SOCIEDADE

Morre aos 101 anos o mais antigo policial de Santa Cruz

Manoel José Santana garantia que tinha mais de 101 anos e deixou muitas histórias

Morre aos 101 anos o mais antigo policial de Santa Cruz

Em foto de 2019, Manoel Santana mostra, orgulhoso, a carteira de policial militar de Santa Cruz

Publicado em: 20 de março de 2021 às 06:04
Atualizado em: 29 de março de 2021 às 09:22

Sérgio Fleury Moraes

Ele se aposentou como sargento da Polícia Militar, mas começou sua trajetória em segurança na antiga Força Pública do Estado de São Paulo, da qual foi provavelmente o último soldado da corporação em Santa Cruz do Rio Pardo. Manoel José Santana se aposentou em 1973 como policial militar e foi instrutor de autoescola por muitos anos. Ele renovou sua CNH há três anos e ainda demonstrava vigor até o início do ano. O “Sargento Santana”, como era conhecido, morreu na terça-feira, 16, oficialmente aos 101 anos, já que ele e a própria família garantiam que a idade era ainda mais avançada, já que há um século os registros de nascimentos eram feitos com atraso.

Semanas antes, Manoel Santana recebeu uma série de homenagens, inclusive da Polícia Militar do município, pelos anos de serviço. Sergipano, nasceu em 1919, quando Tonico Lista era o prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo. Trabalhou em lavouras na Bahia, junto com imigrantes japoneses, com quem aprendeu a arte da disciplina. Aos 17 anos, se aventurou para o interior de São Paulo.

Santana entrou na antiga Força Pública em 1939, dois meses após o início da Segunda Guerra Mundial. Serviu na corporação em Quatá antes de ser transferido para Santa Cruz do Rio Pardo. Adorava o trabalho, mesmo sendo de alto risco. “Nunca tive medo de ninguém. Se era para prender, é isto o que eu fazia – e bem. Prendi ladrão pra caramba”, disse ao DEBATE, numa entrevista em 2018.

MEMÓRIA — Nos tempos da velha “Força Pública”, Santana (à direita) está ao lado do antigo colega de profissão “Chiquinho”

 

Em 1942, quando o Brasil estava ingressando na Segunda Guerra Mundial, Santana era policial em Quatá e foi convocado para ser incorporado à FEB — Força Expedicionária Brasileira — e lutar contra o nazifascismo na Europa. Chegou a realizar alguns treinamentos, mas na véspera do embarque a Itália e a Alemanha se renderam. Segundo ele, ouvir a notícia do fim da guerra no rádio foi uma das poucas vezes em que o “durão” Santana chorou.

Santana viveu uma época em que as diligências policiais eram feitas a pé, pois as cidades pequenas sequer possuíam viaturas. E foi caminhando, durante uma de suas rondas, que o policial conseguiu salvar a vida do deputado estadual Leônidas Camarinha, num episódio que aconteceu nos anos 1950. Ele contou esta incrível história em 2019, numa nova entrevista ao jornal.

Numa tarde, ele percebeu que um homem aparentemente estaria rondando a casa de Lulu Camarinha, na rua Marechal Bitencourt. Desconfiado, resolveu levar o indivíduo para a delegacia, onde descobriu-se que ele estava armado. Foi, então, que a polícia desvendou uma trama para assassinar o deputado de Santa Cruz do Rio Pardo. Preso, o suposto atirador foi transferido para Marília. “Nunca mais tive notícias dele”, contou Santana.

Como policial em Santa Cruz, Manoel era o preferido do juiz da comarca para fazer a escolta das transferências de presos. Orgulhoso, ele sempre disse que bandidos o temiam.

Admirador de Getúlio Vargas, Santana cumprimentou outro ídolo, o brigadeiro Eduardo Gomes, na casa de Leônidas Camarinha e ainda fez a segurança de Juscelino Kubitschek em Santa Cruz do Rio Pardo, quando JK visitou a cidade em 1955.

O aposentado dizia não ter “lado político”, lembrando que foi amigo de Lúcio Casanova e Leônidas Camarinha, dois grandes rivais nas urnas na década de 1960. Porém, por mais que evitasse falar, sua ideologia era clara, uma vez que suas referências eram, como dizia, o ex-delegado Sérgio Paranhos Fleury — o líder do “esquadrão da morte”, grupo paramilitar do regime militar — e Erasmo Dias, um dos símbolos da ditadura implantada a partir de 1964.

Em 1970, quando houve a unificação da Força Pública e da Guarda Civil de São Paulo, sob o batismo de Polícia Militar, Manoel Santana passou a trabalhar no quartel. Aposentou-se em 1973, recebendo uma deferência especial do Estado em agradecimento pelo “excepcional comportamento”.

Até há alguns anos, ainda dirigia seu Fusca amarelo pelas ruas de Santa Cruz. Vivia dizendo que ainda iria viajar “com a patroa”, mas a saúde precária já não permitia. O homem que tinha entre 101 e 103 anos morreu na noite de terça-feira, 16. Manoel José Santana deixou a mulher Maria Sachete Menegazzo e a filha Marlene Fonseca Rodrigues. O mais antigo policial vivo de São Paulo foi sepultado no dia seguinte no Cemitério da Saudade.  

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