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Frei Papin: 'Padre pelo atraso de um trem?'

Com meus 90 anos de idade e estando para completar 65 anos de sacerdócio, resolvi entrar no “túnel do tempo”

Frei Papin: 'Padre pelo atraso de um trem?'

O frade dominicano Lourenço Maria Papin, O.P.

Publicado em: 30 de julho de 2022 às 02:23

Frei Lourenço Maria Papin, O.P.
Frade dominicano, exerceu 16 anos de apostolado em Santa Cruz do Rio Pardo, onde recebeu os títulos de Cidadão Santa-Cruzense e de Comendador. Foi transferido para Goiânia em 2017

Com meus 90 anos de idade e estando para completar 65 anos de sacerdócio, resolvi entrar no “túnel do tempo” e voltar à minha infância na pacata cidade onde nasci, Bernardino de Campos-SP, no sudoeste paulista, na então chamada Média Sorocabana e carinhosamente cognominada “Pérola do Planalto.” Senti-me como que envolto numa nuvem de imensa saudade.

Parafraseando Chico Buarque: a mesma Igreja, a mesma praça, o mesmo jardim, o mesmo Grupo Escolar. A mesma estação ferroviária da Estrada de Ferro Sorocabana, na época tão movimentada: trens de carga, trens passageiros, o trem “Ouro Verde” e o trem “Misto;” locomotivas possantes movidas a vapor, com seus apitos melodiosos, ora alegres, ora doídos e chorosos. Que simpático o linguajar do chefe-de-trem: “Bernardino de Campos, baldeação pra Santa Cruz!” E quem se baldeava, tomava o ramalzinho para Santa Cruz, com sua pequena locomotiva, dois vagões de passageiros, um ou dois de carga, percorrendo 24 Km em sessenta minutos de romântica viagem.

Oh, trens queridos da minha infância! Trens que passaram, que não voltam, que não existem mais!

E vou relembrando meus pais, Seu João e Dona Palmira, meus oito irmãos, Celso, Djalma (Jaime), Elisa (Isa), Maria Neusa, José Luiz (Zezinho), Geraldo (Tito), Walter e a caçula Edna Maria. Um trocadilho de minha mãe em pleno tempo pascal, que me deixou embaraçado: ”fiz uma novena de natal (nove filhos)!” Família simples, marcada por forte tradição religiosa com raízes no além mar. E vou relembrando os carinhosos “nonnos” e “nonnas:” Lorenzo e Regina, Luigi e Genovefa, imigrantes italianos no crepúsculo do século XIX.

“Bênção, pai, bênção, mãe; bênção, nonno, bênção, nonna”: uma prece e lembrança de criança que se prolongam até hoje no mistério da fé-saudade.

Como está longe aquela ensolarada tarde de Corpus Christi de 1940! As ruas de terra branca de minha cidade, adornadas com lindas hastes de bambu verde-oliva; das janelas das casas, cândidas toalhas pendentes, entremeadas de perfumadas flores.

E a procissão da Eucaristia devotamente caminhando. Numa parada da procissão, joelhado entre meu pai e minha mãe, com meus oito anos, ainda que distraído, escutei a voz forte de Pe. Francisco, zeloso vigário da paróquia, cantando com o povo: “Espalhai no Brasil os sacrários e mandai sacerdotes, Senhor”. Foi quando pensei pela primeira vez: vou ser padre, pois se estão pedindo sacerdotes é porque estão faltando. Um pensamento de criança que ficou gravado no sigilo de meu inconsciente.

Aos doze anos, um bondoso e querido amigo de infância, o Dudu Vac, convidou-me para ser coroinha com ele. “Confiteor Deo, Dominus vobiscum... Orate fratres”... que latinório complicado e divertido para um garoto! Por onde você anda, Dudu? Há quantos anos não nos vemos! Obrigado pelo seu convite. Graças a você aconteceu o que passo a narrar.

Corria o mês de dezembro de 1944. Lá pelas 6h30, um padre dominicano, Frei Henrique Sbrogiò, vindo de Santa Cruz, no ramalzinho, chega à minha cidade. Deveria embarcar rumo a São Paulo, no trem passageiro, o “tronco”, que vinha de Presidente Prudente, na Alta Sorocabana. O trem estava com um atraso de duas horas. O piedoso dominicano aproveitou o atraso para celebrar a Missa na Igreja Matriz. Lá se encontrou comigo, coroinha, com meus treze anos, que o serviu na celebração da Missa.

Aconteceu, então, uma breve conversa vocacional daquele frade comigo, convidando-me para ser padre.

— Até logo, menino, não posso perder o trem; voltarei daqui um mês para conversar com seus pais.

— Bênção, padre, e boa viagem.

E o frei foi embora... e o frei voltou como prometera. E eu também fui embora... e não voltei, começando a vida de seminário, na Escola Apostólica Dominicana Santa Catarina de Sena de Santa Cruz do Rio Pardo, da qual o frei era Diretor.

De trem fui para Santa Cruz, de trem fui para o Noviciado em São Paulo. E de navio fui para a Itália para os estudos de Filosofia e Teologia.

Os anos passaram e o mundo deu tantas voltas. Não terá sido pelo atraso de um, trem que padre me tornei? Acredito na presença e na ação amorosa de Deus na simplicidade e humildade desse acontecimento. Pelo atraso de um trem, sim, mas sobretudo pelo testemunho de vida cristã de meus pais.

Depois de sete anos, da Itália voltei para a Primeira Missa em minha terra natal. E não é que ali de trem eu chegue?

Certo dia, disse ao meu Bispo de São Paulo, Dom Antônio Celso Queiroz (Bispo emérito de Catanduva-SP): pois é, não fosse o atraso de um trem, talvez hoje sacerdote eu não seria. Ao que ele me respondeu: Deus arrumaria outro acontecimento para chamá-lo. Quanto me alegraram essas palavras, caro amigo Dom Celso!

Por isso tudo, gosto tanto de trens, de sua história, de sua poesia e melodia, de seu encanto e magia, tudo ainda gravado na criança que está em mim. É uma pena que os trens passageiros estejam desaparecendo de nossa terra.

Trens queridos de minha infância, de meu sacerdócio, de meus sonhos, de minhas saudades, de meus amores, de meus temores e de minhas esperanças.

Parafraseando Adoniron Barbosa: trens da vida, trens da história, trens que passam e que voltam, “trens das onze”, trens que não voltam, “trens das onze”, trens que não se pode perder!

Parafraseando São Francisco: louvado sejas, meu Senhor, pelo meu irmão trem que continua passando nas numerosas estações de minha vida de padre.

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