SOCIEDADE

Dona de si mesma: Aninha quebrou tabus em Ipaussu

Primeira mulher eleita para comandar Câmara de Ipaussu, acredita numa política mais plural

Dona de si mesma: Aninha quebrou tabus em Ipaussu

A presidente da Câmara de Ipaussu Aninha Candido, 36, durante entrevista em seu gabinete

Publicado em: 08 de março de 2021 às 08:19
Atualizado em: 29 de março de 2021 às 15:57

André Fleury Moraes

Uma maré tomou conta de Ipaussu no ano passado e nadou a favor de Ana Candido. Numa eleição histórica, a ex-secretária e ex-presidente do Fundo Social conquistou os votos de quase 13% dos eleitores do município, venceu nas urnas com o maior percentual do Estado — um dos maiores do País —, puxou cadeiras para a Câmara e, se não bastasse, foi a escolhida para presidir o Legislativo para os próximos dois anos por unanimidade.

Aos 36 anos e dona de um carisma ímpar, não entrou para a política de paraquedas. Ex-primeira-dama de Ipaussu, foi casada com o prefeito Sergio Guidio (PSDB), de quem se separou há alguns anos — eles seguem amigos e aliados políticos.

Ana acompanhou de perto as últimas eleições e sempre soube lidar com divergências dentro e fora da administração. “Sou o meio termo. Não tomo decisões por impulso e aconselho aqueles que estão perto de mim a fazer o mesmo”, diz. Hoje, é a única mulher vereadora de Ipaussu e quebrou um tabu ao ser também a primeira mulher a presidir a Casa.

Ela passou por um período conturbado durante a separação. Sofreu ataques pessoais, sobretudo nas redes sociais, que voltaram à tona durante as eleições de novembro. Foi procurada até por grupos adversários para disputar a prefeitura contra Guidio, mas recusou todas as ofertas.

“Acredito no trabalho do Serginho. E, antes das eleições, conversamos muito sobre isso”, conta. Os dois se dão muito bem, moram na mesma rua e, pelo trabalho dos últimos anos, decidiram que seguiriam juntos na política.

Aninha, como é popularmente conhecida, enxergava a política como algo ruim, repleto de escândalos. Sua concepção mudou quando o ex-marido se candidatou a vice em 2012. “A política, desde que bem exercida, transforma vidas”, aprendeu.

A possibilidade de se candidatar a vereadora já era sondada em Ipaussu desde 2019. Mas ela tinha receios.

Foi um deputado que a encorajou. “A gente tem medo de ser vidraça, ficar muito exposto”, admitiu ao parlamentar — cujo nome não citou — durante uma conversa. “A política é desse jeito porque os bons se acovardam, exatamente o que você está fazendo agora”, respondeu ele. A declaração mexeu com Aninha, que se entregou de vez à causa depois dessa conversa.

A candidatura de Aninha significou também uma união das mulheres de Ipaussu. “Posso dizer que 80% dos meus votos foram femininos”, diz. Sua eleição se tornou um símbolo de independência feminina na cidade.

Madura, gosta de filmes — o que mais lhe marcou foi “O último milagre da cela 7”. Boa leitora, está terminando “Especialista em Pessoas”, de Tiago Brunet, sobre relações humanas. Agora quer aplicar o que aprendeu: na presidência, chegou com uma proposta diferente da legislatura anterior.

“Nos últimos anos, principalmente em 2020, ano eleitoral, tivemos muito embate entre o Executivo e a Câmara. Meu papel aqui também é de apaziguar a relação. Quem perdia era a cidade, e o povo percebeu isso”, explica. Os novos vereadores acataram a mudança.

Além disso, diz que tem se dedicado também a dar mais transparência aos processos legislativos. Ela recebe constantemente perguntas de munícipes sobre o significado de alguns projetos mais técnicos, como suplementação de verba, e Aninha explica detalhe por detalhe.

Em razão da pandemia, que impede a presença de plateia na Câmara, Aninha vai implementar a “Tribuna Virtual”. Diretamente do site da Câmara, o cidadão pode registrar suas queixas e elas serão analisadas na sessão seguinte. Até vídeos poderão ser exibidos.

Num futuro próximo, ela pretende criar um centro de parto humanizado no município. “Vamos valorizar o parto natural. A gestante terá uma sala própria, com banheira, água quente e acompanhamento médico”, ressalta.

