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Padeiro que escapou de acidente morre em Santa Cruz aos 90 anos

Alziro foi padeiro tradicional e desistiu de viagem trágica na última hora

Padeiro que escapou de acidente morre em Santa Cruz aos 90 anos

Publicado em: 30 de abril de 2022 às 00:44
Atualizado em: 03 de maio de 2022 às 13:34

Sérgio Fleury Moraes

O padeiro aposentado Alziro Cândido de Oliveira morreu na tarde de sexta-feira, 29, em Santa Cruz do Rio Pardo. Ele tinha 90 anos e teve complicações de uma infecção e pneumonia. Alziro era conhecido como “Zilão” e durante muitos anos foi dono de padaria na cidade.

A trajetória dele foi a de um vencedor. Nascido em São Pedro do Turvo, Alziro foi peão de boiadeiro na propriedade do pai, Antônio Cândido, e depois dono de bar naquela cidade.

Segundo o filho Alziro Khüne de Oliveira, o “Zilinho”, o pai costumava contar histórias da época em que “tocava” boiada entre São Pedro do Turvo e Ourinhos, quando precisava pernoitar no meio do mato.

Também jogou futebol nos tempos de São Pedro do Turvo, quando era o ponta-esquerda com a “canhota” mais poderosa da cidade, segundo os amigos. Em Santa Cruz, ele chegou a fazer testes na Esportiva, mas desistiu do futebol para se dedicar ao comércio de pães.

Quando veio para Santa Cruz do Rio Pardo, Alziro montou uma das padarias mais tradicionais da cidade, que mais tarde foi batizada de “Três Oliveiras”. Ficava na rua Euclides da Cunha, onde hoje é a padaria “Dona Padoka”.

Antes, porém, o estabelecimento se chamava “Record” e ficava num prédio perto da loja de conveniência “Algo Mais”.

‘Zilão’, nos últimos anos de vida

De certa forma, Alziro revolucionou o ramo de padarias em Santa Cruz e se tornou especialista em pães e doces. Eram famosas as roscas com pedaços de frutas e, principalmente, o pudim de doce de leite e laranja.

Quando ele comprou o prédio na quadra de cima da mesma rua, a padaria mudou para “Três Oliveiras” e recebeu novas e modernas instalações.

O negócio cresceu tanto que o filho Zilinho abriu uma distribuidora de pães no início da década de 1980, revendendo os produtos produzidos pelo pai.

Alziro teve vários momentos marcantes em sua vida. Talvez o mais tenso aconteceu no dia 15 de agosto de 1963, quando um trágico acidente tirou a vida de dez torcedores da Associação Esportiva Santacruzense que viajavam para São Caetano para acompanhar o penúltimo jogo do time naquela temporada do campeonato paulista da Segunda Divisão.

A Esportiva sagrou-se campeã dias depois, mas o jogo contra o Cerâmica foi marcado pela tragédia dos torcedores que perderam a vida no quilômetro 191 da rodovia Raposo Tavares. A perua kombi que transportava o grupo bateu de frente com um caminhão FNM que trafegava na contramão.

Foi provavelmente o dia mais triste na história de Santa Cruz do Rio Pardo. Em vez da festa pela vitória de 1x0, que deixou a Esportiva a um empate do título no jogo final, a cidade acompanhou um dos maiores enterros coletivos.

Quando a notícia do acidente chegou a Santa Cruz, imediatamente começaram a circular os “santinhos” com a lista dos torcedores que morreram esmagados pelo caminhão. E lá estava o nome de Alziro.

Era engano, pois o padeiro desistiu da viagem na última hora. Um funcionário havia faltado ao trabalho e ele precisou se desdobrar para atender a enorme clientela de pães.

O enterro coletivo dos torcedores mortos no acidente de 1963: primeiro “santinho” trazia o nome de Alziro

Em 2004, quando foi entrevistado pelo jornal, Alziro contou que, de fato, ele iria viajar com o grupo, mas teve um pressentimento de que algo poderia acontecer. Um dos amigos, Adelmo Morandim, ainda insistiu em levá-lo, batendo na porta da padaria na madrugada daquela quarta-feira, 15 de agosto de 1963.

Adelmo, por sinal, aceitou viajar na kombi para fazer companhia a Alziro. Além do pressentimento, o padeiro ponderou que certamente chegaria da viagem muito cansado para trabalhar na noite seguinte.

Foi o momento da vida em que ele escapou da morte. Durante muitos anos, Alziro guardou o “santinho” de luto, com a lista dos mortos no terrível acidente, impresso às pressas com o nome do padeiro de Santa Cruz.

Assim que recebeu a notícia da tragédia, Alziro viajou até o local do acidente. Ao ver o triste cenário, ele teve uma crise nervosa e precisou ser medicado num hospital da região. “Acredito que sou um homem de sorte”, disse em 2004.

De fato, Alziro constituiu um sólido comércio de pães e uma família formada depois de um casamento perfeito com Neide. “Meus pais se amavam muito”, conta o filho “Zilinho”, que foi governador do Rotary Club.

E realmente “Zilão” tinha muita sorte, especialmente em pescarias. Segundo o filho Zilinho, ninguém entendia o “macete” dele para pescar peixes enormes. Era outra de suas especialidades.

A bondade do casal Alziro e Neide também era uma característica. Quem batesse na porta da residência da família ou na padaria durante as madrugadas, não saía de mãos vazias. “Ele sempre tinha um saco de pães para doar a quem necessitava”, conta Zilinho. Também atendia várias instituições assistenciais.

Claro que, como toda família, Alziro teve seus momentos de sofrimento. Ele perdeu um dos filhos — Álvaro Domingos Khüne de Oliveira — e em 2013 morreu a mulher Neide. Foi quando o padeiro deixou de acompanhar os amigos nos jogos de baralho. “Foram dois baques enormes na vida dele”, disse o filho Zilinho.

Com problemas de saúde, Alziro morreu na véspera de seu aniversário de 91 anos. Além de Zilinho, Alziro Cândido de Oliveira deixou também os filhos Cidinha, Maya e Maria de Fátima. Seu sepultamento estava programado para acontecer no sábado, 30, às 11h. 

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