ECONOMIA

Hoje já não tem mais espetáculo

Pandemia proibiu espetáculos, e circo ficou “preso” no recinto da Expopardo

Hoje já não tem mais espetáculo

Neuvir na janela do ônibus que há um ano é sua casa

Publicado em: 27 de março de 2021 às 05:14
Atualizado em: 30 de março de 2021 às 11:54

Sérgio Fleury Moraes

A longa restrição às atividades profissionais no Brasil já provocou crise no comércio, nas indústrias que estão vendendo menos e o desemprego avança na economia sob recessão. Mas nenhuma delas se compara ao sofrimento dos artistas circenses, cujos espetáculos estão suspensos há mais de um ano. Em Santa Cruz do Rio Pardo, um pequeno circo está “preso” no recinto da Expopardo desde fevereiro do ano passado, sem condições de retomar as apresentações e até de deixar a cidade por falta de dinheiro.

O “Los Tatsch” ergueu a lona em fevereiro do ano passado, apostando em depoimentos de outras trupes, segundo as quais Santa Cruz proporcionava um bom público e era uma cidade com uma população diferenciada. Claro que houve problemas nos dois primeiros — e únicos — espetáculos, já que a “Festa do Peão” tinha terminado havia poucos dias e houve uma sequência de leilões beneficentes no recinto da Expopardo. Mas as semanas seguintes seriam, segundo avaliações, alvissareiras.

O circo "Los Tatsch", em Santa Cruz do Rio Pardo

Foi quando a pandemia recrudesceu e tudo fechou. Desde então, com apenas dois espetáculos, o circo ficou preso numa área do recinto da Expopardo, sem condições de apresentar espetáculos na pandemia. A situação é a mesma de centenas de circos estacionados em inúmeras cidades brasileiras.

O circo “Los Tatsch” faz parte de um grupo familiar que é proprietário de mais nove trupes espalhadas pelo País. São irmãos, primos, pais e avós que estão na estrada há décadas, levando entretenimento a milhões de pessoas. O circo do grupo mais longe está estacionado há vários meses no Rio Grande do Sul.

Quando houve a paralisação, 18 artistas estavam no circo de Santa Cruz. Foi aí que o grupo experimentou a solidariedade da população santa-cruzense. Diariamente, chegavam mantimentos e doações de todos os tipos. A prefeitura autorizou a permanência no terreno, com água e luz gratuitos. Entretanto, vários meses se passaram e as doações ficaram cada vez mais reduzidas, talvez porque a própria população começou a sentir os efeitos da pandemia no bolso.

Hoje, uma pastoral católica ainda fornece marmitas, mas não todos os dias, já que há outras famílias necessitadas. “Dez vez em quando aparece alguém que traz alguma coisa”, conta Neuvir Camargo, 43, o locutor oficial do circo que também comanda a parte empresarial.

Há mais de um ano em Santa Cruz, Leonilda e Neuvir vivem de doações e empréstimos de amigos (Foto: André Fleury)

“É um drama que atinge o grupo todo. Um circo de um parente ficou feliz porque Curitiba, no Paraná, autorizou o retorno com 50% do público. Mas nem deu para realizar espetáculo e tudo fechou novamente. Um outro, no Rio Grande do Sul, também conseguiu fazer algumas apresentações, mas entrou a fase roxa e houve nova paralisação”, afirmou.

O drama não se resume à falta de alimentos. Mesmo parado, o circo tem compromissos mensais, como honrar um contrato feito com um engenheiro e ainda arcar com a prestação de uma caminhonete, em torno de R$ 1,6 mil. E como pagar? “Estamos recorrendo a amigos e parentes. É um problema sério, porque a gente sempre foi pontual nos pagamentos”, diz Leonilda Tatsch, 52, a “Kika”, mulher de Neuvir e cujo sobrenome batizou o circo.

“Cozinheira de mão cheia”, como elogia Neuvir, Leonilda atua no picadeiro como palhaça e ainda faz apresentações de “lira” — um show em que ela fica pendurada numa argola e faz malabarismos. “Tem dia que só temos arroz e feijão”, diz. “Mas agradecemos a Deus por isso, pois estamos nos alimentandos”, resume. Leonilda diz que sente falta de apreciar uma mandioca ou uma salada de verduras frescas.

Na verdade, todo integrante de circo é uma espécie de “coringa”, participando da montagem, atuando no próprio espetáculo e ainda ajudando na venda de pipoca ou algodão doce. Em Santa Cruz, um dos amigos mais próximos do circo é o locutor “Compadre Paulão”, da rádio Difusora. E não é por acaso, já que “Paulão” já foi dono de um circo.

Neuvir conta que, mesmo que o circo quisesse partir, não haveria condições. Além da falta de recursos, existe a proibição de outros municípios para receber a trupe. Para o Paraná, então, onde mora vários parentes, nem pensar. “As autoridades municipais não aceitam o circo. É que estamos em São Paulo, onde a pandemia está numa situação mais agravada”, explicou.

Os artistas receberam há algum tempo uma ajuda de R$ 6 mil por intermédio da “Lei Aldir Blanc”, mas o dinheiro só poderia ser aplicado na compra de produtos exclusivos para o circo. “Não podíamos comprar comida, por exemplo. Então, adquirimos cordas, lonas e outros produtos para quando o circo voltar”, contou Neuvir. A contrapartida só será cumprida após a pandemia, em forma de apresentações gratuitas para crianças da Apae e outras escolas de Santa Cruz do Rio Pardo.

Mas eles também se inscreveram em outra etapa da mesma lei, na esperança de conseguir também um auxílio emergencial para os artistas. Neste caso, o dinheiro poderia ser utilizado para a sobrevivência do grupo. Porém, não saiu.

Leonilda tem um sotaque diferente, uma mistura de mãe paranaense com pai gaúcho. Ela diz que sequer pode treinar os números de acrobacia na “lira” porque o circo foi totalmente desmontado. “Eu faço uma caminhada forte ao redor do circo, mas vou treinar assim que tudo voltar ao normal. Na verdade, nunca tive medo, mas cuidado e responsabilidade faz parte do número”, afirma.

A “família” aumentou nos últimos meses, desde que o casal ficou sozinho. “Bolinha”, “Tigre” e “Faísca” são cachorros que foram abandonados na Expopardo e se aproximaram do circo. Acabaram sendo adotados. Assim, o casal circense passou a ter a ajuda de uma ONG de proteção aos animais, que cede ração e até providenciou a castração dos animais. “Quando falta ração, a gente divide a nossa comida”, explica Leonilda.

Neuvir resume a situação dos artistas como uma tristeza interior. “A gente ainda ri e procura transmitir alegria, pois estávamos acostumados a fazer o povo dar risada. Hoje é difícil, pois dentro de nós há muita tristeza e angústia. Tem noite que eu choro pensando nesta situação”, diz, emocionado.

Quando havia espetáculo, era comum os palhaços, como Leonilda, serem chamados para tirar fotos ao lado de crianças ou receber cartinhas amorosas delas. “A gente está em dificuldade, mas para as famílias que estão perdendo parentes na pandemia o quadro é ainda mais triste”, garante a artista do picadeiro. 

 

* Colaborou Toko Degaspari

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