‘Tratoraço’ foi às ruas de S. Cruz mesmo após recuo do governador Doria

Tratores desfilam pelo centro de Santa Cruz, em protesto contra aumento de impostos

Centenas de veículos trafegaram pelas ruas do município no protesto conhecido como ‘Tratoraço’; carros de som, apoio popular e críticas ao governo e deputados marcaram protesto

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Começou a ser planejado em cima da hora, com menos de uma semana de antecedência, e conseguiu mobilizar centenas de pessoas. O ‘tratoraço’, como foi chamado, reuniu agricultores e munícipes de várias classes trabalhadoras para protestar contra a redução de incentivos fiscais decretada pelo governador João Doria (PSDB).

Segundo decreto do governo estadual, alimentos, remédios e outros produtos — como insumos agrícolas — teriam um aumento na alíquota do ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços).

Protesto começou na rodovia SP-225 e percorreu a avenida Clementino Gonçalves e o centro de Santa Cruz

Na noite de quarta-feira, 7, Doria recuou de algumas medidas e declarou que suspenderia os efeitos do ajuste fiscal sobre alimentos e medicamentos. A decisão se deu após pressão sobretudo do agronegócio paulista.

Segundo entidades que representam o setor, a alíquota adicional sobre os produtos prejudicaria principalmente os mais pobres, já que o valor seria repassado ao consumidor final.

Mesmo ante o recuo, representantes da classe optaram por manter o ‘tratoraço’. Nota da Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo) afirmou que o governo “optou pelo caminho certo” ao suspender as cobranças sobre alguns setores, mas que outros haviam ficado de fora, como energia elétrica, leite pasteurizado e hortifrutigranjeiros.

As mobilizações em Santa Cruz do Rio Pardo começaram antes mesmo das 7h, no final da avenida Coronel Clementino Gonçalves, próximo ao trecho de acesso à rodovia Cabral Rennó. Moradores chegavam a todo momento para se juntar ao ato.

Faixa de protesto questiona o deputado Ricardo Madalena, que votou a favor do ajuste fiscal
Vereador Carlos Eduardo Gonçalves acompanhou o protesto

Com centenas de veículos entre carros, caminhões e tratores, a manifestação desceu a Clementino Gonçalves, passou pela Carlos Rios, trafegou pela avenida Tiradentes e também percorreu as ruas do comércio.

Um carro de som contava com um locutor em cima do veículo que fazia críticas ao governador Doria, enaltecia o agronegócio e chamava o deputado estadual Ricardo Madalena (PL) de “traidor”. Uma cerealista chegou a questionar o parlamentar com uma faixa pendurada em uma carreta: “Por que você votou a favor do ICMS?”.

Entidades e empresas ligadas ao agronegócio apoiaram o “tratoraço”
Vereador Paulo Pinhata (PTB)

Madalena votou favoravelmente à reforma administrativa proposta pelo governo na Assembleia Legislativa de São Paulo. Um dos pontos da reforma autorizava Doria a promover ajuste fiscal no Estado através de decretos.

Segundo o deputado, houve falta de comunicação entre o governo e os setores afetados, mas o ajuste fiscal é necessário para cobrir o rombo deixado pela pandemia

Três vereadores marcaram presença no ato: Carlos Eduardo Gonçalves (PSB), o “Duzão”, Juninho Souza (Republicanos) e Paulo Pinhata (PTB).

Para Juninho, o agronegócio paulista “vem sofrendo com cargas tributárias impostas pelo governo”. “O povo é a voz superior em qualquer lugar do Brasil, e ele se beneficia quando se une”, disse.

O vereador “Duzão” afirmou que a manifestação foi fundamental para o andar da democracia e disse que, apesar do recuo de Doria sobre alguns pontos do decreto, ainda havia medidas negativas.

Carlos Eduardo também disse que os agricultores têm dificuldades no trabalho e que a manifestação pode ter efeitos ainda melhores no futuro. “O povo é uma pedra no sapato”, ressaltou.

Paulo Pinhata (PTB) fez duras críticas ao aumento na alíquota de ICMS e disse que o custo final afetaria os menos favorecidos. “Vai prejudicar o pobre. Eu sou representante da zona rural, que sempre tem que pagar a conta. Mas dessa vez vai ser diferente”, afirmou. “O mundo agro está unido”.

Pinhata disse também que a postura de Madalena ao votar a favor do projeto que liberava o ajuste fiscal através de decretos foi “vergonhosa”. O vereador celebrou a união dos agricultores e afirmou que ela deve gerar ainda mais prosperidade no setor.

Diretor do Sindicato Rural de Santa Cruz do Rio Pardo, Antônio Consalter afirma que, apesar do recuo de Doria, “o setor quer mostrar à população os efeitos que o aumento na alíquota causaria”.

Ele também diz que faltou diálogo com agricultores por parte do governo paulista.

 

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  • Publicado na edição impressa de 10 de janeiro de 2020