Aninha não levanta o tom de voz mesmo nos momentos mais tensos. “Não faz parte de meu perfil”, diz. Por outro lado, já presenciou situações em que foi obrigada a se impor. “Preciso fazer isso às vezes. Senão eles passam por cima”, diz. Paciente, sabe contornar os impasses com elegância e originalidade.

Embora tenha se dedicado à política nos últimos anos, a maior parte de sua vida foi dentro da iniciativa privada. Trabalhava numa madeireira — começou como telefonista aos 15 anos e, poucos anos depois, já gerenciava toda a produção e logística.

Também na empresa era a única mulher. E descobriu ali um perfil de liderança que a acompanharia para o resto da vida. “Aprendi a lidar com muitas situações e a trabalhar em grupo”, explica.

Nunca pediu permissão para tirar do papel seus projetos quando esteve à frente da secretaria ou do Fundo Social. E nem teria por quê, já que grande parte de seu apoio popular vem também das bandeiras que levantou em defesa de direitos fundamentais. Hoje, sua principal atenção está voltada às vacinas e ao combate à pandemia.

Mãe de um casal de filhos, ela consegue conciliar o trabalho em casa com a presidência da Câmara. Sempre presente, ajuda os pequenos nas lições de casa e os auxilia a manter uma rotina saudável, sobretudo durante a pandemia. “Sou uma mãezona. Não abro mão disso por nada”, afirma.

A caçula Emanuela, por sinal, costuma acompanhar a mãe também durante as sessões da Câmara. “Ela gosta de ver os trabalhos”, explica. Quando voltam para casa, Aninha pergunta à filha sobre aquilo que foi discutido na sessão. E Emanuela cita praticamente todos os projetos. O mais velho, Sergio Guidio Neto, prefere o videogame.

Aninha fica com o coração cortado quando ouve a decepção dos filhos sobre não poder comemorar o aniversário pelo segundo ano consecutivo, mas consegue contornar a situação. “É muito perigoso, mas logo vai passar”, responde a eles.

Aninha compreende a decepção dos filhos. “Gosto de trabalhar com gente. E a pandemia impossibilita a gente de tudo isso”, diz. À noite, em alguns dias, aprecia uma taça de vinho para aliviar a tensão do cotidiano. Também pratica musculação.

Ana Cândido toma todos os cuidados possíveis, mas tem ciência de que, como presidente da Câmara e liderança política na cidade, não consegue se isolar completamente.

E isto acontece principalmente por causa das demandas. Conheceu e ficou conhecida pelos trabalhos sociais, pelos quais ajudou muita gente. Embora comande um outro Poder, o Legislativo, Aninha não perdeu o sentimento de compaixão e é capaz de passar horas na Câmara. Não sai da cadeira antes de atender a última pessoa da fila.

Reconhecida pelo trabalho, também não deixa de auxiliar os trabalhos da pasta social em Ipaussu. O atual secretário, Gláucio Rosin, é grande amigo de Aninha e os dois sempre buscam soluções em conjunto quando necessário.

Há duas semanas, no final de fevereiro, a presidente da Câmara foi até Brasília para articular emendas e garantir apoio no consórcio público dos municípios para a compra de vacinas. E percebeu um tratamento que não vivencia em Ipaussu. “Você anda pelos corredores do Congresso e só vê homens, todos de terno. São poucas as mulheres. E às vezes as pessoas te subestimam. Uma vereadora de Ipaussu em Brasília, não é algo comum”, afirma.

Aninha diz ter se sentido mais acolhida nos gabinetes das deputadas ou quando era atendida por alguma assessora. “Aí estava em casa”, brinca. Apesar do ambiente desconhecido, diz que a recepção foi ótima e que suas demandas foram atendidas.

Ela não fala muito sobre futuro — diz que a prioridade é o agora — mas não esconde o fato de que seu nome já é ventilado para as eleições de 2024. Caso concorra e vença, pode atingir um segundo marco histórico em Ipaussu: ser a primeira mulher a comandar a cidade. A ideia gera ainda mais expectativa entre seus eleitores porque o tucano ‘Serginho’ não poderá disputar o próximo pleito. Um pouco mais à frente, diz ter ouvido de simpatizantes até para que voe mais alto, para São Paulo ou Brasília. “Torcida, tem”, garante. 

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