verdade, é que Pedro estava sempre à frente dos colegas, já que tinha o costume de estudar muito, fora do horário das aulas. Isto causava problemas com a classe.

Mas Pedro sempre teve o apoio dos pais e de professores, que o incentivavam cada vez mais por perceberem seu talento. Aliás, a mãe Marlene também é professora, embora trabalhasse várias vezes na lavoura.

O problema é que aquela região da Paraíba é extremamente pobre e não oferece muitas alternativas de emprego. Assim, Agnelo precisou se aventurar em São Paulo até começar a trabalhar em Espírito Santo do Turvo. A lavoura paulista, enfim, sempre foi e continua sendo o caminho natural de nordestinos.

Somente em 2012 é que Agnelo conseguiu alugar uma casa em Espírito Santo. Era a hora, então, de chamar a mulher e o filho. Pedro tinha nove anos quando chegou ao novo lar. “Meus pais, principalmente minha mãe professora, sempre souberam agir diante do meu gosto para aprender de tudo”, destaca o estudante.

Ao lado do pai Angelo

Pedro, então, começou a cursar o 4º ano do Fundamental na escola “Antônio Gonçalves das Neves”. Foi ali que ele conheceu a professora Terezinha de Fátima Honorato Barros, que desde o início se encantou com o garoto. “Eu não dei aulas para ele, mas o conheci no ambiente escolar e me aproximei dele. Na verdade, o Pedro chamava a atenção porque ela quieto e estudava muito”, contou Fátima. Ela também fez amizade com a mãe do menino.

O estudante explicou que nunca teve problemas com os colegas, mas preferia estudar ao invés de sair no intervalo das aulas. A reclamação dele era quanto ao barulho, que às vezes o impedia de prestar atenção no que dizia o professor. Um dia, Pedro chegou em casa chorando e disse que não queria mais ir à escola.

Fátima se preocupou e conversou com a professora dele. A resposta confirmou o que todos percebiam. Pedro precisava ingressar numa escola particular, com ensino mais aprofundado. Mas como, com a pequena renda da família? Uma bolsa de estudos seria uma alternativa.

Na primeira prova que Pedro prestou para conseguir uma bolsa, ele foi o primeiro colocado. Porém, a bolsa da escola era parcial e a família não tinha condições financeiras. Foi aí que Fátima Honorato resolveu conversar com a professora Lucila Scudeler, da Oapec, que por sua vez levou o assunto à diretora pedagógica Keila Giovana Locali Dutra Pimentel.

Pedro ganhou uma bolsa de 100%, incluindo uniformes, livros e demais materiais. Não era fácil, pois viajava todo dia em ônibus da prefeitura de Espírito Santo do Turvo. Mas o ensino e o incentivo mudaram completamente na escola “José Cezário Pimentel”, do grupo Oapec. “Sou muito grato a esta escola. O ambiente é bem mais organizado e não há barulho”, disse o estudante.

Fátima Honorato conta que Pedro levou para casa a apostila e, quando chegou para o primeiro dia de aula, já acompanhava os colegas, uma vez que entrou na escola no meio do ano. O aluno começou a se destacar com notas máximas — especialmente na área de exatas — e mudou até os seus hábitos. “Não fiquei mais estudando no intervalo, pois percebi que a socialização é muito importante nesta fase da vida. Passei a estudar no período da tarde, após deixar a escola”, explicou Pedro.

Numa excursão da escola Oapec, Pedro conheceu a Universidade Federal de São Carlos, quando a turma visitou uma exposição de ciências. Ficou tão encantado que decidiu: aquele seria seu caminho. Na verdade, cada estudante arcou com a despesa da excursão, mas a classe decidiu se cotizar para pagar o custo do amigo.

Pedro (agachado à direita, de óculos escuros) e sua turma durante festa de formatura da escola Oapec

Pedro Augusto se formou na escola Oapec no ano passado. Na missa no Santuário Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a classe o escolheu para fazer o discurso de formatura, com o público — reduzido — indo às lágrimas. No ano passado, prestou o Enem e foi aprovado. No Sisu, escolheu a Universidade Federal de São Carlos.

Claro que o estudante está ansioso para iniciar os estudos universitários, mas a pandemia exige paciência. “Ainda não me mudei e continuo com meus pais. A previsão é o início das aulas em agosto”, explicou.

Keila Pimentel, diretora pedagógica da escola Oapec “José Cesário Pimentel”, disse que o grupo educacional sempre forneceu mais bolsas de estudos do que está previsto num convênio com o município, exatamente quando percebe casos como o jovem de Espírito Santo do Turvo ou quando a família é muito carente. “O Pedro foi um exemplo de inteligência que, sem um incentivo, poderia passar despercebida”, afirmou.

Fátima Honorato, que até hoje mantém contato com a família de Pedro, disse que se emocionou quando foi agradecer a Keila a bolsa de estudo. “Ela me disse que a escola é que estava agradecida. Afinal, ela disse, eu entreguei a eles uma joia rara”. 

 

Pedro desmontava os aparelhos da mãe quando ainda era criança

Professora que também trabalhou na lavoura de laranja quando não encontrava vagas em escolas, Marlene Barbosa de Medeiros disse que não foi surpresa o filho entrar uma universidade para cursar engenharia elétrica. “Desde os quatro anos, ele vivia desmontando os eletrodomésticos em casa. Muitas vezes eu saía e, ao voltar para casa, encontrava ventilador, rádio e até televisão desmontados”, conta, rindo.

Com o tempo, porém, Marlene disse que Pedro passou a ser o eletricista da casa. “Ele consertava tudo ou, então, pegava um motor de um equipamento para colocar em outro. Nós percebemos logo que ele tinha uma inteligência fora do comum”, diz a mãe, orgulhosa.

Pedro confirma, mas ressalva que sempre foi “muito curioso” com os eletrodomésticos. “Meus pais, na verdade, nunca me deram bronca. Entendiam que meu interesse poderia se expandir. Mas como eu não tinha as ferramentas adequadas, acabava estragando os aparelhos”, conta. E lá se iam relógios, rádios velhos ou aqueles gravadores antigos que usavam fita cassete.

O futuro universitário revelou que sempre teve uma queda pela eletricidade. “É uma força invisível e indetectável que consegue fazer tudo funcionar como uma mágica”, diz. Quando cresceu, aliás, ele começou a estudar sobre física elétrica.

Pedro também destaca que resolveu cursar engenharia elétrica não “porque é legal”, mas pelo fato de a área nunca parar de crescer. “Tudo hoje usa eletricidade”, disse.    

 

PUBLICIDADE

SANTA CRUZ DO RIO PARDO

Previsão do tempo para: Quinta

Períodos nublados
22ºC máx
12ºC min

Durante todo o dia Céu limpo

COMPRA

R$ 5,05

VENDA

R$ 5,06

MÁXIMO

R$ 5,06

MÍNIMO

R$ 5,06

COMPRA

R$ 5,29

VENDA

R$ 5,62

MÁXIMO

R$ 5,46

MÍNIMO

R$ 5,46

COMPRA

R$ 6,06

VENDA

R$ 6,07

MÁXIMO

R$ 6,07

MÍNIMO

R$ 6,06

PUBLICIDADE

voltar ao topo

Voltar ao topo